De Nuno Tomaz Santos, 27/01/2025
Há um sofrimento silencioso que acompanha muitas pessoas ao longo da vida—um sofrimento que se insinua nos pequenos gestos, nas recusas discretas, nos sorrisos constrangidos diante do cuidado do outro. Trata-se da dolorosa sensação de indignidade, de não merecimento, uma crença inconsciente de que não somos dignos de receber amor, afeto, cuidado ou prazer. Essa sensação não grita, mas sussurra em nosso íntimo, moldando escolhas, afastando oportunidades, e, acima de tudo, limitando a capacidade de viver plenamente.
Moya Sarner, ao explorar essa dinâmica, revela como esses padrões emocionais muitas vezes nascem na infância, num ambiente onde o amor pode ter sido condicionado, instável ou mesmo ausente. A criança que aprende que seu valor depende do que oferece, e não do que é, cresce carregando a crença de que apenas servindo, cuidando ou se sacrificando é possível conquistar alguma forma de aceitação. Assim, tornar-se um cuidador incansável, um pilar de apoio para os outros, pode ser a única via de conexão com o mundo. No entanto, ao mesmo tempo, surge uma incapacidade dolorosa de ser receptivo ao cuidado, uma dificuldade em aceitar que, sem fazer nada, sem provar nada, ainda assim se é digno de amor.
Essa ferida emocional pode se perpetuar de formas subtis, infiltrando-se nos relacionamentos mais íntimos. O indivíduo que sente que não merece ser amado muitas vezes se afasta inconscientemente do que mais deseja, evitando vínculos mais profundos por medo de revelar sua própria vulnerabilidade. O amor recebido pode ser interpretado como uma ameaça—afinal, se o outro realmente nos conhecer, será que continuará a amar-nos? É mais seguro manter uma distância emocional, esconder as próprias necessidades e continuar no papel conhecido de quem dá, sem jamais pedir ou receber.
Eduardo Rodrigues Peyon, por sua vez, ilumina essa questão ao destacar a importância do reconhecimento do outro na constituição da nossa identidade. Desde a infância, é no olhar do outro que encontramos confirmação da nossa existência e valor. Se esse olhar nos chega de forma crítica, exigente ou ausente, aprendemos a duvidar de nós mesmos. Com o tempo, a busca pelo reconhecimento externo transforma-se numa compulsão: no trabalho, nas amizades, nas conquistas, procuramos incessantemente uma validação que nos parece sempre escorregadia, nunca suficiente. Assim, surge a falsa ideia de que, se fizermos mais, se nos tornarmos perfeitos, se servirmos melhor, então talvez mereçamos finalmente um espaço de afeto genuíno.
Mas a psicanálise relacional e a psicoterapia existencial oferecem uma esperança poderosa: a de que esses padrões, embora profundamente enraizados, podem ser compreendidos, trabalhados e, por fim, transcendidos. Refletir sobre essa sensação de indignidade não é um mergulho no desespero, mas um convite à transformação. Quando nos permitimos explorar essa dor com honestidade e compaixão, começamos a perceber que não estamos condenados a repetir eternamente os mesmos padrões.
Receber cuidado, afeto e prazer do outro exige coragem, porque significa abrir mão do controle, permitir-se ser visto naquilo que temos de mais genuíno e frágil. Significa aceitar que somos merecedores não por aquilo que fazemos, mas simplesmente por quem somos. Esta é uma revolução silenciosa, que acontece dentro de cada um de nós, no momento em que escolhemos abrir-nos ao amor sem condições, sem culpas, sem medo de sermos julgados.
Ao longo desse caminho, aprendemos que aceitar o amor do outro não é um ato de fraqueza, mas de profunda fortaleza. É reconhecer que, mesmo com todas as nossas imperfeições, continuamos dignos de sermos amados. E esse reconhecimento não vem apenas do olhar do outro, mas do encontro íntimo e compassivo com nós mesmos.
Talvez o verdadeiro significado da liberdade emocional resida justamente aqui: na capacidade de receber, de baixar as defesas, de permitir que a vida nos abrace. Porque, no fundo, a dignidade de ser amado nunca esteve perdida—ela sempre esteve à espera de ser reconhecida, dentro de cada um de nós.