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Na Presença do Sofrimento: Reflexões de um Terapeuta ao Ouvir a Dor de um Paciente

De Nuno Tomaz Santos, 12/12/2024

Ele senta-se à minha frente, o corpo curvado, os ombros caídos, a voz baixa como se o peso do mundo estivesse alojado dentro dele. As palavras que me diz não são fáceis de ouvir. Falam de vazio, de falta, de um sofrimento que não encontra nome. “Sinto-me como se algo dentro de mim tivesse desaparecido para sempre,” confessa. “Não sei o que é, mas está ausente, e tudo o que resta é um buraco que não consigo preencher.”

Enquanto ouço, sinto-me atravessado por algo que não é só empatia; é uma identificação íntima, como se reconhecesse na sua dor algo que também já toquei dentro de mim. Coimbra de Matos, em A Depressão, descreve esta experiência como “um encontro profundo com a humanidade do outro e, inevitavelmente, com a nossa própria.” E é exatamente isso que acontece.

Ele fala de culpa – uma culpa imensa, esmagadora, que parece não ter origem concreta. “Não sei porquê, mas sinto que falhei, que sou um erro,” diz. A sua voz treme ao falar, e eu percebo que não é só tristeza que o move, mas uma vergonha antiga, quase primordial. Matos explica que “o deprimido é o seu maior crítico, transformando-se no juiz implacável de si mesmo.” Vejo isso claramente diante de mim.

Sinto o impulso de lhe dizer que não é verdade, que ele não falhou, que é digno de amor e respeito. Mas, ao mesmo tempo, sei que estas palavras não o alcançarão. O abismo que descreve é profundo demais, e eu, como terapeuta, estou apenas na margem, tentando construir uma ponte que ele possa atravessar quando estiver pronto.

Enquanto ele fala da sua infância, da exigência de perfeição que carregou como uma mochila cheia de pedras, sinto um aperto no peito. “Eu só queria ser suficiente,” diz. E, nesse momento, sinto a urgência de validar a sua dor. Não é só ele que carrega este peso; tantos de nós carregamos, mesmo que em graus diferentes. Há uma universalidade nesta ferida, e Matos capta-a tão bem quando escreve que “a depressão não é apenas pessoal; é uma ferida que atravessa a condição humana.”

Mas há algo mais. Ele fala do medo – o medo de ser rejeitado, de ser abandonado, de nunca ser verdadeiramente aceite. “Quero estar perto das pessoas, mas também quero fugir. Tenho medo de que, se me virem como sou, vão afastar-se.” Enquanto o ouço, percebo que também eu, em momentos da minha vida, já tive medo de ser visto. Como terapeuta, sei que esta identificação pode ser um risco, mas também uma força. Como Matos ensina, “o terapeuta que reconhece a dor do paciente em si mesmo não se afasta; aproxima-se com humanidade.”

Há momentos na sua narrativa que são quase insuportáveis de ouvir. Quando ele fala do seu isolamento, da sensação de que o futuro não lhe oferece nada, fico em silêncio, absorvendo cada palavra. “Não é que eu queira morrer,” diz ele, “mas viver assim… viver assim é um peso que não sei se consigo continuar a carregar.” Essas palavras reverberam em mim. Como alguém pode viver com tanta dor e ainda assim encontrar forças para partilhá-la?

Sinto-me emocionado, quase ao ponto das lágrimas, mas controlo-me. Não porque não queira mostrar humanidade, mas porque sei que este espaço é dele. No entanto, há algo profundamente transformador neste momento. Matos escreve que “a terapia é um encontro entre duas fragilidades humanas: a do paciente, que se expõe, e a do terapeuta, que acolhe.” Sinto essa verdade pulsar na sala.

À medida que ele vai falando, percebo que não é só dor o que ele me traz. Há também uma procura, ainda que tímida, de alívio. Ele quer encontrar sentido, quer, de alguma forma, resgatar-se das profundezas onde se encontra. “Não sei se algum dia conseguirei sentir-me inteiro de novo,” diz. “Mas quero tentar.”

E é nesse desejo, por mais pequeno que seja, que vejo uma possibilidade de mudança. Coimbra de Matos fala da depressão não como uma sentença, mas como “um desafio à reconstrução do eu.” Ele explica que, por mais profunda que seja a dor, há sempre a possibilidade de reconexão – consigo próprio, com os outros, com a vida.

Quando ele para de falar, há um silêncio na sala que parece quase tangível. Olho para ele, e vejo não apenas um homem ferido, mas também alguém com uma coragem extraordinária. Falar do sofrimento desta forma, abrir as suas feridas perante outro, é um ato de enorme vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, de enorme força.

Eu respiro fundo. Não tenho respostas fáceis para lhe dar, nem promessas rápidas de que tudo ficará bem. Sei que a terapia será um caminho longo e difícil, cheio de altos e baixos. Mas também sei que, como Matos escreve, “o simples ato de partilhar a dor já é, em si, um passo em direção à cura.”

Antes de terminar a sessão, ele olha para mim e pergunta: “Acha que vou conseguir?” Sinto o peso dessa pergunta, e não apenas porque ele a faz. É uma pergunta que todos nós, em algum momento, fazemos a nós mesmos. Será que vamos conseguir atravessar os nossos próprios abismos?

Olho para ele, e, com a voz firme mas compassiva, digo: “Sim, acho. Mas não precisa de fazer isso sozinho. Estou aqui para caminhar consigo.”

E enquanto ele sai da sala, sinto-me grato. Não apenas por ele ter confiado em mim com a sua dor, mas por me lembrar de que, como terapeuta, também sou humano. Também tenho as minhas fragilidades, os meus medos, as minhas sombras. E, ao ouvi-lo, sinto-me não apenas um profissional, mas um ser humano em profunda conexão com outro.

Coimbra de Matos escreve que “a terapia é um espaço de encontro, onde a dor de um pode ser transformada pelo acolhimento do outro.” Hoje, sinto essa verdade de forma visceral. Não sei onde este caminho o levará, mas sei que a coragem dele me inspira a ser, todos os dias, um melhor terapeuta e, sobretudo, uma pessoa mais presente.

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