De Nuno Tomaz Santos, 10/01/2025
O dia extingue-se na penumbra da minha sala, e eu, psicólogo, respiro finalmente o silêncio que se derrama pelo espaço vazio. Mas o vazio não é apenas físico — ele é o rasto de tantas histórias que, esta semana, se entrelaçaram com a minha. É o peso dos lutos que escutei e carreguei: o luto dos pacientes que me confiaram as suas dores, o luto da mãe de um amigo tão próximo que quase me sinto parte do seu enlutamento, e o luto de alguém profundamente significativo que agora caminha, desnorteado, entre os escombros do que perdeu. E no meio de tudo isto, apercebo-me de como me revejo em cada um deles, de como as perdas dos outros despertam as minhas próprias.
O luto é uma ferida que não se vê. É a ausência transformada em peso, é o vazio que ganha contornos e se instala dentro de nós. Esta semana, enquanto escutava as vozes dos meus pacientes — algumas frágeis, outras sufocadas, outras ainda silenciadas pelo pranto contido —, percebi como a dificuldade de lidar com a perda é irmã próxima daquilo que reconhecemos como depressão. Há uma melancolia densa nos seus relatos, algo que Freud descreveu com precisão: quando o luto falha, o objeto perdido transforma-se num cárcere interno, e o amor que não conseguimos soltar transforma-se numa espécie de ódio voltado contra nós mesmos.
Uma paciente confidenciou-me que, desde a morte do pai, a vida lhe parece feita de ecos, como se tudo ao seu redor tivesse perdido substância. Outro homem, ao falar da mãe que já não está, descreveu um vazio no qual não encontra nem propósito nem saída. E enquanto os ouvia, via neles algo que transcende a perda do outro: via um luto que é também pela própria identidade, uma dissolução do eu que caracteriza tão bem a depressão neurótica.
Mas não são apenas os pacientes. Esta semana trouxe também a dor de ver um amigo querido perder a mãe. Fui testemunha do peso nos seus ombros, daquele tipo de dor que não encontra alívio em palavras. E mais difícil ainda foi acompanhar a angústia de alguém que, de forma inexplicável e profundamente significativa para mim, luta agora para atravessar a tempestade do luto. Há algo visceralmente injusto em ver alguém que amamos sofrer. E a minha profissão, tantas vezes o meu porto seguro, abandona-me nesses momentos. O que dizer quando nenhuma palavra chega? O que fazer quando o sofrimento do outro nos rasga também?
No reflexo destes lutos, encontro os meus. As memórias trazem-me as duas mães que perdi: a minha mãe biológica, uma figura tantas vezes ausente, e a minha avó paterna, que foi, na sua ternura inabalável, a presença que moldou o melhor de mim. Lembro-me de quando ambas partiram, deixando um espaço vazio que ainda hoje parece insubstituível. Não sei se alguma vez fiz as pazes com essas ausências. Talvez o luto, por mais que o desejemos, nunca se conclua verdadeiramente. Talvez seja isso que me permite compreendê-lo tão bem nos outros.
E aqui estou, no fim de mais uma semana, a tentar juntar os pedaços de tudo o que ouvi e vivi. Os lutos dos meus pacientes, o luto dos meus amigos, o meu próprio luto — todos me mostram que a perda não é apenas sobre o que deixamos de ter. É sobre o que se transforma dentro de nós na ausência do outro. A saudade torna-se parte do nosso ser; o vazio, por mais avassalador que seja, redefine o espaço que ocupamos no mundo.
O que me consola, no entanto, é perceber que, mesmo na dor, existe beleza. Porque, afinal, se dói tanto perder é porque amámos profundamente. Cada luto é um testemunho do que foi e do que, por breves momentos, nos pertenceu. No fim, talvez seja esse o verdadeiro milagre da condição humana: a capacidade de continuar a amar, mesmo sabendo que tudo o que amamos é passageiro.
Deixo a minha sala e caminho para a noite fria. As estrelas despontam, indiferentes à miséria e à beleza da nossa humanidade. Mas eu, hoje, sinto-me grato. Grato por ter vivido, por ter amado e perdido, e por ter tido a coragem de permanecer diante da dor dos outros, mesmo quando esta espelha a minha própria. Porque no luto, como na vida, não estamos sós. E isso, talvez, seja tudo o que precisamos saber.