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Reflexões de um Terapeuta…

Nuno Tomaz Santos, 2/01/2025

A sala está agora silenciosa. O vazio ecoa, mas não é um vazio qualquer — é o ressoar do que foi partilhado, do que ficou por dizer, e do que permanece suspenso entre nós. As palavras do paciente ainda vibram na minha mente, como se tivessem vida própria. “Uma barreira… uma prisão…” Ele descreveu o peso da sua solidão com uma clareza que tocou algo profundo em mim.

Foi impossível não sentir. A sua luta para se conectar, para permitir que outro o visse em toda a sua complexidade, despertou-me algo familiar. Não como uma mera memória, mas como uma sensação, um eco de uma parte minha que, por vezes, também teme ser vista. Pergunto-me se, nesta busca dele por intimidade, não se revelou também a minha própria dificuldade — a tensão subtil que carrego ao equilibrar a presença genuína com a distância profissional, a vontade de ser suficientemente humano sem deixar de ser o terapeuta de que ele precisa.

Ao escutá-lo, percebi o peso do seu isolamento. Não é o tipo de solidão que advém da ausência de pessoas, mas uma desconexão mais profunda, enraizada num medo quase primal: o medo de ser rejeitado por aquilo que é, de ser abandonado no momento em que se mostrar verdadeiramente. Ele colocou em palavras o que tantos sentem, mas poucos conseguem expressar. E isso confrontou-me.

Maria Emília Costa falava da intimidade terapêutica como uma construção conjunta, uma dança de vulnerabilidade e contenção. No entanto, essa dança é muitas vezes atravessada por tensões invisíveis. Ele trouxe-me a sua dor crua, desorganizada, e pediu-me, de forma implícita, para segurá-la sem a julgar, para provar que o vínculo era seguro. Mas, ao fazê-lo, tocou em algo que guardo — a minha própria humanidade, por vezes escondida sob a armadura da técnica.

Pensei em Winnicott. Ele dizia que, para o paciente, o terapeuta deve ser como uma mãe suficientemente boa — não perfeita, mas presente, acolhedora, capaz de conter as emoções mais avassaladoras sem as devolver em forma de julgamento. E, no entanto, ser esse “ambiente suficientemente bom” requer mais do que técnicas. Requer coragem. A coragem de sermos verdadeiramente presentes, sabendo que isso também nos expõe às nossas vulnerabilidades.

O discurso do paciente fez-me questionar se, no esforço para lhe oferecer um espaço seguro, deixei transparecer a minha própria hesitação. Será que, de alguma forma, ele sentiu a distância que eu, inconscientemente, mantive para me proteger? Afinal, a intimidade terapêutica não é apenas algo que ele constrói; é algo que construímos juntos, uma troca de confiança que desafia as defesas de ambos.

Bion falava da importância de tolerar a frustração, de sustentar a incerteza sem precipitar interpretações ou soluções. É isso que faço aqui, sentado a refletir. Não há respostas fáceis. O que há é o compromisso de continuar. Porque ele não precisa de um terapeuta infalível; precisa de alguém que esteja disposto a partilhar este espaço com ele, mesmo sem certezas.

E assim, percebo algo que talvez tenha esquecido: a intimidade não é um destino, mas um processo. Ele ensinou-me isso hoje, ao trazer-me o seu medo, o seu desejo e a sua resistência. A sua luta para ser visto é, de certa forma, a mesma luta que enfrentamos todos os dias como terapeutas. Queremos estar presentes, mas tememos errar. Queremos acolher, mas receamos expor demais de nós próprios.

No entanto, é precisamente nessa tensão que reside o potencial transformador da terapia. A relação que construímos — frágil, imperfeita, mas autêntica — é onde a cura começa. Hoje, ele deu um passo na direção de confiar, mesmo que tenha sido tímido e hesitante. E talvez eu também tenha dado um passo, permitindo-me refletir sobre a minha própria dificuldade em estar totalmente presente sem defesas.

No fim, não se trata de perfeição, mas de esforço partilhado. Trata-se de aceitar que ambos trazemos as nossas histórias, os nossos medos e as nossas limitações para este espaço. E é neste encontro, entre a humanidade dele e a minha, que o trabalho realmente acontece.

Talvez não tenha dito tudo o que poderia ter dito. Talvez não tenha feito tudo o que poderia ter feito. Mas sei que estive ali, ouvindo-o, acompanhando-o. E isso, por agora, é suficiente. Porque a intimidade — quer na terapia, quer na vida — não é algo que se force, mas algo que se cultiva, com tempo, com paciência e com a abertura para aceitar tanto a dor quanto a beleza do que somos.

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Consultório

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Psicólogo Clínico (OPP 30806) com especialização em Sexologia Clínica, Suicídio e Comportamento Autolesivos

TAV – Técnico de Apoio à Vítima 

Membro da PsiRelacional – Associação de Psicanálise Relacional

Doutorando em Psicologia Clínica no Ispa – Instituto Universitário

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