De Nuno Tomaz Santos, 20/12/2024
Após a sessão, sentei-me na cadeira vazia que ele acabara de deixar. O silêncio que preenchia agora a sala era pesado, quase palpável, carregado pelas palavras que ele dissera momentos antes. Ele saiu cabisbaixo, com os ombros curvados sob o peso de algo maior do que eu podia captar completamente, mas que, ao mesmo tempo, parecia ter ressoado em mim de uma forma quase visceral. “Eu sou mau”, ele dissera, com uma convicção tão intensa que, por um instante, senti como se essa crença fosse não apenas dele, mas de ambos.
Enquanto refletia sobre o que acabara de acontecer, lembrei-me das palavras de Coimbra de Matos, em A Depressão: “A depressão é a perda do self”. Ele não estava simplesmente triste. Não era apenas uma dor momentânea. Ele vivia um luto silencioso pela pessoa que poderia ter sido, mas que nunca sentiu permissão para existir. A crença na sua própria “malignidade” não era apenas uma ideia; era a fundação sobre a qual construiu toda a sua identidade.
Lembrei-me, também, de Winnicott e do conceito de “self falso”. Aquele homem diante de mim era a encarnação disso: alguém que, na ausência de um ambiente suficientemente bom, aprendeu a esconder as suas necessidades, a disfarçar a sua vulnerabilidade, até acreditar que o seu verdadeiro eu era inaceitável. O que sobrara era essa casca rígida, construída em torno da ideia de que ele era intrinsecamente mau, indigno de amor ou redenção.
Durante a sessão, houve um momento em que hesitou. Um momento breve, quase imperceptível, mas que carregava uma faísca de possibilidade. Quando eu lhe perguntei: “E se essa ‘malignidade’ que sente não for quem realmente é? E se for apenas a dor a falar por si?”, os seus olhos tremeram. Não era um olhar de compreensão imediata, mas de um conflito interno profundo. Ele recuou. Quase imediatamente, respondeu que eu não o compreendia, que o “mal” que carregava era demasiado real para ser questionado. Mas naquele instante, vi uma rachadura no muro. Um vislumbre de dúvida sobre a certeza que o aprisionava.
Melanie Klein falava sobre as fantasias de destruição e culpa, sobre como a criança projeta no mundo exterior as suas ansiedades internas. No caso dele, parecia que essa projeção se voltara para dentro dele próprio. Ele tornara-se o objeto mau da sua própria fantasia, o recipiente de todas as culpas, medos e rejeições que alguma vez sentira. Era como se ele tivesse sido traído não pelo mundo, mas pela sua própria mente, que internalizou vozes críticas, olhares reprovadores e ausências como verdades absolutas sobre quem ele era.
Enquanto ele falava, senti-me impotente por instantes. Como poderia eu, com palavras, combater anos de rejeição, de desprezo e de desamparo? Mas lembrei-me, também, do que Stephen Mitchell escreve sobre a psicanálise relacional: o espaço terapêutico não é apenas um lugar de análise, mas de experiência. Ele precisava de uma relação que desafiasse, com suavidade, a narrativa de que ele era intrinsecamente mau. Não bastava dizer-lhe que ele era digno de amor; ele precisava vivê-lo. Precisava sentir, na relação que estávamos a construir, que poderia ser aceito com as suas falhas, com a sua dor e até com a sua raiva.
Enquanto revia mentalmente os momentos da sessão, senti uma emoção inesperada: compaixão, mas também um reflexo da minha própria vulnerabilidade. A sua dor ressoava em mim. Talvez, como terapeuta, nunca sejamos inteiramente separados daquilo que os nossos pacientes nos trazem. E ali estava eu, tocado pela mesma pergunta que ele mal ousava fazer: será que também eu, com os meus erros e inseguranças, sou digno de amor?
Decidi que o nosso próximo encontro precisará de um novo gesto. Quero ser mais ativo na construção de um espaço onde ele possa começar a questionar, ainda que subtilmente, a narrativa que o aprisiona. Talvez através de momentos pequenos, como quando ele hesitou ao falar da sua “malignidade”, possamos começar a reescrever essa história. Não lhe direi que ele está errado sobre si mesmo; seria demasiado cedo. Mas posso ajudá-lo a ver que a sua dor não precisa de ser uma sentença final.
Coimbra de Matos também nos ensina que a cura da depressão passa pela recuperação do self, pela reintegração daquilo que foi perdido ou rejeitado. E isso não acontece com grandes revelações, mas com pequenos gestos acumulados ao longo do tempo. Talvez um dia, ele consiga olhar para si mesmo com o mesmo cuidado com que estou a tentar olhar para ele agora.
Por enquanto, resta-me a tarefa de ser um espelho honesto, mas compassivo. De ser uma presença suficientemente estável para que, aos poucos, ele possa acreditar que o amor, a aceitação e até a esperança não são privilégios reservados aos outros, mas direitos que ele também pode reivindicar. Enquanto ele saiu com os ombros curvados e o olhar perdido, senti, paradoxalmente, que um caminho começava a abrir-se. E talvez, com paciência e presença, possamos juntos trilhar esse caminho, um passo de cada vez.