De Nuno Tomaz Santos, 7/01/2025
Hoje, ao ouvir o meu paciente, deparei-me com a profundidade da sua dor, expressa numa voz que parece carregar um peso acumulado ao longo de anos. Fui tocado pela dureza com que ele se trata, pela falta de espaço que dá a si mesmo para ser mais do que a vergonha que o consome ou a culpa que o silencia. Cada palavra que ele pronunciou parecia envolver uma luta interna, quase como se ele estivesse a justificar a própria rejeição de si mesmo. É uma rejeição tão enraizada que se tornou a sua verdade.
Enquanto ele falava da culpa que sente, recordei as palavras de Paul Gilbert sobre a autocrítica como uma defesa evolutiva. A culpa, para este homem, tornou-se uma forma de tentar controlar o incontrolável, uma maneira de lidar com a impotência sentida no passado. Contudo, essa mesma culpa solidificou-se numa armadura que agora o separa de qualquer possibilidade de aceitação. Ele vê a autocompaixão como algo inalcançável, como se fosse uma dádiva destinada apenas a quem não carrega a “mácula” que ele acredita ter. É doloroso perceber como a vergonha, como descreve Kristin Neff, pode ser uma prisão emocional que o impede de ver-se como digno de cuidado.
Também foi evidente a fragmentação do self que ele vive. Ele descreve-se como uma coleção de partes desconexas, algumas enterradas em memórias das quais tenta fugir, outras como máscaras que usa para sobreviver ao quotidiano. Esta dissociação trouxe-me à mente o trabalho de Philip Bromberg, que fala da importância de “ficar nos espaços” entre essas partes fragmentadas. A resistência que ele tem em se conectar consigo mesmo é compreensível; afinal, entrar nesses espaços significa abrir portas para uma dor que ele evitou por tanto tempo. Mas é precisamente nesse encontro, por mais assustador que pareça, que reside a oportunidade de cura.
O medo que ele sente ao se aproximar das suas emoções é palpável. Quando ele falou do pavor de se tornar vulnerável, lembrei-me de Diana Fosha, que descreve a vulnerabilidade como o portal para a transformação emocional. Mas para alguém que foi ferido num estado de vulnerabilidade, esse convite soa mais como uma ameaça. Ele aprendeu que abrir-se significa ser magoado, rejeitado, invisível. Assim, proteger-se tornou-se o seu instinto primário, ainda que esse mesmo instinto agora o isole.
Há também o vazio deixado por relações de vinculação (relações primárias) desorganizadas, onde o cuidado e a validação nunca chegaram. Ele confessou não saber como seria tratar-se com delicadeza, porque nunca recebeu essa amabilidade do mundo à sua volta. Como é que se aprende a compaixão se ela nunca foi ensinada? Jessica Benjamin lembra-nos que a compaixão nasce no reconhecimento mútuo, na experiência de ser visto e aceite pelo outro. O meu paciente nunca teve esse reconhecimento e, por isso, parece tão difícil para ele olhar para si mesmo sem a lente da rejeição.
No entanto, entre as suas palavras de dor e resistência, percebo algo mais. Ele está aqui. Ele permitiu-se falar, mesmo que timidamente, das suas feridas. E isso é uma faísca. Talvez uma pequena chama, mas uma que pode ser alimentada. Tal como Bessel van der Kolk afirma, a recuperação do trauma não é linear, mas é uma reconexão gradual com o corpo, a mente e as emoções. Esse processo não é imediato, nem pode ser apressado.
Pergunto-me: como ajudá-lo a acreditar que ele merece ser tratado com compaixão? Que ele merece essa mesma compaixão que eu sinto por ele agora? Acredito que, como sugere Paul Gilbert, o primeiro passo é ajudá-lo a diminuir o volume da sua autocrítica, a reconhecer que essa voz que o condena não é ele, mas uma proteção que já não serve. E também, como enfatiza Diana Fosha, oferecer-lhe um espaço onde a vulnerabilidade seja segura, onde ele possa, aos poucos, começar a tocar na dor sem ser esmagado por ela.
Hoje, mais do que nunca, senti que a autocompaixão não é apenas um conceito. É uma prática revolucionária, especialmente para aqueles que se veem como indignos dela. Enquanto o meu paciente continuar a vir aqui, a permitir-se falar, mesmo que com medo, eu estarei ao seu lado. Talvez, por agora, ele não consiga acreditar que merece cuidado. Mas eu acredito. E vou guardar essa crença por ele, até que um dia ele possa tomá-la para si.