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Porque É Que Às Vezes Pensar Com Alguém Dói Mais Do Que Sofrer Sozinho?

Talvez uma das ideias mais difíceis de aceitar sobre a condição humana seja esta: muitas vezes não é o sofrimento aquilo que mais nos desorganiza. Não é a tristeza. Não é a angústia. Não é o medo. Não é sequer a solidão prolongada que tantas pessoas aprendem, lentamente, a habitar como se fosse casa. Estranhamente, aquilo que por vezes mais ameaça a estabilidade psíquica de um ser humano é algo muito menos óbvio e infinitamente mais perturbador: o momento em que, pela primeira vez, alguém começa realmente a pensar connosco sobre aquilo que somos.

Porque existe uma verdade profundamente desconfortável que raramente aprendemos a reconhecer com clareza suficiente: sofrer sozinho pode ser devastador, mas para muitas estruturas emocionais construídas sobre trauma relacional precoce, permitir que outro ser humano se aproxime o suficiente para ajudar-nos a pensar aquilo que sentimos pode ser ainda mais ameaçador do que a própria dor.

E isto acontece porque o sofrimento, por mais intenso que seja, pode tornar-se familiar. Pode transformar-se em território conhecido. Pode organizar a identidade de forma silenciosa. Há pessoas que passam anos inteiros a sobreviver dentro do sofrimento porque, paradoxalmente, o sofrimento oferece uma espécie de previsibilidade psíquica: eu conheço esta dor, reconheço este vazio, sei sobreviver dentro desta ausência.

O desconhecido começa quando algo verdadeiramente transformador entra em cena. E poucas experiências humanas possuem um potencial transformador tão profundo quanto aquela em que outra mente começa a ajudar-nos a pensar aquilo que até então permanecia isolado, fragmentado, dissociado ou simplesmente demasiado perigoso para existir em consciência plena.

Talvez devêssemos começar por recordar algo absolutamente fundamental que a psicologia do desenvolvimento, a psicanálise contemporânea e a neurobiologia interpessoal têm vindo a demonstrar de forma cada vez mais consistente: nenhum ser humano nasce a saber pensar emocionalmente. Antes de aprendermos a pensar aquilo que sentimos, alguém teve primeiro de pensar connosco.

Antes da linguagem, antes da capacidade reflexiva, antes da construção narrativa da identidade, existe apenas experiência emocional em estado bruto. O bebé não compreende o terror que sente quando o corpo entra em desorganização. Não reconhece a ausência como ausência. Não nomeia angústia, medo ou solidão. Apenas experiencia estados internos avassaladores que ainda não possuem representação simbólica.

E durante muito tempo existe apenas uma possibilidade de sobrevivência psíquica: outro ser humano receber essa experiência, suportá-la internamente e devolvê-la de forma suficientemente organizada para que aquilo que era inicialmente caos comece lentamente a tornar-se pensável.

Foi precisamente isto que Bion (1962) procurou descrever através do conceito de função continente, mostrando-nos algo extraordinário: pensar não é, primariamente, uma função intelectual. Pensar nasce quando a experiência emocional deixa de precisar ser evacuada porque encontrou uma mente capaz de sobreviver à sua intensidade.

Mas aqui começa uma das tragédias mais invisíveis do desenvolvimento humano. Quando a relação primária falha repetidamente em sustentar aquilo que a criança sente — seja através de negligência, imprevisibilidade emocional, humilhação, violência, retraimento afetivo, ausência psíquica ou incapacidade de reconhecimento — a mente adapta-se da única forma que conhece: aprende que determinadas experiências internas são demasiado perigosas para permanecerem conscientes.

E quando isto acontece, algo profundamente estrutural começa a reorganizar-se. O sofrimento deixa de poder ser pensado. Passa a precisar ser expulso. Às vezes sob a forma de sintomas físicos. Outras vezes através da dissociação. Outras através de atuação, impulsividade, relações compulsivamente intensas ou agressividade aparentemente desproporcional.

Mas talvez a consequência mais subtil seja outra: a mente começa lentamente a associar profundidade relacional a perigo psíquico. Não porque o vínculo seja objetivamente ameaçador. Mas porque, historicamente, sempre que a experiência interna se tornou demasiado intensa, o outro não conseguiu permanecer presente sem retaliar, abandonar, inverter a responsabilidade ou transformar vulnerabilidade em humilhação.

E talvez seja precisamente aqui que tantas relações emocionalmente significativas começam a tornar-se palco de processos profundamente paradoxais. Porque todos acreditamos desejar ser compreendidos. Dizemos isso constantemente. Queremos relações profundas. Queremos intimidade. Queremos reconhecimento. Queremos sentir-nos vistos. Queremos ser importantes para alguém.

Mas talvez raramente sejamos suficientemente honestos acerca daquilo que tudo isto verdadeiramente implica.

Porque ser compreendido não significa apenas receber cuidado. Ser verdadeiramente compreendido significa permitir que outro ser humano se aproxime o suficiente para começar a ver partes internas que sobrevivem há décadas precisamente porque nunca tiveram de ser olhadas demasiado de perto.

Significa começar a reconhecer necessidades emocionais que aprendemos a negar. Significa perceber o quanto dependemos do olhar do outro para consolidar certas partes do self. Significa descobrir que talvez precisemos profundamente de alguém específico.

E nesse preciso instante emerge algo que muitos confundem com resistência, mas que talvez seja simplesmente terror ontológico: se eu permitir que esta pessoa se torne verdadeiramente importante para mim, o que acontecerá à minha capacidade de continuar a existir se esse vínculo falhar?

Talvez uma das grandes ilusões clínicas e relacionais seja acreditar que o sofrimento mais intenso emerge quando o vínculo se rompe. Muitas vezes o sofrimento verdadeiramente devastador começa muito antes disso. Começa precisamente no momento em que o vínculo começa finalmente a funcionar.

Quando alguém permanece tempo suficiente para tornar-se emocionalmente estruturante. Quando começamos a sentir que existimos dentro da mente do outro de uma forma nova, diferente, inédita. Quando o reconhecimento recebido começa lentamente a tocar zonas do self que nunca foram suficientemente vistas.

Porque é precisamente nesse momento que o psiquismo é confrontado com algo profundamente assustador: a possibilidade real de transformação.

E toda transformação convoca luto. Luto das defesas que garantiram sobrevivência durante anos. Luto da identidade construída em torno da autossuficiência. Luto da convicção inconsciente de que precisar intensamente do outro é perigoso demais para ser tolerado.

Talvez seja por isso que algumas relações se tornam extraordinariamente intensas precisamente quando começam a aproximar-se de algo potencialmente reparador. Quanto mais o vínculo cresce, mais antigas começam a tornar-se as partes psíquicas convocadas. Quanto mais o reconhecimento aumenta, mais primitivos podem tornar-se os medos mobilizados. Quanto maior a experiência de intimidade subjetiva, maior pode tornar-se o risco de colapso interno.

Porque para muitas pessoas depender nunca foi uma experiência segura. Depender significou humilhação. Depender significou esperar e não ser encontrado. Depender significou descobrir que, no momento em que o outro se tornava mais necessário, esse mesmo outro desaparecia, retraía-se, tornava-se imprevisível ou recusava reconhecer o impacto real que exercia.

E quando a história emocional de alguém foi organizada em torno desta aprendizagem precoce, algo profundamente cruel tende a repetir-se: passa a desejar intensamente exatamente aquilo que simultaneamente não consegue suportar receber.

Mas existe uma dimensão ainda mais complexa que raramente discutimos com honestidade suficiente. Pensamos frequentemente no sofrimento de quem depende. Falamos abundantemente sobre vulnerabilidade, vinculação, medo do abandono, trauma relacional. Muito menos falamos sobre aquilo que acontece do outro lado do vínculo quando alguém começa a tornar-se estruturalmente importante para a organização psíquica de outra pessoa.

Porque permitir que alguém pense connosco profundamente não transforma apenas quem precisa ser pensado. Também transforma quem ocupa a posição de estar a pensar com o outro.

Ser emocionalmente significativo para alguém é uma experiência profundamente exigente. Significa reconhecer que a nossa presença produz efeitos reais na subjetividade alheia. Significa aceitar que pequenos movimentos relacionais podem tocar zonas primitivas do outro de formas muito mais profundas do que imaginávamos. Significa tolerar a possibilidade desconfortável de que o vínculo deixou de ser apenas encontro e passou a ser também responsabilidade intersubjetiva.

E é talvez aqui que alguns vínculos entram em colapso não porque deixou de existir cuidado, mas porque a intensidade psíquica que começou a emergir tornou-se excessiva para uma ou ambas as partes.

Quando aquilo que está a acontecer entre duas pessoas começa a tocar níveis demasiado profundos de dependência, desejo de reconhecimento, medo de perda, agressividade primitiva ou vergonha não simbolizada, algo fundamental pode deixar de acontecer: deixa de existir espaço para pensar em conjunto.

E quando duas pessoas deixam progressivamente de conseguir pensar juntas, a relação começa a abandonar o território da simbolização e entra no território da atuação. Já não existe curiosidade. Surge defesa. Já não existe reflexão. Surge acusação. Já não existe capacidade de metabolizar experiência emocional. Surge necessidade urgente de sobreviver ao impacto psíquico do vínculo.

Benjamin (2004) mostrou-nos que o desenvolvimento humano depende precisamente da capacidade de sustentar o reconhecimento mútuo sem destruir o outro no momento em que ele se torna demasiado real para nós. Reconhecer o outro como sujeito implica aceitar que esse outro possui impacto sobre nós, mas implica também tolerar que nós próprios produzimos impacto irreversível na experiência interna de alguém. E talvez não exista tarefa mais difícil do que esta.

Porque há momentos em que permanecer verdadeiramente em relação exige suportar não apenas a vulnerabilidade de precisar, mas também a responsabilidade de reconhecer o quanto fomos necessários para o outro.

Talvez seja por isso que algumas das experiências emocionais mais devastadoras não acontecem quando nunca fomos vistos. Talvez aconteçam precisamente quando começamos finalmente a ser vistos… mas a relação não consegue sobreviver à profundidade daquilo que esse reconhecimento começou a despertar.

Porque quando um vínculo permite que partes profundamente dissociadas comecem finalmente a aproximar-se da consciência, o processo de transformação já começou. E se nesse exato momento a relação falha, interrompe-se algo muito maior do que o vínculo externo. Interrompe-se o próprio processo interno que começava lentamente a reorganizar o self.

E esse tipo de dor possui uma qualidade singularmente devastadora: não sofremos apenas pela perda do outro. Sofremos pela perda daquilo que começávamos finalmente a tornar-nos na presença desse outro.

Talvez seja este um dos paradoxos mais difíceis de aceitar sobre a condição humana. Muitas vezes não fugimos porque o outro nos faz mal. Fugimos porque, na presença desse outro, começamos finalmente a perceber o quanto precisamos dele para continuar a descobrir partes de nós que nunca teriam emergido sozinhas.

E, simultaneamente, às vezes não é quem precisa do vínculo que colapsa primeiro. Por vezes também aquele que ocupa a posição de sustentar o encontro descobre que não consegue tolerar o peso psíquico de perceber o quanto se tornou emocionalmente estruturante para a existência interna de alguém.

No fundo, talvez curar nunca tenha sido aprender a sofrer menos. Talvez curar seja algo muito mais exigente e infinitamente mais raro: descobrir que finalmente existe uma relação capaz de suportar aquilo que começa a emergir quando duas mentes permanecem suficientemente próximas para pensar juntas sem que nenhuma delas precise destruir o vínculo para sobreviver ao que está a ser descoberto.

Porque sobreviver sozinho ensina-nos muitas competências. Ensina-nos vigilância. Ensina-nos a antecipar ausência. Ensina-nos a esconder necessidade atrás de uma autonomia muitas vezes apenas defensiva. Ensina-nos a continuar a funcionar mesmo quando ninguém verdadeiramente nos sustenta por dentro. Ensina-nos, em muitos casos, a construir uma vida inteira sem depender excessivamente de ninguém.

Mas sobreviver sozinho ensina-nos apenas a sobreviver. Nunca nos ensina a permanecer emocionalmente presentes quando alguém começa verdadeiramente a tornar-se importante para aquilo que somos. E talvez seja precisamente por isso que, tantas vezes, pensar com alguém dói mais do que sofrer sozinho. Porque sofrer sozinho, por mais devastador que seja, não obriga a reorganizar profundamente a forma como aprendemos a existir no mundo. O sofrimento solitário pode ser excruciante, mas frequentemente mantém intactas as defesas psíquicas que construímos durante anos para continuar a funcionar. Pensar verdadeiramente com alguém faz exatamente o oposto.

Quando encontramos uma relação suficientemente profunda para que outra mente comece finalmente a ajudar-nos a compreender aquilo que nunca conseguimos pensar sozinhos, algo muito mais exigente começa a acontecer.

Começamos lentamente a abandonar as estruturas internas que construímos para sobreviver em ausência de verdadeiro vínculo.

Começamos a perceber que talvez nunca tenhamos aprendido apenas a proteger-nos da dor. Talvez tenhamos passado décadas inteiras a proteger-nos da possibilidade de precisar profundamente de outro ser humano.

E este é talvez um dos paradoxos mais difíceis de aceitar em psicoterapia, no amor e em todas as relações verdadeiramente transformadoras.

Muitas vezes não é o sofrimento aquilo que mais tememos.

Aquilo que verdadeiramente nos assusta é o momento em que alguém se torna suficientemente importante para que deixemos de conseguir continuar a existir exatamente da mesma forma que existíamos antes desse encontro.

Porque quando duas pessoas conseguem permanecer juntas tempo suficiente para pensar verdadeiramente em conjunto, algo inevitavelmente começa a desfazer-se.

Não o self.

Mas as defesas que esse self precisou construir durante anos para sobreviver sem ser suficientemente encontrado.

E talvez seja precisamente isso que torna algumas relações tão assustadoras.

Não apenas o risco de perder o outro.

Mas a descoberta profundamente desorganizante de que, pela primeira vez, precisamos permitir que alguém se torne importante o suficiente para ajudar-nos a transformar quem sempre fomos obrigados a ser para sobreviver.

No fundo, talvez curar nunca tenha significado aprender a sofrer menos.

Talvez curar seja descobrir que finalmente existe um vínculo capaz de suportar aquilo que emerge quando deixamos outro ser humano aproximar-se o suficiente para pensar connosco… sem que nenhuma das duas partes precise destruir a relação para sobreviver à verdade emocional que começa finalmente a aparecer entre elas.

Porque, às vezes, o sofrimento nunca esteve em sentir demasiado.

O sofrimento esteve sempre em nunca termos encontrado um vínculo suficientemente seguro onde aquilo que sentimos pudesse, finalmente, tornar-se pensável.

E talvez crescer psicologicamente seja precisamente isto.

Descobrir que o mais difícil nunca foi suportar a dor de estar sozinho.

O mais difícil sempre foi aprender a tolerar a experiência profundamente transformadora de já não precisarmos continuar sozinhos dentro daquilo que sentimos.

Referências

Bion, W. R. (1962). Learning from Experience. London: Heinemann.
Benjamin, J. (2004). Beyond Doer and Done To: Recognition Theory, Intersubjectivity and the Third. Psychoanalytic Quarterly, 73(1), 5–46.
Bromberg, P. M. (2011). The Shadow of the Tsunami and the Growth of the Relational Mind. New York: Routledge.
Stolorow, R. D. (2011). World, Affectivity, Trauma: Heidegger and Post-Cartesian Psychoanalysis. Routledge.
Winnicott, D. W. (1958). The Capacity to Be Alone. International Journal of Psychoanalysis, 39, 416–420.

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Psicólogo Clínico (OPP 30806) com especialização em Sexologia Clínica, Suicídio e Comportamento Autolesivos

TAV – Técnico de Apoio à Vítima 

Membro da PsiRelacional – Associação de Psicanálise Relacional

Doutorando em Psicologia Clínica no Ispa – Instituto Universitário

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