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Quando o Amor Acorda a Dor Antiga

(Uma reflexão sobre o que acontece quando alguém parte sem se despedir)

Há amores que não vêm apenas para nos fazer felizes — vêm para nos fazer lembrar.
Quando alguém surge de forma inesperada e desperta algo profundo, é como se o coração reconhecesse uma presença antiga. De repente, sentimos que o que sempre faltou pode finalmente ser preenchido. Mas quando esse alguém parte sem aviso, sem palavra, algo dentro de nós desaba. E o que dói não é só o presente: é a antiga dor de perda que acorda.

O amor, quando chega, toca o lugar onde um dia faltou colo, olhar, presença. Ele reativa o sonho de que, desta vez, poderemos ser vistos e escolhidos. É por isso que, quando o amor se vai abruptamente, o que se parte não é apenas um vínculo recente — é a trama interna da esperança (Coimbra de Matos, 2017).

O corpo reage antes da mente.
O sono foge, o peito aperta, o estômago parece um vazio. Há momentos em que o corpo vibra como se ainda esperasse o toque, a mensagem, o reencontro. É como se dissesse: “Ainda estou à procura de quem partiu.”
Estas reações não são doença; são o sistema emocional a tentar sobreviver à ausência (Schore, 2012).

O pensamento, por sua vez, começa a repetir-se. Torna-se insistente, obsessivo, quase circular. Não é fraqueza. É o modo como o psiquismo tenta dar sentido ao que não teve tempo de ser entendido. Freud (1917/1957) descreveu o luto como o processo através do qual o amor se liberta do objeto perdido; mas quando a perda é súbita, esse processo fica suspenso. O pensamento, então, substitui o abraço impossível — é o fio que liga o vivido ao ausente, até que a dor possa ser pensada.

Podem surgir imagens, sonhos, lembranças involuntárias, como flashs emocionais. Ocorre porque o trauma da separação sem despedida rompe a continuidade da experiência: o que aconteceu não se transformou em história, ficou como fragmento. O corpo e a mente, desfasados, procuram religar-se. É o que, em psicanálise, chamamos de falta de simbolização — quando algo tão intenso aconteceu que ainda não pôde ser posto em palavras (Ogden, 1994).

Nesses momentos, a pessoa sente-se dividida entre querer esquecer e não conseguir parar de pensar. Vive entre o impulso de fugir e o desejo de compreender. O inconsciente não sabe que é um amor diferente; ele reage como se fosse o primeiro amor perdido — aquele que nunca chegou a ser plenamente encontrado. Por isso, a dor parece tão desproporcional: é antiga, e apenas se vestiu de presente (Fonagy & Target, 2007).

Não há nada de errado em sentir assim.
O que chamamos de “obsessão” é, muitas vezes, a alma a tentar costurar o que ficou rasgado. É o esforço do nosso interior para juntar corpo, emoção e pensamento depois de um colapso. O amor perdido torna-se um espelho da ferida antiga, e o luto que agora se vive é também o luto de tudo o que, um dia, não pôde ser vivido.

Como escreveu Winnicott (1960), quando o ambiente falha, o self recua — e o amor inesperado, ao ir-se embora sem despedida, reativa essa mesma falha. A pessoa sente que se perdeu de si própria, que ficou sem chão, porque o outro, por um tempo, foi esse chão.

Mas há um caminho de volta.
Quando alguém escuta esta dor sem medo — seja um terapeuta, um amigo, uma presença real —, o corpo começa a compreender que não está mais sozinho. As palavras vão ganhando espaço onde antes só havia silêncio, e a história começa a poder ser contada. É nesse processo que a ferida começa a transformar-se em símbolo — isto é, em algo que pode ser lembrado sem ser revivido (Coimbra de Matos, 2017; Ferro, 2015).

Com o tempo, o amor que partiu deixa de ser ausência e torna-se presença transformada. Já não fere: ensina. Já não aprisiona: revela. Porque, afinal, cada perda não elaborada é um convite à reparação interior. E quando olhamos para a dor com curiosidade em vez de culpa, descobrimos que ela nunca quis destruir-nos — apenas mostrar-nos onde o amor ficou preso.

Nota final:
Este texto descreve reações comuns após uma rutura afetiva abrupta. O pensamento repetitivo, a sensação de vazio e os flashs emocionais não são sinais de patologia, mas respostas naturais do sistema relacional humano à perda (Schore, 2012; Fonagy, 2001). Em terapia, estas vivências podem ser escutadas e transformadas — o que antes era ferida passa a ser história, e o amor, mesmo ausente, torna-se parte integrada de quem somos.

Quando o Luto Fica Congelado

Algumas perdas não deixam apenas dor — deixam silêncio.
Chamamos de luto não autorizado aquele que não encontra lugar nem reconhecimento: quando a pessoa sente que não pode chorar, que “não devia” sofrer ou que o mundo não compreenderia a dimensão da sua perda. Nesses casos, o processo de luto fica suspenso, como se o tempo parasse no momento da rutura.

O corpo e a mente entram num modo de sobrevivência: a emoção bloqueia, as lágrimas não saem, o pensamento repete, e a ligação permanece viva apesar da ausência. É comum surgirem sintomas como vazio, insónia, ansiedade, vergonha, dificuldade de concentração ou sensação de irrealidade. Por dentro, há um diálogo silencioso que nunca se encerrou — e o sofrimento continua à espera de testemunha.

Este congelamento não é sinal de fraqueza, mas de um amor que ficou sem autorização para ser lamentado. Só quando a dor é reconhecida e acolhida — por si próprio ou por outro — é que o luto se descongela e a perda se transforma em memória viva. Então, o amor pode voltar a mover-se, não como ausência, mas como presença transformada (Freud, 1917/1957; Worden, 2009).

Referências

Bowlby, J. (1980). Attachment and loss: Vol. 3. Loss, sadness and depression. New York: Basic Books.

Coimbra de Matos, A. (2017). O amor é a cura. Lisboa: Oficina do Livro.

Ferro, A. (2015). O imaginário analítico. Lisboa: Relógio D’Água.

Fonagy, P. (2001). Attachment theory and psychoanalysis. New York: Other Press.

Fonagy, P., & Target, M. (2007). The rooting of the mind in the body: New links between attachment theory and psychoanalytic thought. Journal of the American Psychoanalytic Association, 55(2), 411–456.

Freud, S. (1917/1957). Mourning and melancholia. In J. Strachey (Ed. & Trans.), The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud (Vol. 14, pp. 243–258). London: Hogarth Press.

Ogden, T. H. (1994). The analytic third: Working with intersubjective clinical facts. International Journal of Psycho-Analysis, 75, 3–19.

Schore, A. N. (2012). The science of the art of psychotherapy. New York: Norton.

Winnicott, D. W. (1960). Ego distortion in terms of true and false self. In The maturational processes and the facilitating environment (pp. 140–152). London: Hogarth Press.

Worden, J. W. (2009). Grief counseling and grief therapy: A handbook for the mental health practitioner (4th ed.). New York: Springer Publishing Company.

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Psicólogo Clínico (OPP 30806) com especialização em Sexologia Clínica, Suicídio e Comportamento Autolesivos

TAV – Técnico de Apoio à Vítima 

Membro da PsiRelacional – Associação de Psicanálise Relacional

Doutorando em Psicologia Clínica no Ispa – Instituto Universitário

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