De Nuno Tomaz Santos, 17/01/2025
Há em cada ser humano uma força primitiva e essencial, uma chama que arde desde o primeiro instante de vida. É a agressividade, não no sentido destrutivo ou violento, mas como energia vital, aquela que nos empurra para o mundo, que nos faz dizer “sim” ou “não” com a convicção de quem se conhece e se afirma. É esta força que nos permite caminhar pelas veredas da existência de forma íntegra e autêntica, mesmo quando os ventos sopram contra. No entanto, muitos de nós crescemos a aprender que a raiva deve ser calada, que a vontade própria é inconveniente e que o confronto é sinal de fraqueza. Reprimimos o que sentimos, mascaramos a frustração com um sorriso forçado e permitimos que o nosso eu verdadeiro se dilua em expectativas alheias. Mas será que viver em silêncio e conformidade nos torna realmente felizes? Será que fugir do conflito não é, no fundo, um abandono de nós mesmos? Virginia Woolf escreveu: “Cada vez que temos medo, perdemos uma parte da alma.” E talvez o maior medo seja o de confrontar-nos com quem realmente somos – aceitar a raiva, a frustração e até mesmo a dor como partes legítimas do nosso ser. Mas aqui está a verdade que poucos ousam dizer (penso!): a agressividade, quando compreendida e acolhida, não destrói; transforma. É esta energia que nos permite defender os nossos sonhos, impor limites saudáveis e construir relações em que o amor é verdadeiro porque é honesto.
Há uma diferença fundamental entre agressividade e violência. A primeira é a expressão da vida; a segunda, uma fuga desordenada de si mesmo. Quando deixamos a agressividade fluir de forma saudável, permitimos que a nossa raiva seja um convite ao diálogo, que o nosso “não” seja uma ponte para o respeito e que as nossas emoções, por mais intensas que sejam, sejam uma expressão legítima de quem somos. Reprimir estas forças não nos torna mais fortes ou virtuosos; pelo contrário, transforma-nos em prisioneiros de uma serenidade falsa e frágil.
As crianças são mestres na arte da autenticidade. Quando uma criança grita de frustração ou recusa algo com um firme “não”, não o faz por maldade, mas porque está a explorar os limites do mundo e a construir a sua própria identidade. É na infância que aprendemos – ou deveríamos aprender (!) – que a raiva é apenas uma emoção entre tantas outras, e que expressá-la não nos torna maus, mas humanos. O problema surge quando, desde cedo, nos ensinam a engolir essas emoções, a transformá-las em silêncio, em submissão, em vergonha. Para viver de forma autêntica, é necessário resgatar a nossa agressividade primária, aquela força original que nos leva a existir sem máscaras. É um processo que exige coragem, porque implica olhar para o espelho e enfrentar as partes de nós que evitámos durante tanto tempo. Implica dizer, como Clarice Lispector: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”
Esta liberdade sem nome é a liberdade de ser quem somos, de sentir o que sentimos e de o expressar sem medo. E, paradoxalmente, é ao aceitarmos a nossa raiva, as nossas fraquezas e as nossas frustrações que encontramos a paz verdadeira. Porque viver autêntico não é viver sem conflito; é encontrar, no meio do caos, o fio condutor da nossa verdade. Nas relações, o medo do confronto muitas vezes rouba-nos a oportunidade de criar laços mais profundos. Fugimos de discussões, escondemos a nossa insatisfação e construímos um castelo de areia feito de silêncios acumulados. Mas o amor verdadeiro não teme a raiva; ele floresce na honestidade. Quando somos capazes de dizer ao outro: “Isto magoou-me” ou “Eu preciso disto de ti”, não estamos a criar divisão, mas a construir uma ponte. O conflito saudável não separa; aproxima. É no calor das discussões sinceras que muitas vezes encontramos a intimidade mais profunda.
Se há algo que este texto deseja deixar para quem tiver a paciência de o ler, é um convite: o de abraçar a sua agressividade como uma força de criação e não de destruição (!). Permita-se sentir, expressar, viver sem medo de desagradar ou de errar. A autenticidade não é confortável, mas é libertadora (!)
O poeta Rainer Maria Rilke escreveu: “A vida é feita de experiências vividas intensamente. E cada uma delas é um degrau para se chegar ao que somos.” Que a sua vida, então, seja feita dessa intensidade – de verdades ditas, de limites estabelecidos e de sonhos defendidos com unhas e dentes. Lembre-se: não há coragem maior do que a de ser quem se é, por inteiro (!). E essa coragem começa hoje, agora, no momento em que decide escutar a sua voz interior e deixar que ela ecoe, livre e sem medo, pelo mundo.