Existe uma ideia profundamente sedutora — e talvez perigosamente simplista — de que a saúde mental consiste em sentir menos dor, reduzir sintomas e afastar-nos de tudo aquilo que perturba a nossa estabilidade emocional. Aprendemos culturalmente a acreditar que o sofrimento representa sempre sinal de doença e que o caminho da cura passa inevitavelmente por diminuir a intensidade daquilo que nos angustia. Mas talvez uma das verdades mais desconfortáveis sobre a vida psíquica seja precisamente a oposta: muitas vezes, aquilo a que chamamos sofrimento não constitui a expressão primária da doença. Constitui, na verdade, a mais sofisticada tentativa de sobrevivência que a mente conseguiu construir para impedir que entremos em contacto com algo infinitamente mais ameaçador. Talvez não soframos porque estamos a colapsar. Talvez soframos precisamente porque alguma parte profunda do nosso psiquismo está a trabalhar desesperadamente para impedir esse colapso.
A depressão, por exemplo, é frequentemente descrita como perda de energia vital, retraimento, vazio, desesperança e diminuição progressiva da capacidade de investir no mundo. Contudo, reduzir a depressão apenas a um estado deficitário representa ignorar a extraordinária inteligência defensiva que o aparelho psíquico pode desenvolver quando confrontado com experiências emocionais demasiado precoces, demasiado intensas ou demasiado devastadoras para serem metabolizadas. Em muitas organizações psíquicas, particularmente naquelas marcadas por trauma relacional cumulativo, falhas profundas de reconhecimento emocional, negligência afetiva ou ausência de continência suficientemente segura durante o desenvolvimento, a depressão não surge apenas como sofrimento. Surge como uma arquitetura interna de contenção. Surge como a forma possível de diminuir a intensidade da vida emocional para impedir experiências ainda mais primitivas de fragmentação subjetiva, desintegração psíquica ou colapso interno (Winnicott, 1965; Green, 1983). Por vezes, o organismo aprende algo radicalmente simples e profundamente trágico: continuar a sentir plenamente pode ser demasiado perigoso. E assim, em vez de enlouquecer, aprende a desligar progressivamente partes inteiras da experiência de existir. O sujeito não deixa necessariamente de viver porque perdeu o desejo de viver. Muitas vezes deixa de viver plenamente porque alguma parte interna compreendeu, muito cedo, que a intensidade emocional total poderia aproximá-lo perigosamente de formas de sofrimento ainda menos suportáveis. A depressão, nesses casos, deixa de ser apenas patologia. Passa a representar o preço psíquico pago para não enlouquecer.
Mas existe um paradoxo ainda mais profundo. Se determinadas formas de sofrimento constituem soluções defensivas destinadas a proteger-nos de experiências emocionais insuportáveis, aquilo que chamamos cura deixa inevitavelmente de ser um processo linearmente agradável. Porque curar implica desmontar precisamente os sistemas internos que durante anos garantiram a sobrevivência possível. Talvez uma das maiores contribuições da psicanálise contemporânea tenha sido precisamente demonstrar que pensar, no seu sentido mais profundo, nunca foi uma atividade puramente intelectual. Pensar significa metabolizar experiência emocional. Significa transformar estados brutos, fragmentados, ainda não simbolizados, em experiência psíquica passível de ser integrada na continuidade do self (Bion, 1962). E é precisamente aqui que emerge uma das experiências mais dolorosas do crescimento psicológico genuíno: começar verdadeiramente a pensar pode doer muito mais do que permanecer aparentemente doente. Porque aquilo que antes permanecia dissociado, anestesiado, evacuado através de compulsões, dependências relacionais, adaptações depressivas, hiperfuncionamento, idealizações ou formas subtis de autoabandono começa finalmente a tornar-se pensável. E quando se torna pensável, torna-se inevitavelmente sentível. A dor não aparece nesse momento porque algo pior aconteceu. A dor aparece porque algo que esteve anos fora da consciência começa finalmente a entrar em contacto connosco. Não se trata de sofrimento novo. Trata-se do sofrimento antigo que apenas deixou de permanecer protegido pelo silêncio psíquico.
No entanto, a mente humana raramente abandona as suas defesas sem resistência. Quando começamos a aproximar-nos das zonas internas que durante anos permaneceram dissociadas, frequentemente emerge uma emoção poderosa, intensa e profundamente mal compreendida: a raiva. Existe uma tendência generalizada para interpretar a emergência da agressividade como sinal de regressão, desorganização ou agravamento do sofrimento psicológico. Mas muitas vezes a raiva não representa deterioração psíquica. Representa precisamente o momento em que a estrutura defensiva começa a falhar. Freud (1917) observou algo extraordinariamente importante ao demonstrar que, em estados melancólicos, a agressividade originalmente dirigida ao objeto dececionante pode voltar-se contra o próprio ego através de mecanismos identificatórios inconscientes. Décadas depois, o pensamento psicanalítico aprofundou radicalmente esta compreensão ao demonstrar que grande parte da energia depressiva corresponde precisamente a agressividade desligada do seu movimento vital natural e transformada em ataque silencioso contra a própria subjetividade. Quando o sujeito começa a recuperar contacto com aquilo que perdeu, com aquilo que foi forçado a sacrificar para preservar vínculos fundamentais, com aquilo que precisou apagar dentro de si para continuar pertencendo ao ambiente relacional onde cresceu, essa energia regressa frequentemente sob a forma de raiva intensa. E essa raiva pode não significar destrutividade. Pode significar que algo dentro da pessoa está, pela primeira vez, a recusar continuar desaparecido.
Mas talvez exista uma camada ainda mais profunda neste processo. Muitas vezes a raiva não emerge primariamente contra aquilo que nos feriu no passado. A raiva emerge contra o próprio pensamento. Surge como defesa desesperada contra a metabolização emocional que ameaça destruir estruturas internas fundamentais. Porque pensar verdadeiramente não implica apenas recordar sofrimento. Implica algo muito mais radical: abandonar as soluções psíquicas que nos mantiveram vivos durante décadas. Significa perceber que as formas através das quais aprendemos a sobreviver — a dissociação, a idealização, a submissão relacional, a necessidade compulsiva de aprovação, o retraimento emocional, a hiperadaptação, a negação do próprio desejo, a esperança inconsciente de que alguém um dia reparará completamente aquilo que faltou no início da vida — talvez já não possam continuar a organizar a nossa existência. E quando o psiquismo percebe que está prestes a perder as próprias estruturas que sustentaram a continuidade possível do self, responde frequentemente com violência interna. Não porque deseje verdadeiramente destruir alguém. Mas porque o pensamento começa a ameaçar destruir a identidade construída precisamente para impedir esse pensamento.
Talvez seja precisamente por isso que o encontro profundo com o outro pode tornar-se tão transformador quanto aterrador. Existe uma tendência humana para acreditar que odiamos aquilo que nos magoa diretamente. Mas muitas vezes odiamos algo infinitamente mais complexo. Odiamos aquilo que nos obriga a sentir aquilo que durante anos fizemos tudo para não sentir. O outro, simplesmente por existir na sua alteridade radical, possui uma capacidade silenciosa e frequentemente involuntária de romper as dissociações que sustentam o nosso equilíbrio psíquico. Relações profundamente significativas tornam-se, inevitavelmente, espelhos psíquicos. E o sofrimento que emerge nesses encontros nem sempre nasce porque o outro nos fez algo objetivamente destrutivo. Muitas vezes nasce porque a simples existência do outro interrompe a continuidade das defesas que nos protegiam de contactar partes internas demasiado primitivas, demasiado dolorosas ou demasiado incompatíveis com a imagem que aprendemos a construir sobre nós próprios para sobreviver. A raiva emerge então não necessariamente contra a pessoa em si mesma, mas contra aquilo que a presença dessa pessoa torna impossível continuar a evitar. O outro deixa de ser apenas outro. Torna-se convocador involuntário da nossa própria verdade psíquica.
Talvez uma das experiências mais difíceis da condição humana seja reconhecer que não resistimos apenas à dor. Resistimos sobretudo à transformação que essa dor exige. Porque sentir verdadeiramente implica frequentemente atravessar o luto de versões inteiras de nós próprios que foram construídas precisamente para nunca mais voltar a sentir aquilo que um dia foi insuportável. Curar não significa apenas diminuir sofrimento. Muitas vezes significa suportar a perda das próprias estruturas internas que garantiram a sobrevivência possível até aqui. Significa aceitar que certas formas de depressão nunca foram inimigas, tendo funcionado como tentativas profundamente inteligentes de impedir experiências de desorganização ainda mais primitivas. Significa compreender que a raiva que emerge não representa necessariamente maldade ou destrutividade, podendo constituir o último esforço desesperado do psiquismo para impedir que o pensamento dissolva estruturas identitárias antigas. Significa reconhecer que aquilo a que chamamos sintoma pode ter sido, durante toda uma vida, a forma mais sofisticada de amor que a nossa mente encontrou para nos manter vivos.
E talvez seja precisamente aqui que reside uma das verdades mais desconcertantes sobre o processo terapêutico, sobre o crescimento emocional e sobre a própria experiência humana de existir: muitas vezes não odiamos aquilo que nos destrói. Odiamos aquilo que ameaça destruir as formas através das quais aprendemos a sobreviver. Não fugimos apenas do sofrimento. Fugimos da consciência radical de quem poderemos ser quando finalmente deixarmos de precisar dele. Porque talvez a maior pergunta nunca tenha sido porque doemos tanto. Talvez a pergunta verdadeiramente transformadora seja outra: se uma parte inteira da nossa identidade foi construída precisamente para nunca sentir determinadas verdades internas, estaremos realmente preparados para descobrir quem nos tornamos quando finalmente deixamos de precisar continuar a proteger-nos de nós próprios?
Referências
Bion, W. R. (1962). Learning from Experience. London: Heinemann.
Freud, S. (1917). Mourning and Melancholia. Standard Edition, Vol. XIV. London: Hogarth Press.
Green, A. (1983). Narcissism of Life, Narcissism of Death. New York: International Universities Press.
Winnicott, D. W. (1965). The Maturational Processes and the Facilitating Environment. London: Hogarth Press.
Winnicott, D. W. (1974). Fear of Breakdown. International Review of Psychoanalysis, 1, 103–107.