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Amar Sem Desaparecer

Reflexões Para Além do Tempo da Sessão

Depois de mais uma semana de trabalho clínico, dei por mim a regressar a uma frase escutada no final de uma sessão, dita de forma simples, quase envergonhada, como tantas verdades profundas costumam surgir: “Como é que eu continuo a gostar de alguém que me fez mal?” Noutra sessão, dias depois, surgiu outra formulação, diferente apenas na superfície: “Porque é que ainda sinto falta de quem não conseguiu ficar?” Nenhuma destas frases pertence a uma história identificável; pertencem à experiência humana partilhada de quem já amou para além do conforto. E talvez ambas apontem para uma das perguntas mais difíceis da intimidade: como integrar uma relação que nos despertou para o amor, para a dependência, para a dor e para o real — sem continuar preso à necessidade de que ela tivesse sido diferente para eu poder ser inteiro? Há relações que não nos mudam porque foram perfeitas, mas porque nos obrigaram a encontrar o real. Durante muito tempo, talvez se imagine que amar é ser salvo da dor, ser finalmente visto sem falha, recebido sem limite, escolhido sem ambivalência. Talvez se espere que o outro — terapeuta, amante, amigo, figura de cuidado — nos reconheça de tal modo que a história antiga deixe de pesar. A teoria da vinculação mostrou que a necessidade de procurar uma figura segura não é uma fraqueza infantil que desaparece na idade adulta, mas uma condição estruturante do desenvolvimento humano: precisamos de vínculos suficientemente previsíveis para regular medo, solidão, ameaça e desorganização interna (Bowlby, 1969/1982, 1988). Isto não significa reduzir o amor adulto à infância, mas reconhecer que muitas relações importantes reativam modelos internos de segurança, abandono, confiança, espera e protesto. A psicanálise relacional acrescenta uma formulação ainda mais radical: nenhuma relação adulta acontece apenas no presente. Entramos nela com memórias explícitas, mas também com memória implícita; com narrativas que conseguimos contar, mas também com formas antigas de estar com o outro que se exprimem no corpo, no medo, no silêncio, na urgência, na vergonha, na raiva e na esperança antes de se exprimirem em palavras (Matos, 2025; Velasco, 2006). Mitchell (1988) deslocou a compreensão da mente de uma estrutura isolada para padrões relacionais constituídos num campo interpessoal; Bromberg (1998) mostrou como diferentes estados do self podem coexistir, dissociar-se e emergir na relação; Benjamin (1995) sublinhou que amar implica reconhecer o outro como sujeito, e não apenas como objeto da nossa necessidade. Por isso, quando uma relação se torna profundamente importante, não se ativa apenas aquilo que desejamos agora: ativam-se também modos antigos de esperar, defender, pedir, atacar, fugir, depender e procurar reconhecimento. Mas há um momento, por vezes brutal, em que a relação deixa de funcionar como abrigo idealizado e passa a revelar duas realidades separadas. O outro já não é apenas a resposta imaginada à nossa fome; torna-se alguém com limites, opacidades, defesas, história própria, capacidade de falhar e também de ser afetado por nós. E nós deixamos de ser apenas quem foi ferido ou quem espera ser salvo; descobrimos que também podemos ferir, cobrar, pressionar, assustar, exigir demais ou desaparecer de nós próprios para não perder o vínculo. Esta passagem é dolorosa porque destrói uma fantasia narcísica de inocência: a fantasia de que amar nos torna automaticamente bons, de que sofrer nos torna automaticamente justos, de que precisar muito nos dá direito a tudo, ou de que o outro, por nos ter tocado, passa a dever-nos uma reparação ilimitada. A tradição das relações de objeto ajuda-nos a pensar este ponto com rigor: em Klein, a posição depressiva introduz a possibilidade de integrar amor e agressividade em relação ao mesmo objeto; em Fairbairn, o sujeito não procura primariamente prazer, mas objeto, relação, ligação, e por isso pode permanecer preso até a objetos maus, porque a ausência de objeto pode ser vivida como mais intolerável do que a dor do objeto insatisfatório (Fairbairn, 1952; Klein, 1940; Matos, 2025). Ferenczi tinha já aberto uma via decisiva ao mostrar que a clínica não pode ser pensada apenas como conflito intrapsíquico: há trauma, há desencontro de linguagens, há necessidade de ternura que pode ser confundida, invadida ou erotizada pela linguagem do adulto, e há sofrimento que nasce quando a relação que deveria cuidar se torna excessiva, ausente, intrusiva ou desmentidora (Ferenczi, 1933). Coderch (2012), retomando Ferenczi e Fairbairn, clarifica precisamente esta viragem: o modelo relacional torna-se necessário quando percebemos que muitos sofrimentos não derivam apenas de desejos reprimidos, mas de falhas, défices, ausências de resposta, perturbações na constituição do self e experiências relacionais que não puderam ser simbolizadas. A relação, então, não é mero cenário onde se interpreta o paciente; é parte daquilo que adoece e também parte daquilo que pode transformar. Mas essa transformação não acontece por magia. O real não cura apenas por ser real. O encontro com o real pode curar quando há enquadre, reconhecimento, assimetria bem sustentada, capacidade de pensar o que se passa no campo e possibilidade de reparar; quando isso falha, o real pode desorganizar, porque expõe demasiado depressa aquilo que ainda não sabíamos suportar: a nossa necessidade, a nossa raiva, a nossa vergonha de precisar, o nosso medo infantil de não sermos escolhidos, o nosso desejo de sermos especiais para alguém que ocupa um lugar impossível. Stolorow e Atwood (1992) descreveram como a dor psíquica se intensifica quando a experiência emocional não encontra acolhimento relacional suficiente. Nesses momentos, não dói apenas o que acontece; dói o facto de aquilo que acontece confirmar uma organização antiga do mundo: “quando preciso, sou demasiado”; “quando amo, perco-me”; “quando mostro a minha fome, o outro foge”; “quando sou visto, sou abandonado”. E a relação também mostra o limite do outro: a sua defesa, a sua fuga, a sua incapacidade de reconhecer, o seu silêncio, a sua dificuldade em permanecer sem se perder. Há vínculos que começam como promessa de cuidado e acabam por expor uma verdade mais dura: ninguém é só função, ninguém é só técnica, ninguém é só paciente, ninguém é só terapeuta, ninguém é só forte. Isto não significa apagar os papéis; pelo contrário, significa levá-los mais a sério. O terapeuta é pessoa, mas não é “apenas pessoa” dentro da relação clínica; o paciente é sujeito ativo, mas não é responsável por sustentar a função terapêutica. A clínica relacional não autoriza a simetrização ingénua: reconhece que há duas subjetividades, mas uma delas tem uma responsabilidade profissional, ética e técnica acrescida. Como lembra Coderch (2012), a psicoterapia é uma relação pessoal, mas sistematizada, eticamente enquadrada e orientada para diminuir o sofrimento e favorecer autonomia; por isso, quando a relação clínica se torna demasiado simétrica, aquilo que parece intimidade pode tornar-se confusão, aquilo que parece autenticidade pode tornar-se inversão de papéis, e aquilo que parecia cuidado pode tornar-se peso para quem precisava ser cuidado. Há corpos emocionais dentro dos papéis. Há erotizações subtis que não pertencem apenas ao sexo, mas à intensidade de querer ser olhado, escolhido, tocado na alma, sentido como único. Em Amor, Anseio e Desejo: Sobre a Subjectividade Erótica do Analista, Steven Kuchuck mostra que a intimidade clínica convoca dimensões eróticas amplas — amorosas, corporais, românticas, identificatórias, transferenciais e contratransferenciais — e que a recusa defensiva de reconhecer essas dimensões pode empobrecer a compreensão clínica e favorecer dissociação, vergonha ou impasse (Kuchuck, s.d.). O erótico, aqui, não é necessariamente genital; pode ser o estremecimento de ser finalmente importante para alguém, a excitação silenciosa de ser pensado, a esperança corporal de caber no olhar de outro, o desejo de que uma mente toque o nosso corpo psíquico e de que um corpo simbólico dê consistência à nossa mente. Kuchuck lembra ainda que, em certas díades, especialmente masculinas, o material erótico pode ser dissociado ou não reconhecido, e que a dificuldade do analista em tolerar amor, desejo, admiração, agressividade ou rivalidade pode bloquear também a possibilidade de o paciente os pensar. Há dependências antigas que regressam com nova roupa — isto é, modos primários de precisar de colo, resposta, espelhamento, proteção, ternura, escolha e permanência que reaparecem em relações adultas ou clínicas sem se apresentarem como “infância”, mas como urgência presente. Há fome de colo que se confunde com amor. Há amor que se mistura com salvação. Há salvação que se transforma em cobrança. E há cobrança que, no fundo, pede apenas: não me abandones depois de me teres visto — isto é, depois de teres conhecido a minha necessidade, a minha vergonha, o meu desejo, a minha raiva, a minha dependência e aquilo que em mim costuma ficar escondido para eu continuar a ser amável. Talvez uma das maiores vergonhas humanas seja esta: precisar muito de alguém. Precisar a ponto de se perder clareza. Precisar a ponto de aceitar pouco, esperar demais, interpretar tudo, desculpar tudo, ou atacar antes de ser abandonado. Winnicott (1974) ajuda-nos aqui quando fala do medo de colapso: muitas vezes, aquilo que tememos como catástrofe futura é, na realidade, a sombra de um colapso já vivido, mas ainda não integrado como experiência psíquica. O sujeito teme que algo aconteça, mas esse “algo” já aconteceu num tempo em que não havia ainda capacidade para o representar. Por isso, certas urgências afetivas atuais não são simples exageros do presente; são tentativas de dar forma a experiências antigas que ficaram sem linguagem. Matos (2025), ao articular memória implícita e experiência traumática, descreve precisamente este modo como vivências nucleares podem permanecer arquivadas num inconsciente primário, sensorial, irrepresentável, repetindo-se em relações atuais sem que a pessoa consiga reconhecer a ligação entre o acontecimento presente e o trauma relacional anterior. Mas há outra vergonha igualmente profunda: perceber que também podemos assustar quem amamos. Que a nossa dor pode ter peso. Que a nossa intensidade pode tocar limites reais. Que não somos apenas feridos; também temos impacto. Esta consciência não serve para nos culpar. Serve para nos humanizar. Porque a maturidade não nasce quando encontramos o culpado absoluto, mas quando conseguimos suportar uma verdade mais complexa: houve amor e houve falha; houve presença e houve dano; houve encontro e houve retraumatização; houve beleza e houve colapso; houve responsabilidade assimétrica e, ainda assim, houve dois seres humanos dentro da cena. Nas relações fora da clínica, esta verdade obriga-nos a pensar reciprocidade, limites, cuidado mútuo e escolha. Nas relações clínicas, obriga-nos a acrescentar outra camada: a função terapêutica não pode ser abandonada só porque o terapeuta também sente, se defende, se comove, se assusta ou se vê implicado. O que o paciente traz — dependência, erotização, raiva, exigência, medo de abandono, desejo de ser especial — não é uma infração ao vínculo; é material clínico. Pode ser difícil, pode ser intenso, pode exigir supervisão, limites, nomeação, humildade técnica, ou até encaminhamento; mas não deve ser simplesmente devolvido ao paciente como se o problema fosse ele ter sentido demais. O perigo está em transformar a complexidade numa absolvição. Não é porque o outro também sofreu que deixou de ter responsabilidade. Não é porque houve ligação que a ferida deixa de importar. Não é porque alguém fez mais do que era técnico que isso se torna necessariamente bom. Às vezes, quando uma relação assimétrica se torna demasiado simétrica, aquilo que parecia intimidade torna-se confusão; aquilo que parecia verdade torna-se inversão de papéis; aquilo que parecia cuidado torna-se peso para quem precisava ser cuidado. E, no entanto, também seria pobre dizer que nada foi verdadeiro. Há relações que nos ferem precisamente porque tocaram zonas vivas. O desafio é não transformar o ferimento em destino. Não fazer do passado a autoridade final sobre tudo o que ainda podemos ser. Talvez amar de forma mais madura seja conseguir dizer: gosto de ti, mesmo sabendo que me magoaste; reconheço o que foi importante, sem negar o que foi destrutivo; não preciso odiar-te para me proteger; não preciso idealizar-te para preservar o valor do que vivi; não preciso que voltes para que aquilo tenha existido; não preciso desaparecer para continuar a amar. Esta é talvez a fronteira mais difícil: amar sem autoabandono. Porque muitos de nós aprendemos cedo que o vínculo se mantém à custa de nós próprios. Calamos a necessidade para não incomodar. Aceitamos a ausência para não parecer exigentes. Tornamo-nos compreensivos demais para não perder o lugar. Chamamos profundidade ao sofrimento. Chamamos lealdade à anulação. Chamamos amor à espera infinita por alguém que talvez nunca consiga reconhecer-nos como precisávamos. Klein ajuda-nos a pensar como amor e agressividade se entrelaçam quando o objeto amado se torna também objeto frustrante; Fairbairn permite-nos compreender por que razão o sujeito pode permanecer agarrado ao objeto insatisfatório, pois a necessidade de objeto pode ser mais forte do que a procura de prazer; Ferenczi lembra-nos que a ternura ferida pode ficar presa a linguagens que a confundem; Coderch recoloca tudo isto no horizonte de um modelo relacional em que o sofrimento é inseparável das falhas, intrusões e ausências de resposta que organizam o self. Mas o amor, quando amadurece, não nos pede que deixemos de existir. Pede-nos vulnerabilidade, sim; entrega, sim; disponibilidade para sermos afetados, sim; mas não exige que entreguemos a nossa dignidade como prova. Amar alguém não pode ser uma continuação da ferida original. Não pode ser o velho pacto silencioso: eu fico pequeno para que tu fiques. A certa altura, a pergunta deixa de ser “o que fui eu para o outro?” e passa a ser “quem me torno eu depois desta relação?”. Essa pergunta é dolorosa porque nos retira da espera. Obriga-nos a deixar de viver apenas em função da resposta que nunca veio, da reparação que talvez não seja possível, da explicação que talvez nunca chegue. E, no entanto, é aí que começa uma liberdade diferente. Não a liberdade fria de quem nunca precisou, mas a liberdade quente de quem precisou muito, amou muito, sofreu muito, e ainda assim começa a regressar a si. Talvez a integração seja isto: guardar o que foi vivo sem continuar preso ao que ficou por reparar. Aceitar que certas relações não voltam, mas continuam a trabalhar dentro de nós. Admitir que alguém pode ter sido importante sem ter sido suficientemente capaz. Reconhecer que fomos tocados sem fazer disso uma prisão. Deixar que a memória deixe de ser tribunal e se torne matéria de crescimento. O passado não desaparece; transforma-se quando ganha linguagem. O que antes era repetição pode tornar-se consciência. O que antes era dependência pode tornar-se critério. O que antes era vergonha pode tornar-se ternura por nós próprios — uma ternura que não desculpa tudo, mas reconhece e valida a dor sem nos reduzir a ela. O que antes era pergunta dirigida ao outro — “viste-me?, senti-te?, importei?” — pode, pouco a pouco, transformar-se numa afirmação interna: eu vivi, eu senti, eu amei, eu sofri, eu aprendi, eu continuo. Talvez seja isto que resta quando uma relação profunda não pode ser reparada como gostaríamos: a possibilidade de não desperdiçar a dor. Não para a romantizar, não para a chamar destino, não para a tornar bela à força, mas para a converter em lucidez. Amar — querer profundamente bem a alguém, desejar-lhe existência, importância e lugar, sem fazer da sua presença a condição da nossa própria sobrevivência — pode ensinar-nos o real. Perder alguém pode ensinar-nos o limite. Ser ferido pode ensinar-nos a nunca mais confundir ligação com anulação. E talvez a forma mais madura de continuar a amar seja esta: deixar que o outro permaneça importante na nossa história, mas já não soberano sobre a nossa vida.

Referências
Benjamin, J. (1995). Like subjects, love objects: Essays on recognition and sexual difference. Yale University Press.
Bowlby, J. (1969/1982). Attachment and loss: Vol. 1. Attachment (2nd ed.). Basic Books.
Bowlby, J. (1988). A secure base: Parent-child attachment and healthy human development. Basic Books.
Bromberg, P. M. (1998). Standing in the spaces: Essays on clinical process, trauma, and dissociation. Analytic Press.
Coderch, J. (2012). La práctica de la psicoterapia relacional. Ágora Relacional.
Fairbairn, W. R. D. (1952). Psychoanalytic studies of the personality. Routledge & Kegan Paul.
Ferenczi, S. (1933). Confusion of tongues between adults and the child. In Final contributions to the problems and methods of psycho-analysis.
Klein, M. (1940). Mourning and its relation to manic-depressive states. International Journal of Psychoanalysis, 21, 125–153.
Kuchuck, S. (s.d.). Amor, anseio e desejo: Sobre a subjectividade erótica do analista (B. Cardoso, Trad.).
Matos, M. (2025). Psicanálise relacional: Coletânea de conferências. PsiRelacional.
Mitchell, S. A. (1988). Relational concepts in psychoanalysis: An integration. Harvard University Press.
Stolorow, R. D., & Atwood, G. E. (1992). Contexts of being: The intersubjective foundations of psychological life. Analytic Press.
Winnicott, D. W. (1974). Fear of breakdown. International Review of Psycho-Analysis, 1, 103–107.

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Psicólogo Clínico (OPP 30806) com especialização em Sexologia Clínica, Suicídio e Comportamento Autolesivos

TAV – Técnico de Apoio à Vítima 

Membro da PsiRelacional – Associação de Psicanálise Relacional

Doutorando em Psicologia Clínica no Ispa – Instituto Universitário

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