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Perturbações alimentares graves: compreender os riscos físicos e a importância de intervenção atempada

As perturbações do comportamento alimentar podem ter consequências físicas e psicológicas muito graves, sobretudo quando existe perda de peso significativa (por exemplo, perda rápida de vários quilos num curto período de tempo, manutenção prolongada de peso corporal muito abaixo do esperado ou redução importante da ingestão alimentar diária), restrição alimentar prolongada, episódios de purga, exercício físico excessivo ou estados persistentes de subnutrição (situações em que o organismo deixa de receber durante longos períodos energia, proteínas, vitaminas, minerais e gordura suficientes para manter funções fisiológicas básicas de forma segura) (American Psychiatric Association, 2023; Treasure, Duarte, & Schmidt, 2020). Muitas vezes, o sofrimento psicológico associado à relação com o corpo, comida e controlo torna-se tão central que os sinais médicos de gravidade podem acabar desvalorizados, tanto pela própria pessoa como pela família. No entanto, o corpo entra progressivamente num estado de enorme sobrecarga fisiológica quando deixa de receber recursos suficientes para sustentar funções vitais básicas.

É importante compreender que o risco médico numa perturbação alimentar não depende apenas da aparência física ou do “aspeto magro”. Em situações de magreza extrema — nomeadamente quando existe um Índice de Massa Corporal (IMC) muito baixo, particularmente abaixo de 14 — o organismo pode entrar num estado clinicamente muito preocupante, associado a risco significativo de complicações cardíacas (por exemplo bradicardia, arritmias ou risco de morte súbita), hormonais (amenorreia, infertilidade ou alterações hormonais persistentes), metabólicas (alterações eletrolíticas, hipoglicemia ou síndrome de realimentação), gastrointestinais (obstipação grave, atraso do esvaziamento gástrico ou refluxo), neurológicas (dificuldades cognitivas, desregulação emocional intensa ou alterações da concentração) e ósseas (osteopenia, osteoporose precoce ou maior fragilidade óssea) (Mehler & Brown, 2015; Misra & Klibanski, 2014). Nestes casos, pode tornar-se necessária avaliação médica mais intensiva (por exemplo monitorização clínica mais frequente, análises regulares, avaliação cardíaca, monitorização de sinais vitais ou acompanhamento hospitalar especializado) e, por vezes, intervenção especializada em contexto multidisciplinar num curto prazo, sobretudo quando existem sinais de deterioração física, incapacidade progressiva de alimentação adequada, descompensação fisiológica ou agravamento psicológico significativo (por exemplo hospital de dia, internamento especializado em perturbações alimentares ou acompanhamento médico-nutricional mais intensivo e estruturado) (National Institute for Health and Care Excellence, 2020).

Um dos sistemas mais afetados é frequentemente o cardiovascular. Em estados prolongados de subnutrição, o coração pode entrar em funcionamento mais lento e fragilizado. Podem surgir bradicardia (batimentos cardíacos demasiado lentos), hipotensão, tonturas, fraqueza intensa, alterações eletrolíticas e arritmias cardíacas potencialmente perigosas, sobretudo quando coexistem vómitos, purgas, desidratação ou restrição alimentar severa (Mehler & Brown, 2015). Em situações mais graves, existe mesmo risco de morte súbita cardíaca. Por este motivo, é frequentemente importante existir monitorização médica regular, incluindo análises sanguíneas, avaliação cardíaca e acompanhamento clínico próximo.

Também o sistema hormonal e endócrino sofre frequentemente alterações importantes. Em muitas mulheres surgem amenorreia (ausência de menstruação), alterações hormonais persistentes, diminuição de estrogénios, alterações metabólicas e dificuldades futuras de fertilidade. O corpo entra frequentemente num estado de “poupança energética”, tentando sobreviver perante a perceção fisiológica de escassez prolongada (Treasure et al., 2020). Em muitos casos, o desaparecimento da menstruação não significa apenas um “efeito secundário”, mas um sinal de sofrimento fisiológico importante.

Outro risco frequentemente subestimado é o impacto ósseo. Quando existe baixo peso prolongado, alterações hormonais e défices nutricionais persistentes, pode ocorrer diminuição significativa da densidade mineral óssea, osteopenia e até osteoporose precoce, mesmo em pessoas muito jovens (Misra & Klibanski, 2014). Isto significa que o corpo pode tornar-se progressivamente mais frágil e vulnerável a lesões e fraturas. Em alguns casos, parte destas alterações pode não ser totalmente reversível se a situação se mantiver durante demasiado tempo.

O sistema gastrointestinal também é frequentemente afetado. Muitas pessoas desenvolvem atraso do esvaziamento gástrico, sensação persistente de enfartamento, dor abdominal, obstipação, refluxo, alterações digestivas e grande desconforto após comer. Isto cria frequentemente um ciclo muito difícil: quanto maior o desconforto físico associado à alimentação, maior pode tornar-se o medo de comer e maior a necessidade defensiva de controlo alimentar. Em pessoas com episódios de vómito ou regurgitação podem ainda surgir lesões esofágicas, alterações dentárias e desequilíbrios metabólicos importantes (Mehler & Brown, 2015).

Também o cérebro e o funcionamento emocional sofrem impacto significativo. A subnutrição prolongada pode aumentar obsessividade, ansiedade, rigidez cognitiva, irritabilidade, dificuldade de concentração, hipervigilância e desregulação emocional (American Psychiatric Association, 2023). Muitas vezes, aquilo que parece apenas “resistência”, “teimosia” ou “falta de colaboração” pode estar profundamente agravado por um organismo em sofrimento fisiológico contínuo.

Ao mesmo tempo, é importante compreender que uma perturbação alimentar grave raramente é apenas uma questão de comida, vaidade ou aparência física. Em muitas pessoas, o controlo do corpo e da alimentação torna-se uma tentativa de regular sofrimento emocional intenso, medo, vergonha, sensação de caos interno ou perda de controlo subjetivo. Por isso, embora a intervenção médica seja frequentemente indispensável, abordagens excessivamente coercivas, centradas apenas em controlo, ameaças, peso ou perda de autonomia podem, em alguns casos, aumentar ainda mais ansiedade, retraimento, vergonha e intensificação defensiva do sintoma (Skårderud, 2007; Robinson, Mountford, & Sperlinger, 2013).

Isto não significa minimizar a gravidade médica. Pelo contrário. Significa reconhecer que, em quadros graves, é frequentemente necessário conjugar simultaneamente duas dimensões fundamentais: proteção física séria e preservação da subjetividade da pessoa. Ou seja, ajudar o corpo sem destruir emocionalmente a experiência de autonomia, dignidade e participação ativa no processo terapêutico.

Nestes casos, a investigação recomenda frequentemente acompanhamento multidisciplinar articulado, envolvendo monitorização médica regular, eventual acompanhamento psiquiátrico quando necessário (por exemplo avaliação de risco suicidário, depressão grave, ansiedade extrema, descompensação psiquiátrica significativa ou eventual necessidade de medicação estabilizadora complementar ao trabalho psicoterapêutico), apoio nutricional especializado e acompanhamento psicológico ou psicoterapêutico consistente (American Psychiatric Association, 2023; NICE, 2020).

O papel do psicólogo ou psicoterapeuta não é substituir avaliação médica, mas ajudar a compreender o significado emocional do sintoma (por exemplo perceber o que a restrição, controlo ou perda de peso representam subjetivamente para a pessoa), trabalhar regulação emocional (ajudar a reconhecer e tolerar emoções intensas sem recorrer exclusivamente ao controlo alimentar), relação com o corpo (compreender vergonha corporal, medo de crescimento, sexualidade ou exposição), vulnerabilidade (medo de depender, precisar dos outros ou perder controlo), vergonha (sentimento persistente de defeito, inadequação ou humilhação), identidade (dificuldade em saber quem se é para além do sintoma ou do corpo) e padrões relacionais associados ao sofrimento (por exemplo relações organizadas em controlo, medo de invasão, necessidade de adaptação extrema ou dificuldade de autonomia). Isto significa que o trabalho psicoterapêutico procura ajudar a pessoa a desenvolver formas progressivamente mais seguras e menos destrutivas de lidar com sofrimento emocional, relação consigo própria e relação com os outros, para que o corpo deixe gradualmente de ser o único lugar onde toda a dor psicológica precisa de ser expressa ou controlada.

É importante lembrar que, mesmo em situações clinicamente graves, muitas pessoas conseguem recuperar progressivamente quando existe intervenção adequada, relação terapêutica suficientemente segura, acompanhamento integrado e possibilidade de construir novas formas de relação consigo próprias, com o corpo e com os outros. Muitas vezes, aquilo que parece apenas uma luta contra comida ou peso é, na verdade, uma luta muito mais profunda pela possibilidade de continuar a existir emocionalmente de forma segura dentro da relação e da própria vida.

Referências

American Psychiatric Association. (2023). Practice guideline for the treatment of patients with eating disorders. American Psychiatric Publishing.

Mehler, P. S., & Brown, C. (2015). Anorexia nervosa — Medical complications. Journal of Eating Disorders, 3(11). https://doi.org/10.1186/s40337-015-0040-8

Misra, M., & Klibanski, A. (2014). Endocrine consequences of anorexia nervosa. The Lancet Diabetes & Endocrinology, 2(7), 581–592. https://doi.org/10.1016/S2213-8587(13)70180-3

National Institute for Health and Care Excellence. (2020). Eating disorders: Recognition and treatment (NG69). NICE.

Robinson, P., Mountford, V., & Sperlinger, D. (2013). Being men with eating disorders: Perspectives of male eating disorder service-users. Journal of Health Psychology, 18(2), 176–186. https://doi.org/10.1177/1359105312440298

Skårderud, F. (2007). Eating one’s words, part I: ‘Concretised metaphors’ and reflective function in anorexia nervosa—An interview study. European Eating Disorders Review, 15(3), 163–174. https://doi.org/10.1002/erv.777

Treasure, J., Duarte, T. A., & Schmidt, U. (2020). Eating disorders. The Lancet, 395(10227), 899–911. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30059-3

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Psicólogo Clínico (OPP 30806) com especialização em Sexologia Clínica, Suicídio e Comportamento Autolesivos

TAV – Técnico de Apoio à Vítima 

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Doutorando em Psicologia Clínica no Ispa – Instituto Universitário

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