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Dependência

Dependência: o medo de precisar e a coragem de confiar

A dependência começa no primeiro gesto de respirar com o outro. É o eco invisível de todas as mãos que nos seguraram — e daquelas que não estavam lá. Ser humano é, antes de tudo, precisar: de olhar, de toque, de voz, de alguém que nos reconheça quando ainda não sabemos quem somos. É nesse espaço entre o sustento e a falta que o desejo de ligação se funda, e é também aí que nasce o medo de depender — medo de cair outra vez, de ser esquecido, de precisar demais.

Freud (1914/1958) via na dependência o vestígio do amor infantil — a busca, no outro, por uma experiência de fusão perdida. Já Kohut (1971) transformou essa ideia ao reconhecer que a necessidade de um “outro” não é uma fraqueza a ser superada, mas uma função estrutural do self: precisamos de alguém que nos espelhe, confirme e idealize de forma suficientemente boa para que o sentimento de continuidade interna se forme. O terapeuta, para Kohut, torna-se esse selfobjeto — uma presença viva que ajuda a reparar o colapso das funções narcísicas e restaura a coesão do self. Quando essa presença falha, a dor é narcísica: o self sente-se fragmentado, sem lugar.

Mas é Winnicott (1960, 1965) quem nos dá talvez a imagem mais terna e paradoxal da dependência. Para ele, o bebé não distingue o seu “eu” do “outro” nos primeiros tempos de vida. Vive num estado de dependência absoluta, onde o cuidado materno — a mãe suficientemente boa — empresta ao bebé uma ilusão de onipotência que, aos poucos, vai sendo desfeita através da frustração ótima: pequenas falhas graduais que ensinam o bebé a tolerar a ausência sem colapsar. É a partir dessas falhas que nasce a capacidade de estar só — isto é, de sentir-se inteiro mesmo na ausência do outro. Assim, a cura, tanto na infância como na clínica, não vem da eliminação da dependência, mas da sua transformação: da fusão para a relação, da necessidade bruta para a confiança mútua.

Na teoria da vinculação, Bowlby (1969) mostrou que essa necessidade de presença e segurança é biológica. O sistema de vinculação é um dispositivo relacional inato que regula o equilíbrio entre a exploração e o refúgio. Um vínculo seguro permite ao sujeito sair para o mundo, sabendo que pode regressar. Já experiências de abandono, negligência ou imprevisibilidade originam estratégias defensivas — ora evitantes (autossuficiência e desconfiança), ora ansiosas (fusão e medo da perda). Ambas são tentativas de sobreviver ao risco de depender.

No corpo, a dependência é também memória. Porges (2011) e Siegel (2012) explicam que o sistema nervoso aprende o ritmo das presenças e ausências. A co-regulação fisiológica — a forma como um olhar, uma voz ou uma respiração conjunta podem acalmar — é a base biológica do vínculo. Quando o corpo não pôde confiar, ele permanece em hipervigilância, oscilando entre o impulso de se fundir e o impulso de se proteger. A dificuldade em depender nasce, assim, da tentativa de manter o controlo para não reviver a dor de um colapso passado.

Na psicanálise relacional, Mitchell (1988) e Benjamin (1998) mostram que a dependência não é unidirecional. O sujeito e o outro co-criam o campo relacional — ambos influenciam e são influenciados. Depender, então, não é regredir, mas permitir-se co-regenerar num espaço de mutualidade. Na clínica, essa dependência saudável manifesta-se quando o paciente ousa precisar, e o terapeuta suporta ser precisado sem se defender nem se fundir. O vínculo torna-se laboratório de confiança, onde o medo de precisar se transforma na experiência de ser sustentado.

Contudo, a dependência é também um lugar de vergonha. Nathanson (1992) descreve a vergonha como o afeto que surge quando o desejo de conexão é interrompido. O sujeito que aprende que “precisar é ser fraco” defende-se com o isolamento, o controlo ou o cinismo. Muitos homens — e por exemplo muitos homens gays — trazem esta herança afetiva: foram ensinados a associar vulnerabilidade à humilhação, necessidade ao perigo, ternura à feminilidade. A homofobia internalizada (Herek, 2009; Costa, 2012) transforma o desejo de amar num campo de culpa, tornando a dependência emocional um território interdito. Confiar no outro, neste contexto, é também um ato de resistência psíquica e de descolonização afetiva — libertar o amor da vergonha e a vulnerabilidade do medo.

Há, porém, muitas formas de dependência. A dependência relacional e a dependência aditiva partilham um mesmo núcleo: a tentativa de restaurar internamente o que o vínculo falhou em oferecer. Como descreve Goodman (1990), qualquer adição é uma busca distorcida por ligação — uma tentativa de compensar o vazio relacional. McDougall (1995) acrescenta que o corpo, muitas vezes, expressa o que a mente não consegue simbolizar: as adições corporais, sexuais ou emocionais são formas de manter vivo o contacto com uma experiência perdida de excitação e presença. O sujeito não procura apenas prazer; procura continuidade.

Para além das substâncias ou do outro idealizado, há ainda a dependência da própria dor — o vínculo inconsciente ao conhecido, mesmo quando esse conhecido é sofrimento. Fairbairn (1952) via nisto o paradoxo do amor infantil: preferir um vínculo mau a nenhum vínculo. É por isso que, na clínica, a dependência não se cura com afastamento, mas com presença. O que foi ferido pela relação só pode ser reparado na relação.

Dependência saudável é, assim, a capacidade de confiar sem se dissolver, de pedir sem exigir, de se apoiar sem perder a própria voz. É uma forma madura de vulnerabilidade — uma confiança ativa no facto de que o outro pode estar presente sem dominar. No campo terapêutico, é o que permite que o paciente se apoie na mente do terapeuta sem abdicar da sua.

Para muitos homens gays por exemplo, este caminho é duplamente complexo. Crescer num mundo onde o amor foi condicionado à vergonha ou ao segredo cria padrões vinculares marcados pela antecipação da rejeição. Aprender a depender torna-se, então, uma forma de reeducação afetiva: reensinar o corpo a relaxar, a confiar, a receber sem medo. É reaprender que o apoio não é invasão, que o cuidado não é fraqueza, e que o amor — quando é verdadeiro — não diminui, mas expande.

A dependência é, no fundo, o outro nome da confiança.
Confiar é o ato mais corajoso da alma humana: é permitir que o outro entre no nosso território interno sem o dominar. É aceitar que a vida se constrói com o que damos, mas também com o que ousamos receber. Depender é, afinal, descobrir que a liberdade começa quando já não precisamos de resistir à presença do amor.

Referências

Allen, J. G., Fonagy, P., & Bateman, A. (2008). Mentalizing in Clinical Practice. American Psychiatric Press.
Benjamin, J. (1998). Shadow of the Other: Intersubjectivity and Gender in Psychoanalysis. Routledge.
Bowlby, J. (1969). Attachment and Loss, Vol. 1: Attachment. Basic Books.
Costa, P. A. (2012). Saúde Mental e Minorias Sexuais. Climepsi Editores.
Fairbairn, W. R. D. (1952). Psychoanalytic Studies of the Personality. Routledge.
Freud, S. (1914/1958). On Narcissism: An Introduction. SE, 14.
Goodman, A. (1990). Addiction: Definition and Implications. British Journal of Addiction, 85(11), 1403–1408.
Herek, G. M. (2009). Sexual stigma and sexual prejudice in the United States. In D. A. Hope (Ed.), Contemporary Perspectives on Lesbian, Gay, and Bisexual Identities. Springer.
Kohut, H. (1971). The Analysis of the Self. International Universities Press.
McDougall, J. (1995). Theatres of the Body. Karnac.
Mitchell, S. A. (1988). Relational Concepts in Psychoanalysis. Harvard University Press.
Nathanson, D. L. (1992). Shame and Pride: Affect, Sex, and the Birth of the Self. W. W. Norton.
Porges, S. (2011). The Polyvagal Theory: Neurophysiological Foundations of Emotions, Attachment, Communication, and Self-Regulation. Norton.
Siegel, D. J. (2012). The Developing Mind. Guilford Press.
Winnicott, D. W. (1960). The Theory of the Parent-Infant Relationship. International Journal of Psycho-Analysis, 41, 585–595.
Winnicott, D. W. (1965). The Maturational Processes and the Facilitating Environment. Hogarth Press.

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Psicólogo Clínico (OPP 30806) com especialização em Sexologia Clínica, Suicídio e Comportamento Autolesivos

TAV – Técnico de Apoio à Vítima 

Membro da PsiRelacional – Associação de Psicanálise Relacional

Doutorando em Psicologia Clínica no Ispa – Instituto Universitário

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