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Elogio: E Se o Mais Difícil For Receber?

Há algo profundamente curioso na experiência humana que raramente nos ensinam a pensar: muitas vezes acreditamos que o sofrimento mais intenso nasce da crítica, da rejeição, do abandono, da humilhação ou da violência que o outro nos dirige. Crescemos a acreditar que aquilo que nos fere é o olhar que nos diminui, a palavra que nos ataca, a ausência que nos abandona. E, de facto, sabemos hoje que experiências repetidas de falha relacional deixam marcas profundas no desenvolvimento psíquico, moldando aquilo a que John Bowlby (1969) chamou internal working models: mapas internos silenciosos através dos quais aprendemos quem somos, o que esperar dos outros e, talvez sobretudo, o quanto acreditamos merecer cuidado, amor e reconhecimento. Mas talvez exista uma verdade mais desconcertante, menos intuitiva e, por isso mesmo, infinitamente mais difícil de atravessar: para muitas pessoas, aquilo que verdadeiramente desorganiza não é a ausência de amor. É o momento em que finalmente recebem algo bom — e não sabem ainda como suportá-lo.

Pensemos, por exemplo, no poder aparentemente simples de um elogio. À superfície, um elogio parece apenas uma palavra positiva: alguém diz-nos que admira a nossa inteligência, reconhece a nossa competência, valoriza a nossa presença, aprecia a nossa beleza, sente-se tocado pela forma como existimos no mundo. Parece banal. Parece leve. Parece apenas um gesto agradável que nos faz sentir bem. Mas a ciência contemporânea diz-nos algo radicalmente diferente. A neurociência social tem demonstrado que receber reconhecimento positivo ativa circuitos cerebrais profundamente ligados à recompensa, à pertença e à sobrevivência relacional, incluindo o estriado ventral, o córtex pré-frontal medial e sistemas dopaminérgicos associados ao valor social e à antecipação de segurança interpessoal (Eisenberger & Lieberman, 2004). Em termos simples: o cérebro não recebe um elogio como uma mera frase. O cérebro escuta um elogio como informação existencial. Escuta, sem palavras, algo muito mais profundo: a tua presença tem valor para outro ser humano.

E é aqui que tudo se torna extraordinariamente complexo. Porque a pergunta decisiva nunca foi se gostamos de receber elogios. A verdadeira pergunta é outra: o que acontece dentro de nós quando alguém nos devolve uma imagem de nós próprios radicalmente diferente daquela que passámos a vida inteira a acreditar ser verdadeira? Se crescemos em ambientes onde o reconhecimento foi inconsistente, onde a proximidade emocional foi imprevisível, onde o amor esteve condicionado, onde o nosso corpo foi invadido, onde a vergonha se tornou experiência repetida, onde o olhar do outro não confirmou a nossa dignidade mas antes nos ensinou a duvidar do nosso valor, então algo muito particular acontece: o self organiza-se silenciosamente em torno de determinadas convicções profundas. Não necessariamente conscientes. Não formuladas em palavras. Mas inscritas no corpo, na memória implícita, no sistema nervoso. Convicções como estas: não sou suficientemente importante, as pessoas acabam sempre por partir, quando preciso verdadeiramente do outro algo corre mal, ser visto é perigoso, não devo esperar demasiado porque a proximidade traz sofrimento.

Anos depois, alguém aproxima-se e oferece-nos algo inesperado: reconhecimento genuíno. Um elogio verdadeiro. Não manipulação. Não sedução vazia. Não formalidade social. Um encontro real em que outro ser humano olha para nós e diz, explícita ou implicitamente: eu vejo em ti algo profundamente valioso. E aquilo que seria suposto produzir apenas prazer desencadeia frequentemente algo paradoxal. Surge desconforto. Surge vergonha. Surge incredulidade. Surge necessidade de desvalorizar: não é nada de especial. Surge desconfiança: deve querer alguma coisa de mim. Surge afastamento. Porque naquele momento não estamos apenas a receber palavras positivas. Estamos a ser confrontados com algo infinitamente mais ameaçador: a possibilidade de que toda a narrativa identitária construída ao longo de décadas possa estar errada.

Talvez este seja um dos aspetos mais fascinantes da mente humana. O cérebro não procura necessariamente felicidade. O cérebro procura coerência preditiva. Como demonstram modelos contemporâneos de predictive processing (Friston, 2010), o sistema nervoso aprende padrões repetidos e organiza-se em torno daquilo que consegue antecipar. Isto significa algo profundamente desconcertante: quando crescemos habituados a determinadas formas de sofrimento relacional, o sofrimento torna-se familiar. E aquilo que é familiar, mesmo doloroso, torna-se neurologicamente seguro. Por isso, quando uma experiência nova contradiz brutalmente aquilo que sempre aprendemos sobre nós próprios, o organismo pode reagir como se estivesse perante ameaça. Não porque algo mau esteja a acontecer. Mas porque algo bom está finalmente a acontecer — e o sistema não sabe ainda como viver dentro dessa nova realidade.

Talvez por isso tantas pessoas saibam sobreviver extraordinariamente bem à dor e, paradoxalmente, tenham enorme dificuldade em receber cuidado verdadeiro. Algumas pessoas suportam abandono, rejeição, silêncio, violência emocional e perda durante décadas. Desenvolvem inteligência emocional sofisticada para sobreviver ao sofrimento. Tornam-se observadores profundos da alma humana. Aprendem a compreender trauma, intimidade, desejo, vergonha, dependência, luto e solidão. Tornam-se especialistas em pensar aquilo que dói. Mas quando alguém se aproxima e oferece algo aparentemente simples — admiração genuína, ternura espontânea, reconhecimento profundo — surge uma experiência quase insuportável: não sabem ainda como acreditar que aquilo pode ser real.

E talvez aqui esteja uma das formulações mais importantes da psicanálise relacional contemporânea. Jessica Benjamin (2004) ensinou-nos que o self não se constrói apenas sendo amado. Construímo-nos quando somos reconhecidos por outra subjetividade real. Quando outro ser humano nos vê não como objeto funcional, não como extensão narcísica, não como corpo disponível, não como presença descartável, mas como alguém cuja existência interna importa. Ser reconhecido significa algo muito mais radical do que ser apreciado. Significa descobrir que ocupamos verdadeiramente espaço dentro da mente do outro. E para quem passou a vida inteira a organizar-se em torno da sensação de não ocupar esse espaço, essa experiência pode ser simultaneamente a mais bela e a mais aterradora de todas.

Talvez por isso o elogio tenha um poder tão subestimado. Porque um elogio verdadeiro não nos oferece apenas validação externa. Um elogio pode tornar-se uma experiência transformadora de reorganização psíquica. Heinz Kohut (1971) mostrou-nos que experiências consistentes de espelhamento permitem ao self desenvolver coesão interna, ajudando-nos a internalizar a sensação de sermos suficientemente valiosos simplesmente por existirmos. E quando esse espelhamento falhou precocemente, cada gesto posterior de reconhecimento torna-se muito mais do que gentileza. Torna-se uma oportunidade de reconstrução interna.

Mas para que essa reconstrução aconteça precisamos atravessar algo profundamente difícil: permitir que a experiência positiva nos toque sem a destruir imediatamente através das nossas defesas habituais. Porque talvez o verdadeiro desafio nunca tenha sido aprender a sobreviver ao sofrimento. Talvez o desafio seja muito maior. Talvez seja aprender a sobreviver emocionalmente à possibilidade de alguém realmente gostar de nós.

Pense nisso com honestidade radical. Quantas vezes passamos a vida inteira a tentar tornar-nos suficientemente extraordinários para finalmente merecermos permanecer dentro do olhar do outro? Trabalhamos mais. Produzimos mais. Estudamos mais. Aperfeiçoamo-nos incessantemente. Tentamos ser mais inteligentes, mais desejáveis, mais competentes, mais úteis, mais especiais, como se, algures dentro de nós, permanecesse uma convicção antiga e silenciosa: se eu me tornar suficientemente valioso, talvez finalmente alguém fique. Mas talvez exista uma verdade infinitamente mais difícil de aceitar. Talvez nunca tenhamos precisado tornar-nos extraordinários para merecer reconhecimento. Talvez o problema nunca tenha estado na ausência de valor. Talvez o problema sempre tenha estado na incapacidade profunda de acreditar nele quando finalmente alguém o devolve.

E talvez seja precisamente aqui que começa a cura. Não quando aprendemos a gostar de receber elogios. Não quando começamos simplesmente a dizer obrigado. Não quando melhoramos autoestima de forma superficial. A cura talvez comece no instante quase imperceptível em que conseguimos suportar uma experiência nova sem fugir dela. O momento em que alguém nos olha genuinamente e diz, por palavras ou por presença: eu vejo algo profundamente valioso em ti — e, pela primeira vez, não respondemos imediatamente com desconfiança, vergonha ou afastamento. Apenas permanecemos ali. Respiramos. E deixamos uma pergunta nova nascer lentamente dentro de nós.

E se a história que sempre contei sobre quem sou nunca tiver sido verdade?

Talvez o elogio tenha esse poder silencioso e devastadoramente belo. Não o poder de nos fazer sentir especiais durante alguns segundos. Mas algo muito maior. O poder de abrir uma fissura na identidade antiga. O poder de confrontar décadas de crenças construídas em torno da dor. O poder de obrigar o sistema nervoso, o corpo e a mente a contemplarem uma hipótese inteiramente nova.

Talvez eu nunca tenha sido aquilo que aprendi a acreditar sobre mim. Talvez eu nunca tenha sido demasiado. Talvez eu nunca tenha sido insuficiente. Talvez eu nunca tenha sido alguém destinado a ser apenas tolerado. Talvez eu nunca tenha precisado lutar tanto para merecer permanecer. Talvez, no lugar mais profundo da experiência humana, aquilo que verdadeiramente nos assusta não seja a possibilidade de não sermos amados. Talvez o que verdadeiramente nos assusta seja descobrir, finalmente, que talvez sempre tenhamos sido profundamente dignos de amor — e que toda a nossa vida foi construída precisamente para não conseguirmos acreditar nisso. E talvez seja exatamente por isso que, às vezes, as palavras mais difíceis de receber não são aquelas que nos ferem. São aquelas que nos devolvem, pela primeira vez, a possibilidade radical de começarmos a existir de forma diferente dentro de nós próprios.

**Porque há pessoas que aprenderam a sobreviver à dor durante toda a vida.

Mas ainda estão lentamente a aprender a sobreviver ao amor quando ele finalmente chega.**

Referências
Benjamin, J. (2004). Beyond doer and done to: An intersubjective view of thirdness. Psychoanalytic Quarterly.
Bowlby, J. (1969). Attachment and Loss: Vol. 1. Attachment. Basic Books.
Eisenberger, N. I., & Lieberman, M. D. (2004). Why rejection hurts: A common neural alarm system for physical and social pain. Trends in Cognitive Sciences.
Friston, K. (2010). The free-energy principle: A unified brain theory? Nature Reviews Neuroscience.
Kohut, H. (1971). The Analysis of the Self. International Universities Press.

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Psicólogo Clínico (OPP 30806) com especialização em Sexologia Clínica, Suicídio e Comportamento Autolesivos

TAV – Técnico de Apoio à Vítima 

Membro da PsiRelacional – Associação de Psicanálise Relacional

Doutorando em Psicologia Clínica no Ispa – Instituto Universitário

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