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Dificuldade em Ter Orgasmo: o que o trauma, a vergonha, a dissociação e o medo de se entregar podem fazer à sexualidade

Pensar o orgasmo apenas como descarga fisiológica é insuficiente. Do ponto de vista científico e clínico, a resposta sexual humana é um processo biopsicossocial no qual o corpo, a emoção, a história relacional, os significados atribuídos ao desejo e o contexto interpessoal convergem de forma dinâmica. A sexologia clássica descreveu o orgasmo como o ponto culminante da resposta sexual, mas os modelos contemporâneos sublinham que a sua emergência depende do equilíbrio entre sistemas de excitação e de inibição sexual, e não apenas da presença de estímulo corporal (Bancroft et al., 2009; Masters & Johnson, 1966). Em termos mais rigorosos, o orgasmo pode ser entendido como um evento psicofisiológico de elevada intensidade que exige, ao mesmo tempo, ativação erótica suficiente (isto é, um nível de excitação sexual corporal e subjetiva suficientemente intenso e contínuo para sustentar a progressão do encontro sexual para além de uma reação fisiológica inicial), redução relativa do controlo cognitivo e sensação de segurança suficiente para que o self (isto é, o sentido de si, a experiência subjetiva de identidade, continuidade interna e coesão psicológica) tolere a entrega que o prazer implica (isto é, que a pessoa sinta que pode relaxar parcialmente a vigilância, deixar-se afetar, aproximar-se do clímax e permanecer psicologicamente íntegra, sem antecipar invasão, humilhação, abandono ou desorganização emocional excessiva). Por isso, uma sexualidade saudável não se reduz à ausência de disfunção, mas supõe a possibilidade de experiências prazerosas e seguras, livres de coerção, violência e humilhação. Ainda assim, este ponto precisa de ser clarificado: em sexologia e saúde sexual, “livres de coerção, violência e humilhação” refere-se à ausência de imposição, ameaça, abuso, degradação não consentida ou sofrimento imposto contra a vontade da pessoa; isto não exclui que, entre adultos capazes e em contexto de consentimento explícito, informado, negociado e reversível, algumas pessoas escolham práticas eróticas que envolvem dor, assimetria de poder ou humilhação erótica consensual. Nesses casos, o critério clínico central não é a aparência externa da prática, mas a presença real de consentimento, agência, segurança, negociação e possibilidade de interrupção sem punição (Bancroft et al., 2009; World Health Organization [WHO], n.d.).

Uma forma simples de sintetizar esta ideia central é a seguinte: o orgasmo ocorre quando três condições convergem simultaneamente — excitação corporal suficiente, segurança emocional suficiente e redução temporária do controlo mental. Quando uma destas dimensões falha, o processo pode interromper-se. Assim, uma pessoa pode sentir excitação física e, ainda assim, não conseguir atingir o orgasmo se o seu sistema emocional estiver em alerta ou se a experiência estiver carregada de significados ameaçadores (por exemplo: “posso perder o controlo”, “vou ficar demasiado vulnerável”, “vou ser julgado”, “isto pode significar dependência”, “depois posso ser abandonado”, “se eu me soltar demasiado algo mau pode acontecer”). Esta clarificação é importante porque muitas pessoas interpretam a dificuldade orgástica como ausência de desejo ou falha física, quando na realidade pode tratar-se de um fenómeno relacional e emocional muito mais complexo (Bancroft et al., 2009).

É precisamente aqui que a noção de entrega se torna central. Entregar-se, no contexto sexual, não significa submissão passiva (isto é, não significa anular a própria vontade, abdicar do consentimento, obedecer sem agência subjetiva ou ficar numa posição de mera passividade imposta) nem perda patológica do self (isto é, não significa colapso identitário, fragmentação grave, despersonalização maciça ou desaparecimento do sentido de si); significa permitir que a experiência deixe de ser governada sobretudo pela vigilância e passe a ser sustentada por uma confiança suficiente no corpo, no outro e na continuidade do próprio self (isto é, na capacidade de continuar a sentir-se o mesmo sujeito ao longo da experiência, sem vivenciar o prazer, a intensidade ou a vulnerabilidade como ameaça de desorganização interna). O orgasmo exige esta cedência temporária: durante alguns instantes, o sujeito já não se regula apenas pelo pensamento, pela observação de si ou pelo controlo voluntário, mas por uma organização mais sensorial, mais afetiva e mais implícita. Isto significa, em concreto, que a experiência passa a ser guiada menos pela monitorização consciente e mais por processos corporais, emocionais e relacionais automáticos que permitem ao prazer ganhar continuidade, profundidade e culminação (Bancroft et al., 2009).

Para clarificar ainda mais, podemos dizer que entrega significa três coisas ao mesmo tempo: permitir que o corpo conduza a experiência, aceitar a vulnerabilidade inerente ao prazer (isto é, o facto de o prazer intenso expor a pessoa à possibilidade de sentir muito, precisar mais, perder algum controlo, baixar defesas e tornar-se mais afetável) e confiar que essa vulnerabilidade não conduzirá a destruição psíquica (isto é, a uma vivência interna de colapso, aniquilação, fragmentação, vergonha intolerável ou desorganização emocional sentida como impossível de suportar). A dificuldade de orgasmo pode, assim, ser menos bem compreendida como “incapacidade de prazer” do que como “dificuldade em atravessar o limiar da entrega sem ativação excessiva dos sistemas de defesa”. O modelo dual do controlo sexual ajuda a compreender isto com precisão: quando os sistemas inibitórios ficam demasiado ativados — por medo de desempenho, receio das consequências, ameaça relacional, vergonha ou conflito interno — a excitação pode estar presente, mas não atingir a continuidade necessária para culminar em orgasmo (Bancroft et al., 2009).

A palavra ameaça, neste enquadramento, deve ser entendida em sentido amplo e não apenas como medo de agressão física. No contexto sexual, um estado de ameaça pode corresponder a qualquer condição interna em que o sistema nervoso interpreta a situação como parcialmente perigosa: risco de invasão, humilhação, perda de controlo, abandono posterior, colapso emocional, exposição excessiva ou repetição de uma experiência dolorosa. Em termos simples, ameaça significa que o corpo não se sente suficientemente seguro para abandonar o controlo. Uma pessoa pode ter ereção, lubrificação, aceleração fisiológica ou excitação genital e, ainda assim, manter-se em ameaça; o corpo responde, mas responde enquanto se defende. Clinicamente, isto pode manifestar-se como tensão muscular persistente, necessidade de monitorizar continuamente o outro, dificuldade em respirar livremente, sensação de “tenho de conseguir”, travão súbito quando o prazer cresce, quebra abrupta da excitação ou incapacidade de atravessar o limiar do orgasmo apesar de estimulação suficiente. A literatura mostra que o trauma pós-stress está associado a várias dificuldades sexuais, incluindo diminuição do desejo, pior funcionamento sexual global, maior sofrimento sexual e, em muitos casos, dificuldades ao nível do orgasmo, especialmente quando predominam evitamento, alterações negativas do humor e hipervigilância (Bird et al., 2021).

A vergonha é outro processo decisivo e frequentemente subestimado. Ao contrário da culpa, que se refere ao que se fez, a vergonha refere-se ao que se é ou ao modo como o self se sente exposto diante do olhar do outro. Na sexualidade, a vergonha pode organizar-se em torno do corpo, do desejo, da orientação sexual, das fantasias, da intensidade da excitação, da necessidade de contacto ou da simples experiência de precisar muito. Podemos compreender a vergonha sexual através de uma formulação simples: é a sensação de que o próprio desejo pode comprometer a dignidade do self (isto é, pode fazer a pessoa sentir-se diminuída, indigna, ridícula, excessiva, moralmente manchada ou menos merecedora de respeito e valor, aos seus próprios olhos ou aos olhos do outro). Por isso, não bloqueia apenas o comportamento; bloqueia a expansão do self (isto é, restringe a capacidade de a pessoa habitar plenamente o seu desejo, o seu corpo, a sua espontaneidade e a sua presença subjetiva, impedindo-a de sentir-se livre para querer, sentir e existir eroticamente na relação). O orgasmo torna-se então ameaçador não por ser prazeroso, mas por ser revelador: ele expõe quanto o corpo foi afetado, quanto o sujeito desejou, quanto precisou de se soltar e, por vezes, quanto precisaria que o outro permanecesse depois (Dorahy et al., 2013).

Em pessoas com trauma complexo (isto é, formas de traumatização prolongada, repetida e frequentemente interpessoal, associadas a contextos de dependência, vulnerabilidade, invasão, imprevisibilidade ou ausência de proteção suficiente), vergonha e dissociação aparecem associadas a maior dificuldade nas relações íntimas e maior medo relacional, sugerindo que aquilo que se trava no sexo não é apenas a função sexual, mas a própria possibilidade de permanecer emocionalmente inteiro no encontro (Dorahy et al., 2013). Dizer que fica comprometida “a possibilidade de permanecer emocionalmente inteiro no encontro” significa que a dificuldade central pode não ser apenas ter ou não ter orgasmo, mas conseguir manter simultaneamente presença, desejo, ligação ao outro, continuidade interna e regulação emocional sem colapsar em medo, vergonha, afastamento interno ou fragmentação subjetiva.

A dissociação, por sua vez, é muitas vezes mal compreendida porque se tende a reservá-la para quadros extremos. Contudo, em psicologia, dissociação designa uma separação ou desintegração parcial entre consciência, emoção, perceção, memória, identidade e experiência somática; pode ser subtil e ainda assim clinicamente muito relevante. Em termos práticos, a dissociação sexual pode ser descrita como uma perda parcial de presença na experiência. A pessoa pode continuar a participar no ato sexual, mas sentir-se distante, menos conectada ao corpo ou excessivamente focada no pensamento. No sexo, a dissociação pode surgir como afastamento de si, sensação de estar a assistir em vez de viver, redução da nitidez corporal, atividade mental excessiva, perda súbita de continuidade do prazer ou sensação de que o corpo está presente mas o sujeito não está totalmente ali. Esta fragmentação protetora pode permitir que a atividade sexual continue, mas impede que a experiência seja integrada o suficiente para se transformar em orgasmo pleno. A dissociação cumpre, assim, uma função de sobrevivência: quando a intensidade erótica se aproxima de memórias implícitas de invasão, vergonha, dependência ou dor, o psiquismo “sai um pouco” para não ter de sentir tudo de uma vez (American Psychological Association, 2018; Dorahy et al., 2013).

Um ponto especialmente importante é que ameaça, vergonha e dissociação raramente atuam isoladamente. Na prática clínica, formam frequentemente uma sequência. A excitação aumenta; a pessoa percebe que o encontro está a tornar-se importante; essa importância ativa vulnerabilidade; a vulnerabilidade convoca vergonha ou medo de dependência; a vergonha e o medo ativam ameaça; a ameaça, se ultrapassa a tolerância do sistema, desencadeia dissociação ou retração somática; e o orgasmo falha.

excitação → vulnerabilidade → vergonha ou medo → ameaça → dissociação ou travão → dificuldade de orgasmo

O bloqueio orgástico não é, nesta perspetiva, uma falha de vontade nem um defeito do corpo, mas um produto final de uma cadeia defensiva altamente coerente. Dizer isto de forma mais concreta é afirmar que o corpo não está simplesmente “a falhar”; está a aplicar uma solução protetora aprendida, organizada para evitar uma vivência que o sistema nervoso ou o psiquismo antecipam como demasiado perigosa, humilhante, invasiva ou desorganizadora, mesmo quando essa solução já tem custos significativos para o prazer, a liberdade sexual e a intimidade (Bancroft et al., 2009; Bird et al., 2021).

A teoria da vinculação acrescenta outra camada indispensável. A sexualidade adulta não é apenas um comportamento corporal; é também um lugar onde se reencontram expectativas sobre proximidade, abandono, disponibilidade do outro e legitimidade da dependência. A revisão de Stefanou e McCabe (2012) mostrou que níveis mais elevados de vinculação ansiosa e evitante se associam a relações sexuais menos satisfatórias e a maior disfunção sexual. Esta ligação entre vinculação e sexualidade pode ser resumida numa ideia fundamental: quanto mais o sexo toca necessidades profundas de reconhecimento e pertença, mais o sistema emocional se torna sensível a possíveis ameaças. O orgasmo pode tornar-se difícil não porque não exista excitação, mas porque o clímax se torna simbolicamente equivalente a dizer, com o corpo inteiro: “isto importa-me muito”, “eu estou realmente aqui”, “eu preciso que isto não me destrua”, “eu preciso que o outro não desapareça depois”. Quando a história relacional ensinou que a exposição profunda do self (isto é, a revelação de partes muito vulneráveis, necessitadas, desejantes, envergonhadas ou intensamente afetáveis do mundo interno) termina em dor, a inibição sexual deixa de ser um obstáculo arbitrário e passa a ser uma tentativa de evitar uma nova queda no desamparo (Stefanou & McCabe, 2012).

Deste modo, a pergunta clínica mais fecunda não é simplesmente “porque é que a pessoa não consegue ter orgasmo?”, mas antes “o que é que o orgasmo passou a significar no psiquismo desta pessoa?”. Em muitos casos, ele deixa de significar apenas prazer e passa a significar perda de controlo, risco de humilhação, prova de dependência, exposição do desejo, reativação de trauma, confirmação de que se quer demasiado ou temor de ser novamente deixado depois de se abrir. Isto é particularmente visível quando a sexualidade foi atravessada por experiências traumáticas ou por relações em que a vulnerabilidade profunda foi seguida de dor, retração, crítica ou falha de reconhecimento. Nestes contextos, a dificuldade orgástica pode ser compreendida como memória incorporada no corpo. O corpo não impede o prazer por capricho; impede-o porque aprendeu que a entrega total pode conduzir a experiências psíquicas intoleráveis (Bird et al., 2021; Dorahy et al., 2013).

A cura, por isso, não passa por “forçar o orgasmo” nem por interpretar a dificuldade como simples resistência. Passa por um trabalho de simbolização, integração e reaprendizagem corporal. Simbolizar significa transformar o que hoje surge apenas como travão somático, náusea, quebra de excitação, vazio ou afastamento em linguagem psíquica compreensível: “o meu corpo teme que a entrega repita a invasão”; “o meu prazer toca numa vergonha antiga”; “quando sinto demais, uma parte de mim sai para me salvar”; “precisar do outro continua associado a humilhação ou abandono”. Ao mesmo tempo, é necessário construir experiências eróticas e relacionais em que a segurança não seja apenas compreendida intelectualmente, mas vivida corporalmente: prazer sem pressão de desempenho, contacto sem obrigação de culminar, possibilidade de parar sem culpa, autorização interna para desejar sem vergonha e experiências em que o sujeito possa permanecer presente ao aumento da intensidade sem precisar de fragmentar-se. Esta formulação é coerente com uma compreensão contemporânea da saúde sexual como integração entre bem-estar, consentimento, segurança e possibilidade de viver a sexualidade sem violência, coerção ou sofrimento desnecessário (WHO, n.d.).

Em síntese, o orgasmo não deve ser pensado como um reflexo simples, mas como um acontecimento relacional do corpo: ele emerge quando a excitação corporal, a segurança emocional e a diminuição relativa do controlo mental conseguem convergir sem que ameaça, vergonha ou dissociação tomem o comando. Quando essa convergência falha repetidamente, não estamos necessariamente perante ausência de desejo ou incapacidade de prazer, mas diante de um sistema psíquico que aprendeu a tratar a entrega como potencialmente perigosa. Nessa medida, a dificuldade orgástica pode ser vista menos como falha e mais como memória incorporada. E a tarefa terapêutica consiste em ajudar o sujeito a descobrir que o prazer não precisa de significar invasão, que a vulnerabilidade não precisa de terminar em humilhação, que a dependência transitória não é sinónimo de aniquilação e que o corpo pode aprender a viver a intensidade como experiência habitável em vez de ameaça (Bancroft et al., 2009; WHO, n.d.).

American Psychological Association. (2018). Dissociation. In APA Dictionary of Psychology. American Psychological Association. https://dictionary.apa.org/dissociation

Bancroft, J., Graham, C. A., Janssen, E., & Sanders, S. A. (2009). The dual control model: Current status and future directions. The Journal of Sex Research, 46(2–3), 121–142. https://doi.org/10.1080/00224490902747222

Bird, E. R., Piccirillo, M., Garcia, N., Blais, R., & Campbell, S. (2021). Relationship between posttraumatic stress disorder and sexual difficulties: A systematic review of veterans and military personnel. The Journal of Sexual Medicine, 18(8), 1398–1426. https://doi.org/10.1016/j.jsxm.2021.05.011

Dorahy, M. J., Corry, M., Shannon, M., Webb, K., McDermott, B., Ryan, M., & Dyer, K. F. W. (2013). Complex trauma and intimate relationships: The impact of shame, guilt and dissociation. Journal of Affective Disorders, 147(1–3), 72–79. https://doi.org/10.1016/j.jad.2012.10.010

Masters, W. H., & Johnson, V. E. (1966). Human sexual response. Little, Brown.

Stefanou, C., & McCabe, M. P. (2012). Adult attachment and sexual functioning: A review of past research. The Journal of Sexual Medicine, 9(10), 2499–2507. https://doi.org/10.1111/j.1743-6109.2012.02843.x

World Health Organization. (n.d.). Sexual health. World Health Organization. https://www.who.int/health-topics/sexual-health

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Psicólogo Clínico (OPP 30806) com especialização em Sexologia Clínica, Suicídio e Comportamento Autolesivos

TAV – Técnico de Apoio à Vítima 

Membro da PsiRelacional – Associação de Psicanálise Relacional

Doutorando em Psicologia Clínica no Ispa – Instituto Universitário

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