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O Que Distingue o Amor, a Amizade e a Relação Terapêutica?

Quando se tenta pensar seriamente sobre o que distingue uma relação amorosa de uma amizade, uma relação profissional de uma relação terapêutica, depressa se percebe que a palavra “relação” esconde realidades muito diferentes, organizadas por regras invisíveis, por expectativas afectivas distintas e por formas próprias de intimidade. A psicanálise relacional tem insistido que uma relação não é apenas o encontro entre duas pessoas, mas sobretudo um “campo” simbólico e emocional onde se decide, muitas vezes de forma implícita, o que é possível sentir, pedir, esperar e partilhar com o outro (Mitchell, 2000; Benjamin, 1995). Nas relações amorosas, por exemplo, aquilo a que os autores chamam “mutualidade” ocupa um lugar central: mutualidade aqui não é um termo técnico abstrato, mas a experiência muito concreta de duas pessoas que se reconhecem como sujeitos com necessidades, desejos e fragilidades, e que tentam negociar, com maior ou menor sucesso, uma forma de vida em comum. Numa relação amorosa madura espera-se que ambos tenham o direito de pedir apoio, de mostrar vulnerabilidade, de expressar desagrado, de propor proximidade ou distância; espera-se que haja reciprocidade, isto é, uma circulação mais ou menos equilibrada de cuidado, atenção, compromisso e desejo (Sternberg & Sternberg, 2016). A intimidade amorosa nasce dessa troca: de noites conversadas, de partilhas do quotidiano, da construção de projectos conjuntos, e também da possibilidade de se ser visto “por dentro” sem que isso leve à perda do vínculo. A intensidade afectiva é assumida, a exclusividade é negociada, o corpo e o erotismo têm um lugar, e, embora a perfeição seja impossível, a ideia de uma relação amorosa implica sempre este horizonte de reconhecimento mútuo.

Na amizade, a mutualidade assume outra forma. Não há, em geral, promessas de exclusividade nem um contrato explícito, mas existe a expectativa implícita de que um amigo não seja apenas alguém que se procura quando se está mal, nem apenas alguém que está presente quando tudo corre bem: espera-se que a amizade seja um espaço de ida e volta, em que a escuta e a palavra, a disponibilidade e o pedido, a presença e a ausência vão alternando de acordo com os momentos da vida. A intimidade numa amizade profunda costuma nascer da espontaneidade: confidências partilhadas sem que estejam em causa papéis formais, brincadeiras que aliviam a tensão, silêncios que não ameaçam o vínculo, memórias comuns que ajudam a criar um sentimento de pertença. Há espaço para falhas, mas quando a mutualidade se quebra de forma persistente – quando um dá sempre e o outro apenas recebe –, a própria amizade começa a ficar em risco, porque o equilíbrio afectivo se perde. Já nas relações profissionais, a lógica que organiza o vínculo é de outra ordem: o foco é a tarefa, o objectivo, a função. Mesmo quando existe simpatia, camaradagem ou respeito, a intimidade é limitada pelas exigências do contexto de trabalho; a maior parte das pessoas não leva para o local de trabalho as zonas mais vulneráveis da sua vida afectiva, e quando o faz, fá-lo com cuidado, porque sabe que aquele não é, por definição, o principal espaço de cuidado emocional. O que predomina é uma espécie de “mutualidade funcional”: cada pessoa reconhece a outra como sujeito, mas dentro de papéis claramente definidos – chefe, colega, colaborador, prestador de serviços – e a relação é construída para proteger a tarefa, não para aprofundar a vida interna (Norcross & Lambert, 2019).

A relação terapêutica, por sua vez, parece desfazer estas fronteiras ao mesmo tempo que cria outras. À primeira vista, é também uma relação profissional: há horário, honorários, um espaço específico, uma função claramente nomeada – fazer psicoterapia. No entanto, o que se passa dentro desse enquadramento aproxima-se, em termos afectivos, daquilo que muitas pessoas associariam à amizade íntima ou, por vezes, à própria experiência de amor: alguém que escuta com atenção rara, que acolhe emoções intensas sem se afastar, que acompanha momentos de crise, que reconhece o sofrimento sem o banalizar e que, sessão após sessão, permanece presente. A psicanálise descreve esta singularidade dizendo que a relação terapêutica é um tipo de vínculo em que se produz uma intimidade implícita: uma intimidade que não é vivida através de trocas simétricas – como acontece no amor ou na amizade – mas através de um acordo assimétrico, em que uma das partes se oferece para escutar, pensar e conter o mundo interno da outra (Gabbard, 1994; Mitchell, 2000). Assimetria, neste contexto, não quer dizer superioridade moral ou poder autoritário; quer dizer responsabilidade acrescida. O terapeuta compromete-se a não colocar o seu próprio desejo, a sua necessidade de ser cuidado ou as suas carências afectivas no centro da relação; compromete-se a não usar o paciente para satisfazer curiosidades pessoais, solidão, carência narcísica ou necessidade de ser admirado. Compromete-se, em vez disso, a fazer algo mais difícil: deixar-se tocar pelo que o paciente traz, mas colocar essa afetação ao serviço do processo terapêutico, e não o processo terapêutico ao serviço da sua vida pessoal (Aron, 1996; Kuchuck, 2021).

É aqui que convém explicar mais claramente o que se chama “setting” – palavra muitas vezes mencionada pelos terapeutas, mas nem sempre traduzida. O setting é o conjunto de condições relativamente estáveis que moldam a relação terapêutica: a duração das sessões, o horário, o lugar físico ou virtual, as regras de pagamento, os limites de contacto fora da sessão, a gestão das férias, a forma de lidar com faltas e remarcações. À superfície, pode parecer um arranjo logístico, mas, na verdade, é muito mais do que isso: é uma espécie de “corpo simbólico” da terapia. Tal como o corpo de um cuidador consistente, o setting dá previsibilidade; e é essa previsibilidade que permite que zonas mais primárias do psiquismo – aquelas que foram marcadas por inconstância, rejeição, invasão ou negligência – se comecem a aproximar. Quando uma criança cresce com cuidadores minimamente estáveis, vai construindo por dentro a expectativa de que o outro estará lá, de que o mundo não colapsa, de que sentimentos intensos podem ser suportados sem que o vínculo se desfaça (Bowlby, 1988). Quando essa estabilidade falha, instalam-se outros mapas internos: medo de abandono, hipervigilância, expectativa de rejeição, necessidade de controlar o outro ou, pelo contrário, tendência a submeter-se em excesso para não perder o vínculo. A relação terapêutica trabalha precisamente com estes mapas: aquilo a que a teoria chama “vínculos primários” – as relações com as figuras cuidadoras da infância e as marcas que deixaram na forma como a pessoa se relaciona consigo, com os outros e com o mundo (Benjamin, 1995; Gabbard, 1994).

É por isso que, na terapia, tantas vezes se sente algo que parece “mais” do que uma relação profissional. A literatura psicanalítica usa o conceito de transferência para descrever este fenómeno: a tendência para reviver com o terapeuta padrões de relação que têm raízes nas experiências precoces, como se o consultório fosse um palco onde velhas histórias se reencenam com novos actores (Gabbard, 1994; Bromberg, 1998). A pessoa pode sentir em relação ao terapeuta uma mistura de confiança e desconfiança que lembra, sem o saber, a forma como se aproximava da mãe ou do pai; pode experimentar uma necessidade intensa de ser vista como especial que ecoa a experiência de ter sido, em criança, pouco reconhecida; pode desenvolver sentimentos amorosos que condensam o desejo de ser finalmente escolhida, protegida, preferida. Pode também emergir raiva por pequenas falhas, uma raiva que tem menos a ver com o acontecimento actual e mais com uma longa história de desilusões anteriores; ou um medo de decepcionar o terapeuta que refaz, em silêncio, o medo de outrora de decepcionar alguém de quem dependia.

Neste cenário, torna-se mais compreensível porque razão a relação terapêutica pode ser sentida, internamente, como uma espécie de cruzamento entre amor e amizade. Há um lugar de confidência que lembra a amizade, mas o terapeuta não se expõe da mesma forma, nem espera ser cuidado em retorno; há uma intensidade afectiva que lembra o amor, mas não há projecto de vida em comum, nem erotização actuada, nem reciprocidade de desejos; há um contrato profissional, mas o tipo de conteúdo partilhado seria impensável na maioria das relações de trabalho. A intimidade implícita da terapia nasce desta combinação improvável: alguém oferece, de forma regular e confiável, a sua atenção, a sua mente e, até certo ponto, a sua sensibilidade, para que outra pessoa possa trazer à luz partes de si que, noutros contextos, precisam de se esconder para proteger o vínculo. Este tipo de disponibilidade é diferente da que existe numa relação amorosa ou de amizade, onde a exposição do próprio terapeuta é parte fundamental da relação; aqui, a contenção do terapeuta – isto é, a sua capacidade de guardar para si os próprios conflitos, fragilidades e necessidades – é precisamente aquilo que abre espaço para que o paciente possa ocupar, sem culpa, o centro do cenário relacional (Mitchell, 2000; Aron, 1996).

À medida que o processo avança, a forma como a pessoa vive a relação terapêutica tende a espelhar, de forma cada vez mais nítida, a forma como organiza as suas relações fora dali. Quem cresceu habituado a ter de cuidar demasiado dos outros pode sentir, na terapia, uma urgência de proteger o terapeuta do seu próprio sofrimento, evitando falar do que dói com medo de o “sobrecarregar”; quem foi tantas vezes deixado pode reagir com desconfiança a uma simples mudança de horário, como se estivesse em curso uma repetição do antigo abandono; quem aprendeu que o amor só existe através da rejeição pode, sem o saber, testar continuamente os limites da relação – faltando, chegando atrasado, provocando – como se precisasse de confirmar que, mais cedo ou mais tarde, o terapeuta também o vai deixar. No entanto, é exactamente aqui que se situa o potencial curativo da relação terapêutica: o facto de o terapeuta estar atento a estas repetições, de não as tomar como ataques pessoais, mas como expressões de uma história vincular, permite que algo de novo aconteça. Quando o terapeuta sustenta a continuidade do setting, mesmo quando é confrontado com emoções intensas, não está apenas a ser “profissional”: está, em certo sentido, a oferecer ao paciente a oportunidade de viver, talvez pela primeira vez, uma relação em que a intensidade não leva à catástrofe, em que o conflito não conduz automaticamente à ruptura, em que o amor não precisa de ser comprado com auto-anulação (Benjamin, 1995; Salberg, 2015).

Isto não significa que a terapia seja uma relação perfeita, imune a falhas. Pelo contrário: a literatura sublinha que é precisamente no modo como as falhas são reconhecidas, pensadas e reparadas que reside grande parte da sua força transformadora (Bromberg, 1998; Safran & Muran, 2000). O que distingue a relação terapêutica de outras relações não é a ausência de imperfeição, mas o compromisso de a usar como material de trabalho. Numa amizade ou num amor, uma falha pode ser discutida, negada, esquecida ou levar ao fim da relação; na terapia, idealmente, é também uma oportunidade de compreensão: porque é que doeu tanto? O que é que essa dor lembra? Que história antiga se activou naquele momento? O terapeuta não cura pela perfeição, mas pela capacidade de permanecer presente e pensante quando a perfeição falha.

Quando se olha para estas camadas em conjunto, pode-se dizer que compreender as diferenças entre os tipos de relação – amorosa, amistosa, profissional, terapêutica – é mais do que um exercício teórico; é uma forma de ganhar linguagem para aquilo que, muitas vezes, se vive de forma confusa. Perceber que a relação terapêutica é intencionalmente assimétrica pode aliviar a culpa de quem sente demais: os sentimentos que surgem ali não são “demasiado”, são precisamente o material com que se trabalha. Perceber que a intimidade na terapia é implícita – quer dizer, não se constrói por troca, mas por oferta de presença e de enquadramento – pode ajudar a distinguir entre o desejo de ser correspondido como num amor e a necessidade legítima de ser reconhecido, nomeado, validado. Perceber que aquilo que se sente pelo terapeuta fala tanto das relações actuais como das feridas antigas pode abrir um caminho de curiosidade em vez de vergonha: “o que é que este vínculo desperta que já estava em mim muito antes de o conhecer?”. E perceber que, ao longo do tempo, a qualidade desta relação pode ser levada para fora do consultório – inspirando novas formas de amar, de fazer amizade, de se posicionar profissionalmente – é talvez um dos aspectos mais discretamente revolucionários da psicoterapia. Não se trata de substituir os vínculos primários por um vínculo ideal com o terapeuta; trata-se de usar a relação terapêutica como um laboratório vivo onde os traços desses vínculos primários podem ser vistos, sentidos, compreendidos e, pouco a pouco, transformados (Mitchell, 2000; Benjamin, 1995; Norcross & Lambert, 2019).

Referências

Aron, L. (1996). A meeting of minds: Mutuality in psychoanalysis. The Analytic Press.
Benjamin, J. (1995). Like subjects, love objects: Essays on recognition and sexual difference. Yale University Press.
Bowlby, J. (1988). A secure base: Parent-child attachment and healthy human development. Basic Books.
Bromberg, P. M. (1998). Standing in the spaces: Essays on clinical process, trauma, and dissociation. Psychology Press.
Gabbard, G. O. (1994). Psychodynamic psychiatry in clinical practice. American Psychiatric Press.
Kuchuck, S. (Ed.). (2021). The relational revolution: The personal and the professional in the new psychoanalysis. Routledge.
Mitchell, S. A. (2000). Relationality: From attachment to intersubjectivity. The Analytic Press.
Norcross, J. C., & Lambert, M. J. (2019). Psychotherapy relationships that work III. Psychotherapy, 56(4), 425–435.
Safran, J. D., & Muran, J. C. (2000). Negotiating the therapeutic alliance: A relational treatment guide. Guilford Press.
Salberg, J. (Ed.). (2015). Good enough endings: Breaks, interruptions and terminations from contemporary relational perspectives. Routledge.
Sternberg, R. J., & Sternberg, K. (2016). The psychology of love (2nd ed.). Cambridge University Press.

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Psicólogo Clínico (OPP 30806) com especialização em Sexologia Clínica, Suicídio e Comportamento Autolesivos

TAV – Técnico de Apoio à Vítima 

Membro da PsiRelacional – Associação de Psicanálise Relacional

Doutorando em Psicologia Clínica no Ispa – Instituto Universitário

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