Quando alguém que amamos sofre de uma perturbação do comportamento alimentar, é natural que a preocupação aumente rapidamente. O medo de agravamento físico, de perda de saúde, de risco ou até de morte pode fazer familiares entrarem num estado constante de vigilância, ansiedade e urgência. Muitas vezes, o impulso passa a ser observar mais, insistir mais, controlar mais, falar mais sobre alimentação, peso, corpo ou comportamentos. Normalmente, tudo isto nasce do amor, do medo e da tentativa genuína de ajudar. No entanto, em muitas situações, aquilo que é vivido pela família como cuidado e preocupação pode ser experienciado pela pessoa que sofre como aumento de pressão, vergonha, sensação de falha, invasão emocional ou perda de controlo sobre si própria (Treasure, Duarte, & Schmidt, 2020; Skårderud, 2007). Isto não significa que a família esteja “errada” ou que não deva intervir. Significa apenas que, nas perturbações do comportamento alimentar, a forma como o cuidado é vivido relacionalmente torna-se clinicamente muito importante (Rance, Moller, & Clarke, 2017).
As perturbações do comportamento alimentar raramente dizem respeito apenas à comida, ao peso ou à aparência física. Frequentemente, o corpo torna-se o lugar onde emoções muito difíceis acabam por ser expressas através do controlo alimentar e corporal. Em muitas pessoas, o sintoma pode estar ligado a tentativas de regular ansiedade intensa, vergonha, sensação de inadequação, medo de crescer, medo de perder autonomia, necessidade de recuperar controlo interno ou dificuldade em conseguir simbolizar emocionalmente aquilo que sentem (ou seja, conseguir pensar, compreender e colocar em palavras emoções que são vividas de forma demasiado intensa ou desorganizadora) (Bruch, 1978; Skårderud, 2007; Fonagy, Gergely, Jurist, & Target, 2002). Em vários casos, o controlo alimentar funciona não apenas como um “sintoma”, mas também como uma tentativa de recuperar uma sensação mínima de organização interna perante estados emocionais sentidos como esmagadores ou caóticos (Goodsitt, 1997; Schore, 2012).
Por esse motivo, determinadas abordagens podem acabar por ser vividas não apenas como ajuda, mas como experiências de perda de autonomia, aumento de ameaça ou intensificação do sofrimento emocional. Quando se fala aqui em “determinadas abordagens”, fala-se, por exemplo, de interações excessivamente centradas no peso, comentários repetidos sobre o corpo, insistência constante sobre alimentação, pressão emocional intensa, ameaças, confrontos agressivos, vigilância permanente, controlo excessivo do comportamento alimentar ou tentativas de decidir tudo pela pessoa sem que esta se sinta emocionalmente escutada e incluída no processo (Treasure et al., 2020; Robinson, Mountford, & Sperlinger, 2013). Em pessoas particularmente sensíveis, com história prolongada de sofrimento ou experiências anteriores vividas como invasivas, humilhantes ou traumatizantes, estas abordagens podem aumentar sentimentos de vergonha, medo, retraimento, necessidade de controlo e desorganização emocional (Skårderud, 2007; Schore, 2012).
A investigação mostra que ambientes relacionais marcados por crítica constante, vergonha, escalada emocional, hiperfoco corporal ou elevada ansiedade familiar tendem a aumentar sofrimento psicológico, rigidez defensiva e dificuldade em aderir ao tratamento (Treasure et al., 2020; Rance et al., 2017). Pelo contrário, ambientes relacionais onde existe simultaneamente preocupação, firmeza, escuta emocional, previsibilidade, validação emocional e capacidade de regulação tendem a favorecer maior segurança relacional e maior capacidade de colaboração terapêutica (Fonagy et al., 2002; Schore, 2012). Isto não significa “deixar andar”, ignorar sinais de agravamento ou não estabelecer limites quando necessário. Também não significa romantizar ou minimizar a gravidade da doença. As perturbações do comportamento alimentar podem ter consequências físicas e psicológicas muito graves, incluindo alterações cardíacas, hormonais, metabólicas, cognitivas, emocionais e sociais, exigindo frequentemente acompanhamento multidisciplinar adequado (American Psychiatric Association, 2023; Treasure et al., 2020). Esse acompanhamento multidisciplinar pode incluir monitorização médica regular para avaliação do estado físico e risco clínico; acompanhamento nutricional especializado para ajudar a reconstruir uma relação mais segura, flexível e menos ameaçadora com a alimentação; acompanhamento psiquiátrico quando existe necessidade de avaliação de risco, depressão, ansiedade intensa, ideação suicida ou eventual necessidade de medicação; e acompanhamento psicológico ou psicoterapêutico para ajudar a pessoa a compreender melhor o significado emocional do sintoma, desenvolver maior capacidade de regulação emocional, melhorar a relação consigo própria e com os outros e construir formas menos destrutivas de lidar com sofrimento psicológico (American Psychiatric Association, 2023; National Institute for Health and Care Excellence, 2020).
Mas ajudar não é apenas insistir para que a pessoa coma ou controlar constantemente os seus comportamentos (por exemplo: vigiar permanentemente refeições, comentar repetidamente quantidades de comida, pressionar para comer, controlar o corpo, fazer comentários constantes sobre aparência física ou transformar todas as conversas em discussões sobre alimentação). Muitas vezes, ajudar passa também por tentar compreender o significado emocional do sintoma, diminuir a vergonha, evitar transformar todas as interações em torno do corpo e alimentação, conseguir transmitir preocupação sem entrar em pânico e oferecer uma presença emocional reguladora (ou seja, uma presença capaz de transmitir segurança, estabilidade emocional, escuta e contenção sem aumentar medo, pressão ou sensação de invasão) (Schore, 2012; Fonagy et al., 2002).
Em muitas famílias instala-se involuntariamente um ciclo muito difícil: preocupação → vigilância → aumento da ansiedade → maior sensação de invasão ou perda de controlo → agravamento do sintoma → mais preocupação. Interromper este ciclo não significa deixar de cuidar. Significa tentar construir formas de relação onde a pessoa se sinta simultaneamente acompanhada e respeitada na sua subjetividade (ou seja, que sinta que continua a ser vista como pessoa, escutada nas suas emoções, incluída nas decisões sobre o tratamento e reconhecida para além da doença e do corpo) (Benjamin, 2004; Mitchell, 1988).
É também importante reconhecer algo frequentemente difícil para familiares: muitas pessoas com perturbações do comportamento alimentar já vivem internamente níveis muito elevados de culpa (por exemplo, sentirem que estão constantemente a preocupar ou desiludir os outros), vergonha (sentirem que o corpo é “errado”, inadequado ou motivo de humilhação), autoexigência (necessidade constante de controlo, perfeição ou sensação de nunca serem suficientemente boas) e medo de falhar ou desapontar pessoas importantes (Skårderud, 2007; Bruch, 1978; Treasure et al., 2020). Por isso, comentários repetidos sobre peso, aparência física, comida ou comportamento alimentar — mesmo quando motivados por preocupação genuína — podem intensificar sofrimento emocional já muito elevado.
A relação continua a ser um dos fatores mais importantes no tratamento. Não apenas a relação terapêutica, mas também a qualidade das relações familiares e afetivas à volta da pessoa. Em muitos casos, aquilo que ajuda não é perfeição, mas a possibilidade de existir um espaço relacional suficientemente seguro onde seja possível pensar, sentir, falar, falhar e pedir ajuda sem medo constante de humilhação, invasão, abandono ou perda de autonomia (Winnicott, 1965; Mitchell, 1988; Benjamin, 2004).
A recuperação raramente acontece através de controlo isolado. Acontece mais frequentemente quando a pessoa consegue gradualmente desenvolver maior capacidade de compreender aquilo que sente, regular emoções intensas, tolerar vulnerabilidade, sentir-se segura na relação com os outros e construir formas mais livres, flexíveis e menos destrutivas de cuidar de si própria (Fonagy et al., 2002; Schore, 2012; Treasure et al., 2020).
Referências
American Psychiatric Association. (2023). Practice guideline for the treatment of patients with eating disorders. American Psychiatric Publishing.
Benjamin, J. (2004). Beyond doer and done to: An intersubjective view of thirdness. The Psychoanalytic Quarterly, 73(1), 5–46. https://doi.org/10.1002/j.2167-4086.2004.tb00151.x
Bruch, H. (1978). The golden cage: The enigma of anorexia nervosa. Harvard University Press.
Fonagy, P., Gergely, G., Jurist, E., & Target, M. (2002). Affect regulation, mentalization and the development of the self. Other Press.
Goodsitt, A. (1997). Eating disorders: A self-psychological perspective. In D. Garner & P. Garfinkel (Eds.), Handbook of treatment for eating disorders (2nd ed., pp. 205–228). Guilford Press.
Mitchell, S. A. (1988). Relational concepts in psychoanalysis: An integration. Harvard University Press.
National Institute for Health and Care Excellence. (2020). Eating disorders: Recognition and treatment (NG69). NICE.
Rance, N., Moller, N., & Clarke, V. (2017). Eating disorders are not about food, they’re about life: Client perspectives on anorexia nervosa treatment. Journal of Health Psychology, 22(5), 582–594. https://doi.org/10.1177/1359105315609088
Robinson, P., Mountford, V., & Sperlinger, D. (2013). Being men with eating disorders: Perspectives of male eating disorder service-users. Journal of Health Psychology, 18(2), 176–186. https://doi.org/10.1177/1359105312440298
Schore, A. N. (2012). The science of the art of psychotherapy. Norton.
Skårderud, F. (2007). Eating one’s words, part I: ‘Concretised metaphors’ and reflective function in anorexia nervosa—An interview study. European Eating Disorders Review, 15(3), 163–174. https://doi.org/10.1002/erv.777
Treasure, J., Duarte, T. A., & Schmidt, U. (2020). Eating disorders. The Lancet, 395(10227), 899–911. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30059-3
Winnicott, D. W. (1965). The maturational processes and the facilitating environment. Hogarth Press.