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Os Autores de Enganos: Histórias que Contamos para Sobreviver

A mente humana é um palco onde múltiplos autores escrevem, riscam e reescrevem as nossas narrativas internas. Quando a dor se torna insuportável—o abandono, a perda, a dúvida sobre o próprio valor—criamos histórias que nos protegem, mas que, paradoxalmente, nos aprisionam. Estes autoenganos nascem como defesas psíquicas, construções internas que nos oferecem explicações reconfortantes, porém ilusórias, sobre o que vivemos. Como sombras invisíveis, estes autores de enganos contam-nos versões distorcidas da realidade, ajudando-nos a evitar a verdade que não estamos prontos para enfrentar.

Sigmund Freud já nos mostrava que a mente recorre a mecanismos de defesa para lidar com o insuportável. Quando alguém nos abandona, por exemplo, podemos criar uma narrativa onde “nunca fomos realmente amados” — pois admitir que fomos amados e ainda assim deixados seria demasiado doloroso. O ego constrói uma realidade alternativa, onde a rejeição não é pessoal, mas sim um erro alheio ou uma inevitabilidade cruel. Da mesma forma, a repressão empurra para o inconsciente memórias que não queremos revisitar, deixando-nos com um vazio que nem sabemos nomear.

Wilfred Bion acrescentaria que, para evitar a dor, podemos cair na “mentira psicótica” — uma versão interna dos factos que nos impede de pensar de forma verdadeira. Por exemplo, alguém que sofreu uma grande perda pode convencer-se de que “não precisa de ninguém”, refugiando-se numa fortaleza de autosuficiência emocional. Mas essa narrativa, em vez de libertar, apenas o condena à solidão. Os autores de enganos, neste caso, criam uma ilusão de força, quando na verdade escondem um luto não elaborado.

Jacques Lacan alertaria para a sedução do discurso do Outro. Muitas vezes, seguimos autores externos — sejam teóricos, líderes espirituais, familiares ou figuras de autoridade — que nos dão respostas prontas sobre quem somos e como devemos sentir. Acreditamos, por exemplo, que “o amor verdadeiro não abandona” e, quando somos deixados, em vez de compreender a complexidade da relação, tornamo-nos reféns desse ideal e sentimos que falhámos. O simbólico captura-nos, e os autoenganos tomam a voz de verdades absolutas que não nos servem.

Donald Winnicott falaria da necessidade dos “objetos transicionais” na construção do self. Às vezes, certos autores tornam-se bengalas emocionais, sustentando-nos até conseguirmos caminhar por nós próprios. O perigo surge quando nunca nos libertamos dessas narrativas. Se, por exemplo, crescemos a ouvir que “só os fracos mostram vulnerabilidade”, criamos um autor interno de enganos que nos obriga a reprimir emoções, impedindo-nos de pedir ajuda quando mais precisamos.

Já Heinz Kohut, ao falar da idealização, ajudaria a compreender como projetamos em figuras externas aquilo que gostaríamos de ser. Muitas pessoas depositam essa idealização em figuras de autoridade—um parceiro, um professor, um terapeuta—e criam um autoengano que lhes diz que apenas através dessas figuras encontrarão valor. Mas quando essas figuras falham (porque inevitavelmente falham), o desmoronamento psíquico pode ser brutal. A narrativa interna muda de “ele vai ajudar-me” para “ninguém me pode ajudar”, e o ciclo da desilusão perpetua-se.

No campo da psicanálise relacional, Jessica Benjamin propõe que a verdadeira cura ocorre na capacidade de nos vermos e sermos vistos no olhar do outro. Mas se crescemos em ambientes onde o amor era condicional (com condição), podemos carregar um autoengano que nos diz que “não somos suficientemente bons para sermos amados”. Esse autor interno de enganos faz-nos rejeitar elogios, sabotar relações ou aceitar menos do que merecemos, pois a narrativa da indignidade já está escrita.

Christopher Bollas diria que carregamos “a sombra do objeto”, ou seja, a presença ausente daquilo que nunca tivemos. Quem nunca se sentiu verdadeiramente amado pode passar a vida a criar histórias internas onde “o amor não existe” ou “todas as pessoas acabam por ir embora”, não porque isso seja verdade, mas porque é mais fácil acreditar nessa mentira do que confrontar a ausência devastadora do que nunca foi recebido.

E então, voltamos à pergunta essencial: quantas dessas histórias são realmente nossas e quantas são apenas ilusões que criámos para sobreviver? Quantas vezes nos agarramos a narrativas que nos protegem no imediato, mas nos destroem no longo prazo? Quando olhamos para o espelho da nossa psique, estamos a ver a verdade ou apenas a versão que conseguimos suportar?

Os autoenganos sussurram-nos explicações que amortecem a dor, mas também nos afastam da autenticidade. São necessários, mas perigosos. Precisamos deles para nos defender, mas também precisamos de os questionar, para que a nossa história não seja apenas um eco de velhas feridas, mas sim uma narrativa em constante transformação.

A pergunta final que fica para quem lê é: quantos desses autores de enganos ainda estão a escrever por ti?

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Psicólogo Clínico (OPP 30806) com especialização em Sexologia Clínica, Suicídio e Comportamento Autolesivos

TAV – Técnico de Apoio à Vítima 

Membro da PsiRelacional – Associação de Psicanálise Relacional

Doutorando em Psicologia Clínica no Ispa – Instituto Universitário

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