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Culpa Depressiva, Identificação ao Agressor e Retraumatização por Duplo Vínculo

Há experiências relacionais que não partem a pessoa ao meio de uma vez, mas que vão deslocando lentamente o seu centro interno, até que a realidade deixa de ser um chão firme e passa a ser um campo oscilante. Este abalo não acontece por fraqueza, mas porque certas configurações emocionais ativam mecanismos psíquicos antigos que se organizam para proteger o vínculo, mesmo que isso implique sacrificar a própria clareza interna. Entre estes mecanismos destacam-se três fenómenos que frequentemente surgem juntos: a culpa depressiva, a identificação ao agressor e a retraumatização por duplo vínculo. A “culpa depressiva” não se refere à culpa lógica perante um erro, mas a uma posição subjetiva descrita por Klein (1940/1975) em que o indivíduo, para preservar uma relação importante, internaliza a responsabilidade pelo sofrimento ou pela instabilidade do outro. É um movimento inconsciente que tenta reparar o vínculo assumindo a culpa, pois para a psique traumatizada é menos doloroso sentir-se culpada do que sentir-se sozinha ou impotente (Fairbairn, 1943/1952). Assim, sempre que a relação envia sinais contraditórios, a pessoa tende automaticamente a concluir que o problema está nela — não porque isso seja verdadeiro, mas porque esse reflexo foi aprendido em contextos precoces de exigência, submissão ou medo (Winnicott, 1965; Bion, 1962).

A identificação ao agressor aprofunda ainda mais esta ferida. Ferenczi (1933/1988) descreveu este fenómeno como uma forma de sobrevivência emocional: quando a vulnerabilidade é muito grande e a relação é vivida como indispensável, a mente adapta-se ao ponto de incorporar a perspetiva do outro — mesmo quando essa perspetiva é crítica, desvalorizadora ou invasiva. A pessoa passa então a olhar para si com os olhos do outro, adotando a sua leitura da realidade, como se essa leitura fosse mais válida do que a própria experiência subjetiva (Anna Freud, 1936). Com o tempo, a voz crítica externa instala-se internamente, e a dúvida sobre si torna-se um hábito emocional. Fonagy et al. (2002) descrevem este processo como uma quebra da capacidade de mentalização: a fronteira entre o que é meu e o que é do outro fica turva, levando à perda temporária da confiança na própria perceção. Herman (1992) mostrou que esta perda de confiança é uma das marcas centrais das experiências traumáticas — não a perda da razão, mas a perda do direito interno de acreditar no que se sente.

Quando a isto se junta um duplo vínculo, o mundo interno fica completamente desorganizado. O conceito, formulado por Bateson et al. (1956), descreve situações em que uma pessoa recebe mensagens emocionalmente contraditórias, impossíveis de integrar, e das quais não pode sair sem risco de perda relacional. São relações onde se diz “aproxima-te” e simultaneamente “não és suficiente”, ou “preciso de ti” e ao mesmo tempo “és tu que crias o problema”. Laing (1960) mostrou que estas contradições produzem estados profundos de confusão ontológica — a sensação de que o próprio ser fica dividido entre respostas opostas. Para pessoas com histórias de trauma precoce, perdas não elaboradas ou ambientes parentais imprevisíveis, o duplo vínculo atual funciona como um gatilho que reativa memórias implícitas de desorientação e ameaça emocional (Schore, 2012; Liotti, 2004). O corpo reage como se estivesse novamente perante uma autoridade imprevisível, e a mente alterna entre a tentativa de agradar, a tentativa de evitar conflito e a tendência a assumir culpas que não lhe pertencem. Van der Kolk (2014) descreve isto como “o corpo que guarda a pontuação”: mesmo quando a mente adulta tenta raciocinar, o sistema nervoso responde ao padrão relacional como se fosse um eco do passado.

Quando estes três mecanismos — culpa depressiva, identificação ao agressor e duplo vínculo — se combinam, o efeito psíquico é particularmente devastador, não porque destrói a identidade, mas porque a silencia. A pessoa deixa de saber se pode confiar no que sente, se a sua tristeza é legítima, se a sua perceção é válida, se a sua intuição está certa. Allen et al. (2008) descrevem este estado como uma “tempestade na metacognição”: a pessoa pensa sobre o que sente, mas não acredita no que pensa. O sofrimento torna-se então uma consequência previsível — não da mente da pessoa, mas da estrutura da relação que a envolve. Bromberg (2011) explicou que, quando o self tem de se adaptar repetidamente a mensagens incompatíveis, partes inteiras da experiência começam a dissociar-se para sobreviver. E é precisamente nesse ponto que a dúvida sobre si aparece: não como falha, mas como defesa.

É por isso que, nestas situações, o primeiro passo terapêutico não é “mudar de comportamento”, mas recuperar o direito interno de confiar na própria perceção. Winnicott (1960) afirmava que a saúde emocional começa quando a pessoa pode dizer: “isto é o que sinto” sem medo de perder o vínculo. A diferenciação entre voz interna e voz introjetada — o processo central da mentalização — é um movimento essencial para reconstruir autonomia emocional (Fonagy et al., 2002). E a lembrança final, sustentada pela neurociência contemporânea, é simples mas profundamente transformadora: a coerência relacional é a base da segurança emocional (Siegel, 2012). Onde há contradição constante, haverá sofrimento constante. Portanto, a confusão que se sente não revela incapacidade; revela que o ambiente relacional está a exigir adaptações impossíveis.

Assim, a pergunta correta nunca é “o que há de errado comigo?”, mas “o que nesta relação está a fazer-me duvidar do que sinto?”. A primeira leva à culpa depressiva; a segunda inicia o caminho da cura. Como Herman (1992) sintetizou, recuperar-se do trauma começa quando a pessoa volta a acreditar na sua própria voz — mesmo quando o ambiente a ensinou a duvidar dela.

Referências

Allen, J. G., Fonagy, P., & Bateman, A. W. (2008). Mentalizing in clinical practice. American Psychiatric Publishing.

Bateson, G., Jackson, D. D., Haley, J., & Weakland, J. (1956). Toward a theory of schizophrenia. Behavioral Science, 1(4), 251–264.

Bion, W. R. (1962). Learning from experience. Heinemann.

Bromberg, P. M. (2011). The shadow of the tsunami and the growth of the relational mind. Routledge.

Fairbairn, W. R. D. (1952). Psychoanalytic studies of the personality. Routledge. (Original work published 1943)

Ferenczi, S. (1988). The clinical diary of Sándor Ferenczi (M. Balint & N. Z. Jackson, Eds.; M. Jackson, Trans.). Harvard University Press. (Original work published 1933)

Fonagy, P., Gergely, G., Jurist, E., & Target, M. (2002). Affect regulation, mentalization, and the development of the self. Other Press.

Fonagy, P., & Target, M. (1997). Attachment and reflective function: Their role in self-organization. Development and Psychopathology, 9(4), 679–700.

Freud, A. (1936). The ego and the mechanisms of defence. International Universities Press.

Herman, J. L. (1992). Trauma and recovery. Basic Books.

Klein, M. (1975). Love, guilt and reparation and other works 1921–1945. Free Press. (Original work published 1940)

Laing, R. D. (1960). The divided self: An existential study in sanity and madness. Penguin.

Liotti, G. (2004). Trauma, dissociation, and disorganized attachment: Three strands of a single braid. Psychotherapy: Theory, Research, Practice, Training, 41(4), 472–486.

Ogden, T. H. (1992). The primitive edge of experience. Jason Aronson.

Schore, A. N. (2012). The science of the art of psychotherapy. W. W. Norton.

Siegel, D. J. (2012). The developing mind: How relationships and the brain interact to shape who we are (2nd ed.). W. W. Norton.

Stern, D. N. (2004). The present moment in psychotherapy and everyday life. W. W. Norton.

van der Kolk, B. A. (2014). The body keeps the score: Brain, mind, and body in the healing of trauma. Viking.

Winnicott, D. W. (1960). Ego distortion in terms of true and false self. In D. W. Winnicott, The maturational processes and the facilitating environment (pp. 140–152). International Universities Press.

Winnicott, D. W. (1965). The maturational processes and the facilitating environment. International Universities Press.

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Psicólogo Clínico (OPP 30806) com especialização em Sexologia Clínica, Suicídio e Comportamento Autolesivos

TAV – Técnico de Apoio à Vítima 

Membro da PsiRelacional – Associação de Psicanálise Relacional

Doutorando em Psicologia Clínica no Ispa – Instituto Universitário

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