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O Medo: Quando o Corpo Ensina a Sobreviver — e a Alma Aprende a Confiar

O medo é uma das emoções mais antigas da vida. Está gravado no corpo muito antes de termos palavras. Surge quando algo dentro de nós reconhece o perigo — mesmo que ainda não o consigamos nomear. É o corpo a dizer: “Cuidado, protege-te”.
António Damásio (1999) explica que as emoções são programas automáticos de sobrevivência; o medo, em particular, prepara o organismo para reagir. O coração acelera, os músculos contraem-se, a respiração muda. Tudo se orienta para a defesa. Só depois a mente interpreta: “Estou com medo”. Por isso, o medo é sempre primeiro corporal e só depois consciente.

Jaak Panksepp (1998), pioneiro da neurociência afetiva, mostrou que todos os mamíferos partilham um mesmo sistema cerebral — o circuito do FEAR — responsável pela fuga, congelamento ou defesa. Mas há outro sistema vizinho, o PANIC/GRIEF, ligado à perda e à separação. É aqui que o medo ganha uma dimensão emocional mais profunda: o medo não surge apenas diante do perigo físico, mas também da possibilidade de ficar sem o outro. Desde o início da vida, tememos não só o que pode magoar, mas o que pode abandonar.

John Bowlby (1980) demonstrou que o vínculo é o primeiro sistema de regulação do medo. Quando uma criança se assusta e encontra um olhar que a acolhe, o corpo relaxa. Aprende que o medo pode ser contido pelo outro. Mas se o olhar que encontra é frio ou ausente, o corpo grava outra lição: “ninguém vem”. E, a partir daí, o medo deixa de ser apenas uma emoção passageira; torna-se uma forma de existir. O corpo passa a viver em alerta, à espera de um perigo que já não está fora, mas dentro.

Allan Schore (2012) descreve que esta co-regulação precoce molda o desenvolvimento do cérebro emocional. Quando o ambiente é imprevisível, o sistema nervoso organiza-se em torno do perigo — o corpo fica hipervigilante, a mente ansiosa. Fonagy e colaboradores (2002) acrescentam que, quando o medo não é espelhado nem nomeado, ele não se transforma em pensamento: fica a morar no corpo, como uma emoção sem palavra. É esse medo que, mais tarde, se manifesta em crises de ansiedade, em evitação da intimidade ou em necessidade de controlo.

Freud (1894/1987) chamava a esse medo não representado “angústia flutuante”: um afecto que perdeu o seu objecto e vagueia em busca de sentido. A neurociência chamaria hipersensibilidade da amígdala; a psicanálise, retorno do recalcado. O fenómeno é o mesmo: um corpo que continua a gritar um medo antigo que ainda não encontrou tradução simbólica.

Na vida adulta, o medo raramente se apresenta com o seu nome verdadeiro. Vem disfarçado de irritação, controlo, indecisão, perfeccionismo ou até de humor. Às vezes surge como entorpecimento — uma forma de não sentir nada para não sentir medo. Noutras, aparece como necessidade constante de prever tudo. Em qualquer caso, é o mesmo impulso: tentar não ser apanhado de surpresa outra vez.

Na clínica, é comum o medo surgir quando há proximidade. Desejar o outro é, de algum modo, expor-se ao risco da perda. O corpo não distingue o presente do passado, e o amor pode ativar os mesmos alarmes que outrora se ligaram perante o abandono. O medo não é, então, um erro; é o corpo a tentar evitar que a história se repita. Quando um terapeuta reconhece isso e oferece presença em vez de julgamento, o medo começa a perder poder. Aprende que já não precisa de proteger o paciente daquilo que já passou.

Diana Fosha (2000), criadora da Terapia Acelerada Focada na Emoção, descreve que só há transformação quando o medo é vivido com segurança. O objetivo não é eliminá-lo, mas permitir que ele se expresse num ambiente onde a mente possa integrá-lo. A emoção que antes era ameaça torna-se fonte de vitalidade. É nesse momento que o medo se transforma em coragem — não porque desaparece, mas porque é acolhido.

Vivemos, no entanto, numa cultura que confunde coragem com ausência de medo. Desde cedo, muitos aprendem que ter medo é fraqueza. Brené Brown (2012) lembra-nos que a verdadeira coragem é “aparecer mesmo com medo”. Quando o medo é negado, ele transforma-se em ansiedade, em fadiga, em corpo tenso. Quando é escutado, torna-se sabedoria emocional.

O medo, afinal, é também uma forma de memória. Cada medo guarda uma história: uma vez em que o corpo ficou sozinho com o perigo. Por isso, o trabalho terapêutico passa por restituir significado a essa memória. Freud (1915/1987) dizia que recordar é o caminho para libertar o inconsciente. Quando damos palavra ao medo, devolvemos-lhe tempo. Ele deixa de ser presente absoluto e passa a ser passado reconhecido.

Na vida relacional, o medo manifesta-se como ambivalência: o desejo de se aproximar e o impulso de se proteger. É nesse ponto que o amor e o medo se tocam. A abertura que permite o vínculo é a mesma que nos deixa vulneráveis. Aprender a amar é, de certa forma, aprender a suportar o medo de perder. Não o medo que paralisa, mas o medo que reconhece a importância do outro.

Damásio (2021) fala de um “sentimento de segurança” que surge quando o self está coeso o suficiente para enfrentar o perigo sem colapsar. O medo, então, cumpre a sua função e retira-se. Volta a ser o que sempre foi: um guardião da vida. Peter Bromberg (2011) acrescenta que a cura acontece quando os diferentes estados do self — o assustado, o racional, o cuidador — podem coexistir sem exclusão. Ou seja, quando podemos sentir medo sem deixar de ser quem somos.

No fim, o medo é o preço da consciência. É a sombra que acompanha o dom de sabermos que existimos. Não se trata de o eliminar, mas de aprender a caminhar ao seu lado. O medo é a primeira emoção a chegar e a última a ir-se embora; é ele que nos ensina a importância de termos um corpo, um vínculo, um outro.

E talvez seja isso a coragem: não a ausência de medo, mas o seu reconhecimento.
Porque só quem sentiu medo sabe o que significa confiar outra vez — respirar, ficar, e continuar vivo.

Referências

Bowlby, J. (1980). Attachment and loss: Vol. 3. Loss, sadness and depression. Basic Books.

Bromberg, P. M. (2011). The shadow of the tsunami and the growth of the relational mind. Routledge.

Brown, B. (2012). Daring greatly: How the courage to be vulnerable transforms the way we live, love, parent, and lead. Gotham Books.

Damásio, A. R. (1999). The feeling of what happens: Body and emotion in the making of consciousness. Harcourt Brace.

Damásio, A. R. (2021). Feeling & knowing: Making minds conscious. Pantheon Books.

Fonagy, P., Gergely, G., Jurist, E. L., & Target, M. (2002). Affect regulation, mentalization, and the development of the self. Other Press.

Fosha, D. (2000). The transforming power of affect: A model for accelerated change. Basic Books.

Freud, S. (1894/1987). As neuropsicoses de defesa. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. III). Imago.

Freud, S. (1915/1987). O inconsciente. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. XIV). Imago.

Panksepp, J. (1998). Affective neuroscience: The foundations of human and animal emotions. Oxford University Press. Schore, A. N. (2012). The science of the art of psychotherapy. W. W. Norton & Company.

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Psicólogo Clínico (OPP 30806) com especialização em Sexologia Clínica, Suicídio e Comportamento Autolesivos

TAV – Técnico de Apoio à Vítima 

Membro da PsiRelacional – Associação de Psicanálise Relacional

Doutorando em Psicologia Clínica no Ispa – Instituto Universitário

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