De Nuno Tomaz Santos
Há algo profundamente humano em ouvir outro ser despir a alma. Ele chegou aqui, carregado de dor, com o olhar de quem não sabe onde começa nem onde termina. E à medida que falava, era como se cada palavra fosse um grito no escuro, um pedido silencioso de algo que nunca lhe foi dado. Foi então que percebi: a terapia, neste instante, não era apenas um lugar de escuta, mas um espaço onde ele podia, pela primeira vez, encontrar-se num reflexo mais claro.
Os psicanalistas relacionais ensinam-nos que a terapia é um encontro, um espaço entre dois mundos onde as histórias do passado ganham forma no presente. E ali, naquele espaço partilhado, o jovem começava a contar a sua história – não como um inventário de factos, mas como uma revelação de feridas. Era o vazio de uma infância sem bordas, sem contenção, onde os limites não existiam porque ninguém os traçou.
A ausência de limites na infância não é liberdade; é abandono mascarado de permissão. Uma criança que cresce sem o “não” amoroso de um cuidador não aprende apenas a desafiar o mundo – aprende, acima de tudo, a desafiar-se a si mesma, numa busca incessante por algo que a defina. Os limites, como Winnicott nos recorda, são a estrutura invisível onde o self floresce. Sem eles, a criança não sente segurança, não encontra o espaço para se desenvolver de forma íntegra.
E quando essa ausência persiste, o amor incondicional transforma-se numa utopia. Como pode uma criança acreditar que é amada, de forma absoluta e sem reservas, quando o amor que recebe é inconsistente ou desorganizado? Bowlby diria que a falta de limites rompe o vínculo seguro, a base emocional que nos dá coragem para explorar o mundo. Sem isso, o jovem torna-se um andarilho emocional, oscilando entre o medo do abandono e o receio de se prender.
Enquanto ele falava, lembrei-me de Stephen Mitchell, que escreveu que as nossas relações moldam quem somos. Sem limites claros, não há fronteiras entre o “eu” e o “outro”. A identidade dissolve-se, perde-se na tentativa desesperada de agradar, de ser visto, de ser amado. Esse jovem, sentado à minha frente, carregava em si os escombros de uma infância onde o caos imperava e onde nunca soube onde terminavam os outros e começava ele mesmo.
“Sabes,” disse-lhe, depois de um silêncio partilhado, “os limites que nunca tiveste não eram para te controlar. Eles eram para te proteger. Dizem-nos que o amor verdadeiro é incondicional, mas isso não significa que seja sem forma. Amar alguém é criar um espaço onde ele possa ser livre, mas sem se perder. Os teus pais, talvez sem saberem, privaram-te desse espaço. Não porque não te amassem, mas porque eles próprios podem nunca o ter conhecido.”
Ele olhou para mim, a dor nos olhos misturava-se agora com algo novo, talvez curiosidade. Continuei:
“Mas aqui estás. Agora és tu quem pode criar esses limites. Cada vez que dizes ‘não’ ao que te faz mal, cada vez que defines o que queres e o que precisas, estás a construir aquilo que te foi negado. Estás a dizer a ti mesmo que és digno de cuidado, de respeito, de amor.”
Na terapia, dizem os psicanalistas relacionais, não somos apenas ouvintes. Somos coautores de uma nova narrativa. Ali, naquele momento, começávamos juntos a traçar os primeiros contornos dessa história. A liberdade que ele buscava não estava no abandono dos limites, mas na capacidade de os criar por si mesmo. E o amor incondicional, que ele tanto ansiava, estava à sua espera dentro das fronteiras que começava a desenhar.
“Sabes,” terminei, “a verdadeira liberdade não é um campo aberto sem fim. É um jardim. Um espaço onde as fronteiras permitem que as flores cresçam, onde o ‘sim’ e o ‘não’ convivem, criando ordem no caos. E agora, este espaço é teu. Não para apagar o passado, mas para construir um presente onde, finalmente, te possas encontrar.”
E naquele momento, vi algo mudar nele. Não era um salto, mas um pequeno passo – o primeiro de muitos. E na terapia, é nesses passos que depositamos a esperança, não só de reconstruir o que foi perdido, mas de criar algo que nunca antes existiu.