De Nuno Tomaz Santos, 30/01/025
À medida que as semanas passam e as sessões se sucedem, vou observando um padrão que se repete de forma subtil e muitas vezes invisível. É como se, nas entrelinhas das histórias que escuto, uma verdade se fosse desenhando aos poucos: o corpo, para alguns, torna-se um território distante, um espaço que já não é habitado de forma plena. Para muitos, o sexo surge como a única maneira de entrar em contacto com ele. Não como um espaço de prazer e de conexão, mas como um recurso desesperado para sentir algo – mesmo que esse algo seja fugaz, superficial, sem a profundidade de uma verdadeira experiência emocional.
Esta realidade não é algo estranho nem isolado. Ao contrário, é um fenómeno que atravessa a experiência humana de forma profunda, como se fosse uma sombra que paira sobre todos nós. O corpo, na sua essência, deveria ser o reflexo mais directo da nossa presença no mundo, da nossa humanidade. Mas, quando ele se torna apenas um objecto de prazer, de fuga, de necessidade momentânea, perde a sua capacidade de ser verdadeiramente habitado, de ser sentido em toda a sua complexidade. É como se o corpo, em algum ponto do caminho, fosse deixado para trás, à espera de uma conexão que parece cada vez mais difícil de alcançar.
Refletindo sobre este fenómeno, não posso deixar de recordar as palavras de Bessel van der Kolk em O Corpo Guarda as Marcas (The Body Keeps the Score). O autor fala do trauma como uma experiência que não se limita à mente, mas que afeta profundamente o corpo, levando-o a uma dissociação. Quando o trauma não é reconhecido ou tratado, o corpo começa a ser visto como algo distante, quase um estranho para quem o habita. E é neste espaço de desconexão que o sexo, muitas vezes, se torna a única forma de “sentir” o corpo. Porém, esse sentir não é genuíno. Ele é momentâneo, e o prazer obtido nunca preenche o vazio que existe na relação que o sujeito tem consigo mesmo.
Essa dissociação é frequentemente alimentada por mecanismos de defesa que vão sendo internalizados ao longo da vida. John Bradshaw, em Curando a Vergonha que Nos Prende (Healing the Shame That Binds You), descreve como a vergonha se infiltra nas nossas vidas, fazendo-nos sentir indignos de conexão, de intimidade, de afecto. Esta vergonha cria uma barreira emocional que nos afasta das nossas emoções mais profundas e, com isso, do nosso próprio corpo. Para muitos homens, por exemplo, o corpo torna-se um campo de repressão, um espaço de controlo e distanciamento. O sexo surge então como uma forma de validação, um acto que promete, ainda que de maneira efémera, uma sensação de existência, de prazer físico. Mas, como sabemos, esse prazer nunca consegue colmatar a falta de algo mais essencial – a conexão emocional que vai além da pele.
Gabor Maté, em Quando o Corpo Diz Não (When the Body Says No), traz à tona uma realidade que todos conhecemos, embora nem sempre reconheçamos: o corpo, quando ignorado, quando pressionado a seguir normas e expectativas que não são suas, começa a manifestar sinais de resistência. O stress, a repressão das emoções, o medo de nos expormos em vulnerabilidade são factores que se alojam no corpo e que se expressam muitas vezes através da dor, da doença, da desconexão. Quando o sexo se torna a única forma de contacto com o corpo, ele não faz mais do que intensificar essa resistência. O corpo pede para ser ouvido, para ser sentido de maneira genuína, mas a resposta que recebe é uma busca por uma sensação fugaz, por um prazer que nunca cura as feridas mais profundas.
Na minha prática, percebo que o trabalho terapêutico é um convite a redescobrir o corpo. Não um corpo idealizado, mas o corpo verdadeiro, com as suas dores, com as suas limitações, com as suas emoções. Como diz Patricia DeLuca, em Trauma and the Body: A Sensorimotor Approach to Psychotherapy, a escuta do corpo é essencial para a cura. É um trabalho delicado, que exige tempo e paciência, mas que se torna fundamental para que o indivíduo comece a restabelecer a conexão consigo mesmo. O corpo não é apenas um veículo de prazer físico, mas um campo onde as emoções mais profundas podem ser experimentadas e integradas. E é essa reconexão que, em muitos casos, falta. O sexo, quando reduzido a um acto mecânico, é incapaz de proporcionar esse encontro profundo com o corpo.
David Schnarch, em Casamento Apaixonado (Passionate Marriage), propõe uma visão da intimidade que vai muito além do sexo. Ele defende que a verdadeira intimidade nasce quando somos capazes de nos expor, de nos vulnerabilizar, de permitir que o outro nos veja na nossa totalidade. Mas para isso, é preciso começar por nós mesmos. A intimidade não acontece apenas no contacto físico, mas na capacidade de estarmos presentes em todo o nosso ser, de nos sentirmos inteiros no nosso corpo, nas nossas emoções. O sexo, quando vivido como um momento de partilha e de entrega verdadeira, torna-se uma expressão da nossa totalidade. Mas, para que isso aconteça, é preciso que o corpo deixe de ser um território de fuga e passe a ser um espaço de expressão genuína.
Esse processo de reconexão é árduo, mas não impossível. Como terapeuta, tenho a responsabilidade de ajudar os outros a reencontrar o caminho de volta ao seu corpo, ao seu ser. Mas também me vejo, constantemente, a refletir sobre a minha própria jornada. O que significa, para mim, habitar o meu corpo de maneira plena? Como posso sentir-me mais presente nele, sem fugir das minhas próprias emoções? As respostas para essas perguntas são tão desafiadoras quanto universais, e é precisamente essa busca constante que me liga ao processo terapêutico de forma profunda e pessoal.
O que está em jogo, para todos nós, é o resgate de uma relação mais autêntica com o corpo. O corpo não é apenas um objecto a ser controlado, mas um campo onde todas as nossas emoções – tanto as mais luminosas como as mais sombrias – podem ser acolhidas. E é esse espaço que precisamos aprender a habitar, com coragem e vulnerabilidade. O sexo, quando se torna uma expressão genuína da nossa totalidade, é apenas uma das formas de celebração dessa reconexão. Mas o verdadeiro trabalho está naquilo que não se vê, naquilo que o corpo nos pede para reconhecer. Só assim é que o corpo deixa de ser um estranho e se torna novamente uma casa acolhedora, cheia de vida.