De Nuno Tomaz Santos, 21/01/2025
A perversão, na psicanálise, é um conceito que vai além de meros desvios de comportamento ou moralidade. Ela reflete uma tentativa humana de lidar com a falta que habita o coração da experiência psíquica. Essa falta – um vazio que se impõe como condição da nossa existência – não é apenas um sofrimento, mas também o que nos impulsiona a buscar o outro. Na perversão, contudo, essa busca não se dá em igualdade ou intimidade, mas numa dinâmica marcada pela manipulação e pelo medo da vulnerabilidade.
Freud (1905/1977) abordou a perversão a partir da sexualidade, observando que, na infância, a pulsão sexual é polimorfa, ampla e livre de normas sociais. Na vida adulta, porém, a perversão emerge quando o indivíduo fixa o seu desejo em formas que evitam a genitalidade ou a ligação emocional madura. Embora Freud tenha definido a perversão em termos de prazer sexual, o seu verdadeiro núcleo está na forma como o sujeito evita lidar com a sua própria falta e com as exigências emocionais da relação.
Lacan (1957/1998), por sua vez, redefiniu a perversão como uma forma de estrutura psíquica, deslocando o foco da sexualidade para o campo do desejo. Para ele, o perverso ocupa um lugar específico na relação com o outro: tenta completar o vazio alheio e, assim, evitar o confronto com a própria incompletude. Ao recusar a falta, tanto em si como no outro, o sujeito perverso desafia a ordem simbólica, posicionando-se como árbitro da lei. Esse movimento, no entanto, é ilusório, pois ninguém pode preencher ou controlar a ausência que está no cerne da experiência humana.
A psicanálise relacional, desenvolvida por autores como Jessica Benjamin e Stephen Mitchell, apresenta uma abordagem diferente, centrada na dinâmica entre o self e o outro. Aqui, a perversão é vista não como uma característica fixa do indivíduo, mas como uma resposta relacional ao trauma ou à instabilidade emocional (Mitchell, 1988). Quando a pessoa experimenta, precocemente, a rejeição ou o desamparo, pode aprender a ver o outro não como parceiro, mas como objeto a ser controlado. A relação torna-se uma tentativa de evitar a dor de depender do outro, ao mesmo tempo que busca desesperadamente alguma forma de conexão.
Benjamin (1988) argumenta que a perversão é uma forma de luta contra a vulnerabilidade. O sujeito recusa a mutualidade e procura dominar o outro, acreditando que apenas assim pode manter o controlo emocional. Essa dinâmica, no entanto, não elimina a necessidade de contacto; apenas a distorce. A ligação que surge é marcada pelo poder e pela manipulação, mas, em última análise, é uma forma de evitar o medo da rejeição e da exposição emocional.
Em suma, a perversão é um espelho que reflete a luta humana para lidar com a falta e o vazio. Não é um traço estático ou uma patologia isolada, mas uma forma de existência que revela tanto os desafios quanto as estratégias que todos usamos para sobreviver emocionalmente. Olhar para a perversão com empatia, como sugerem os autores da psicanálise relacional, é reconhecer o sofrimento que está na sua base e a necessidade de transformação através da relação. Afinal, por detrás do controlo e da manipulação, existe um desejo profundo de ser visto, reconhecido e aceite.