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Entre Impasses e Abusos: A Fronteira Entre a Dificuldade e a Ruína na Psicoterapia

De Nuno Tomaz Santos, 29/01/2025

Há dias em que a clínica me pesa nos ombros como um véu húmido, colado à pele, impossível de sacudir. São dias em que me sento, depois de horas a escutar, e reflito sobre os impasses, sobre os pontos mortos em que a terapia se enreda e perde fôlego. Mas também há outros dias – e esses são os que me gelam o sangue – em que percebo que o que assisti não foi um impasse, mas um rasto de destruição deixado por mãos que deviam curar. A má prática profissional. O abuso travestido de cuidado.

É essencial separar bem estas duas realidades porque confundi-las é uma segunda violência, uma cegueira que perpetua feridas. O impasse terapêutico é natural, até necessário. O abuso, por outro lado, é uma perversão do sagrado espaço da clínica. Um impasse pode ser um momento de resistência, um território onde paciente e terapeuta se deparam com algo demasiado denso para ser imediatamente elaborado. Pode surgir de défesas do paciente, de hesitações do terapeuta, de pontos cegos inevitáveis no processo. Mas um impasse pertence ao campo do trabalho. Já a má prática – essa lança raízes no terreno da negligência, da incompetência, e, em alguns casos, da pura exploração.

Quando um terapeuta se torna ausente, displicente, quando invade sem cuidado ou retraumatiza sem reflexão, a linha que separa a psicoterapia de um campo de batalha invisível começa a esbater-se. E há algo ainda mais insidioso: quando o abuso surge mascarado de terapia, quando a fragilidade do outro se torna um palco para jogos de poder. Já atendi pacientes que, antes de mim, estiveram sentados diante de alguém que não soube, não quis ou não pôde cuidar. Pessoas que confiaram e foram esmagadas pelo peso de palavras que deviam acolher, mas que julgaram, que deviam iluminar, mas que manipularam.

E como se vive isto, em termos concretos, dentro do consultório? O corpo do paciente já traz memórias, sinais gravados na pele e na alma. Olhares que se desviam, tremores subtis, um silêncio saturado de receio. Há quem chegue depois de anos a tentar sarar sozinho de uma violência que nem sabe nomear. Porque quando o abuso vem de quem deveria curar, a ferida é dupla: perde-se a confiança na terapia, e com isso, a esperança de que a dor possa ter outro destino que não o de se eternizar.

O psicólogo que falha não é necessariamente um abusador, mas a linha entre a negligência e o abuso é mais ténue do que gostamos de admitir. O terapeuta que não se questiona, que não revê a sua prática, que se arroga dono da verdade sem considerar o impacto do que faz, já caminha para o terreno pantanoso da má prática. E a psicoterapia, quando mal conduzida, pode ser uma forma de violência tão subtil que a vítima pode demorar anos a perceber que foi ferida.

O que me inquieta é que as histórias que chegam a mim não são ficção, nem são raridade. São ecos de um fenómeno silencioso, muitas vezes protegido pelo próprio estatuto da profissão. É difícil denunciar um terapeuta que abusou da sua posição porque há algo de sagrado no vínculo terapêutico, algo que se entranha de tal forma que a vítima, muitas vezes, duvida da sua própria leitura da realidade. “E se fui eu que interpretei mal? E se ele sabia o que estava a fazer e eu é que não soube aguentar?”

A responsabilidade que carregamos como terapeutas é imensa. Não basta escutar, é preciso vigiar-nos a nós mesmos com o mesmo olhar atento que dedicamos aos nossos pacientes. Há uma enorme diferença entre um espaço terapêutico que desafia e um espaço que destrói. Entre um impasse que pede trabalho e um muro erguido pela negligência ou pela malícia.

Quem lê estas palavras e sente que um dia foi violado na sua vulnerabilidade, que um dia se entregou a um espaço que deveria curar mas que o magoou mais do que qualquer outra coisa – que saiba que há um nome para isso. E que não está sozinho. A má prática, o abuso terapêutico, são feridas profundas, mas não são definitivas. É possível encontrar, ainda que depois de um deserto de desilusão, um espaço onde a terapia volte a ser um lugar seguro.

Mas é preciso nomear, é preciso separar as águas. Porque impasses, esses são naturais e fazem parte do caminho. Já o abuso – esse não tem desculpa. Esse é a ruína de tudo aquilo que deveria ser sagrado.

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Psicólogo Clínico (OPP 30806) com especialização em Sexologia Clínica, Suicídio e Comportamento Autolesivos

TAV – Técnico de Apoio à Vítima 

Membro da PsiRelacional – Associação de Psicanálise Relacional

Doutorando em Psicologia Clínica no Ispa – Instituto Universitário

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