
Quando o corpo fala o que a mente não consegue dizer
As perturbações do comportamento alimentar (PCA) — como anorexia nervosa, bulimia nervosa e perturbação de compulsão alimentar — são expressões complexas do sofrimento psíquico (ou seja, modos de regulação emocional e vincular profundamente desorganizados, onde o corpo é utilizado como mediador simbólico de conflitos internos e intersubjetivos).
Essa complexidade reside na interligação entre fatores biológicos, emocionais, relacionais e culturais, que se articulam de forma dinâmica na estrutura da personalidade e do vínculo (Fairburn, 2008; Gabbard, 2014; Treasure, Duarte & Schmidt, 2020; Stern, 1985).
Mais do que problemas com o peso ou a alimentação, as perturbações alimentares traduzem conflitos emocionais profundos relacionados com o controlo, o amor, o reconhecimento e a forma como o sujeito habita o próprio corpo (Bruch, 1973; Ogden, 1992; McDougall, 1995).
O controlo surge como defesa face à imprevisibilidade do vínculo — comer ou não comer torna-se uma forma de regular o medo da dependência e da perda.
O amor manifesta-se na tentativa de ser visto e valorizado através do corpo idealizado ou disciplinado, enquanto o reconhecimento se procura na aprovação do outro, em substituição de um sentimento interno de valor que nunca foi suficientemente consolidado.
Por fim, a forma como o sujeito habita o próprio corpo reflete a qualidade das experiências precoces de cuidado e de espelhamento: quando o corpo foi vivido como estranho, intrusivo ou vergonhoso, tende a tornar-se palco de conflito e não de pertença (Winnicott, 1971/1978; Benjamin, 1998; Krueger, 2002).
O corpo, assim, torna-se palco de uma luta entre presença e desaparecimento, necessidade e culpa.
Em muitos casos, o comer — ou o recusar comer — funciona como uma linguagem simbólica (isto é, uma forma inconsciente de transformar em gesto corporal aquilo que não pode ser representado psiquicamente por palavras ou imagens), uma tentativa inconsciente de restaurar a ordem interna (ou seja, de reencontrar coerência emocional e sentimento de identidade perante a fragmentação psíquica) — de comunicar dor, silenciar angústias ou recuperar uma sensação de poder sobre o que se sente perdido (Bruch, 1973; Ogden, 1992; Gabbard, 2014; McDougall, 1995)
.O corpo como espelho de identidade
Nas perturbações do comportamento alimentar, o corpo torna-se espelho da identidade fragilizada — uma superfície onde se projetam exigências de perfeição, medo de rejeição e sentimentos de insuficiência.
A imagem corporal raramente coincide com a realidade física: é uma construção simbólica moldada por experiências precoces de cuidado e pelas normas culturais do olhar (Cash & Smolak, 2011; Piran, 2019).
O controlo sobre o corpo e a comida emerge como uma defesa contra o desamparo e a perda de coesão interna — uma tentativa de dar forma e previsibilidade ao que é vivido como caótico ou imprevisível (Bruch, 1973; Skårderud, 2007).
O corpo é transformado num campo de batalha entre desejo e culpa, presença e desaparecimento, e o comportamento alimentar torna-se uma linguagem que regula a distância emocional face ao outro (Benjamin, 1998; Fonagy et al., 2002).
Do ponto de vista clínico, as restrições, purgações ou compulsões podem ser entendidas como tentativas de autorregulação, onde o corpo é usado para conter afetos intoleráveis ou reparar feridas narcísicas (McDougall, 1995; Gabbard, 2014).
A vergonha e a autocrítica, frequentemente amplificadas pelo olhar social e mediático, consolidam um ciclo de autoexigência e punição (Fairburn, 2008; Piran, 2019).
A intervenção psicoterapêutica visa reintegrar o corpo na experiência emocional e relacional do self — um processo que implica sentir, nomear e simbolizar o que antes era apenas agido.
Ao favorecer a mentalização e a interocepção, o tratamento permite reconstruir o corpo como espaço de pertença, confiança e presença (Winnicott, 1971/1978; Fonagy et al., 2002).
A articulação com Nutrição e Psiquiatria é essencial para garantir uma abordagem segura e integrada, orientada não apenas pela remissão sintomática, mas pela restauração da capacidade de viver no corpo com autenticidade e ternura.
Como é feita a intervenção psicológica
A psicoterapia nas perturbações do comportamento alimentar é um espaço de reconstrução da confiança — confiança no corpo, na relação e na própria capacidade de sentir.
A literatura demonstra que o restabelecimento da confiança corporal e interpessoal é um fator crítico de recuperação (Skårderud, 2007; Piran, 2019; Wonderlich et al., 2020).
O processo terapêutico permite restaurar o sentido de coerência entre emoção, corpo e identidade, frequentemente fragmentado por experiências precoces de desvalorização, controlo ou intrusão (Fairburn, 2008; Fonagy et al., 2002; Schore, 2012).
Mais do que eliminar sintomas, o trabalho clínico procura compreender o significado do comer, do controlar e do silenciar no contexto da história vincular e afetiva de cada pessoa.
Estudos longitudinais mostram que as mudanças sustentadas em PCA ocorrem quando o paciente é capaz de simbolizar as funções emocionais do sintoma — e não apenas de o suprimir (Castellini et al., 2011; Treasure et al., 2020).
O sintoma é escutado como uma forma de comunicação — um modo através do qual o sujeito tenta regular o que não pôde ser representado simbolicamente, restaurando a continuidade do self e o sentimento de existência (Bruch, 1973; McDougall, 1995; Gabbard, 2014).
A intervenção é individual, podendo integrar momentos com familiares ou articulação com Nutrição e Psiquiatria, sempre numa lógica multidisciplinar e de cuidado integrado (APA, 2023; NICE, 2020).
Baseia-se numa abordagem psicanalítica-relacional e integrativa, que privilegia a co-construção do sentido do sintoma e a reparação das falhas de espelhamento precoce (Winnicott, 1971/1978; Fonagy et al., 2002; Benjamin, 1998).
Entre os eixos de trabalho incluem-se:
- Compreensão das dinâmicas vinculares e identitárias associadas ao controlo, à culpa e à vergonha, reconhecendo o papel do perfeccionismo e da autoexigência na manutenção do sintoma (Bardone-Cone et al., 2007);
- Reconstrução da autoimagem corporal e do sentimento de continuidade entre corpo, emoção e pensamento (Skårderud, 2007; Piran, 2019);
- Exploração do sintoma como regulação afetiva, favorecendo a transformação do agir em palavra e do corpo em presença simbólica (McDougall, 1995; Stern, 1985);
- Desenvolvimento da interocepção e mentalização, para restaurar a capacidade de reconhecer e nomear estados internos (Fonagy et al., 2002; Schore, 2012; Tasca & Balfour, 2014);
- Promoção de uma relação terapêutica segura, onde o paciente possa experimentar ser visto e sentido sem julgamento — condição essencial para a reorganização do self e a reintegração da confiança (Benjamin, 1998; Dalle Grave et al., 2020).
A psicoterapia não impõe dietas nem metas de peso;
procura restaurar o diálogo entre corpo e psique, substituindo o controlo pela escuta e a punição pela curiosidade.
Mais do que corrigir comportamentos, trata-se de permitir que o sujeito volte a confiar no próprio sentir — reencontrando, na relação terapêutica, a possibilidade de cuidar de si com verdade, compaixão e liberdade.
Quando procurar ajuda
Há momentos em que o corpo começa a falar por nós.
Quando comer, pesar ou controlar se tornam o centro da vida psíquica — quando o corpo ocupa o espaço que a palavra perdeu —, é sinal de que algo dentro pede escuta.
Procure ajuda psicológica quando:
- O corpo, o comer ou o peso dominam o pensamento e condicionam o humor ou a autoestima;
- Existem comportamentos compensatórios (restrição, purgação, exercício excessivo, uso de laxantes);
- Sente vergonha intensa, medo de comer ou culpa após as refeições;
- O corpo é vivido como ameaça, prisão ou inimigo, acompanhado de insatisfação persistente com a forma corporal;
- Nota isolamento social, ansiedade, depressão ou perda de prazer nas relações;
- Ou quando simplesmente sente que perdeu a capacidade de confiar no corpo — de saber quando tem fome, de saber quando já basta (Fairburn, 2008; Skårderud, 2007; Treasure, Duarte & Schmidt, 2020).
As perturbações do comportamento alimentar são formas de sobrevivência psíquica — modos de tentar regular o que dói, de transformar o caos em controlo, de dar forma visível ao invisível (Bruch, 1973; McDougall, 1995; Piran, 2019).
Por isso, o tratamento não se reduz a corrigir comportamentos: trata-se de reconstruir a confiança — no corpo, no vínculo e na própria capacidade de sentir (Fonagy et al., 2002; Schore, 2012).
A psicoterapia é o espaço onde a fome — de alimento, de amor e de presença — pode finalmente ser reconhecida, nomeada e acolhida.
É o lugar onde o corpo volta a ser sentido como casa, e não como campo de batalha.
Onde o controlo cede à escuta, e o medo abre caminho à possibilidade de viver com ternura o próprio corpo — e a própria história.
Referências
- American Psychological Association. (2023). Clinical Practice Guideline for the Treatment of Eating Disorders. APA.
- Bardone-Cone, A. M., Wonderlich, S. A., Frost, R. O., Bulik, C. M., Mitchell, J. E., Uppala, S., & Simonich, H. (2007). Perfectionism and eating disorders: Current status and future directions. Clinical Psychology Review, 27(3), 384–405.
- Benjamin, J. (1998). The Shadow of the Other: Intersubjectivity and Gender in Psychoanalysis. Routledge.
- Bruch, H. (1973). Eating Disorders: Obesity, Anorexia Nervosa, and the Person Within. Basic Books.
- Cash, T. F., & Smolak, L. (Eds.). (2011). Body image: A handbook of science, practice, and prevention. Guilford Press.
- Castellini, G., Lo Sauro, C., Mannucci, E., Ravaldi, C., Rotella, C. M., Faravelli, C., & Ricca, V. (2011). Diagnostic crossover and outcome predictors in eating disorders according to DSM-IV and DSM-5 proposed criteria: A 6-year follow-up study. Psychosomatic Medicine, 73(3), 270–279.
- Dalle Grave, R., Calugi, S., & Sartirana, M. (2020). Enhanced cognitive behavioral therapy for eating disorders: Theory, clinical practice, and evidence. Frontiers in Psychiatry, 11, 216.
- Fairburn, C. G. (2008). Cognitive behavior therapy and eating disorders. Guilford Press.
- Fonagy, P., Gergely, G., Jurist, E., & Target, M. (2002). Affect regulation, mentalization, and the development of the self. Other Press.
- Gabbard, G. O. (2014). Psychodynamic psychiatry in clinical practice (5th ed.). American Psychiatric Publishing.
- Krueger, D. W. (2002). Integrating Body Self and Psychological Self: Creating a New Story in Psychoanalytic Treatment. Brunner-Routledge.
- McDougall, J. (1995). Théâtres du corps. Gallimard.
- NICE. (2020). Eating disorders: recognition and treatment. National Institute for Health and Care Excellence.
- Ogden, T. H. (1992). The matrix of the mind: Object relations and the psychoanalytic dialogue. Jason Aronson.
- Piran, N. (2019). Handbook of positive body image and embodiment. Oxford University Press.
- Schore, A. N. (2012). The science of the art of psychotherapy. Norton.
- Stern, D. N. (1985). The interpersonal world of the infant: A view from psychoanalysis and developmental psychology. Basic Books.
- Skårderud, F. (2007). Eating one’s words: Part I. “Concretised metaphors” and reflective function in anorexia nervosa. European Eating Disorders Review, 15(3), 163–174.
- Tasca, G. A., & Balfour, L. (2014). Attachment and eating disorders: A research update. Current Opinion in Psychology, 1, 70–75.
- Treasure, J., Duarte, T. A., & Schmidt, U. (2020). Eating disorders. The Lancet, 395(10227), 899–911.
- Wonderlich, S. A., Bulik, C. M., Schmidt, U., Steiger, H., & Hoek, H. W. (2020). Severe and enduring anorexia nervosa: Update and observations about the current clinical reality. International Journal of Eating Disorders, 53(8), 1303–1312.
- Winnicott, D. W. (1978). Processus de maturation chez l’enfant : Développement affectif et environnement. Payot. (Textos originais publicados entre 1958 e 1963)