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Quando o Vazio Tem Fome de Ser Pensado

Nas últimas semanas — ou talvez nos últimos anos — ecoa uma pergunta antiga, mas sempre nova: como me livro deste vazio que me faz correr atrás mesmo quando sei que não é bom para mim?
Um vazio que insiste, que puxa, que promete alívio e entrega mas quase sempre devolve exaustão. Um vazio que vale a pena refletir, porque talvez todos o carreguemos em alguma medida — e, arrisco dizer, talvez os próprios terapeutas o carreguem em excesso, ainda que o vistam de escuta, técnica e contenção.

O vazio é o vestígio do que faltou. Não nasceu de ontem, mas de um tempo remoto em que alguém — geralmente quem devia acolher — não conseguiu. É a marca deixada pela ausência de um olhar que pensasse e devolvesse existência. Quando uma criança não é verdadeiramente vista, aprende a duvidar do seu próprio valor e passa a viver entre dois impulsos contraditórios: o de aproximar-se para ser amada e o de afastar-se para não ser novamente magoada.

Esse conflito funda o que, mais tarde, se tornará um modo de estar no amor e no mundo. Corremos atrás não porque desejamos o outro em si, mas porque desejamos o reconhecimento que o outro simboliza. Queremos que alguém, finalmente, confirme que somos reais. E quanto mais tentamos saciar essa fome, mais o vazio cresce — porque o que falta não está fora, está no lugar interno onde nunca fomos pensados.

O drama é que o vazio não se cura pela fuga nem pela substituição. Cada nova relação, cada paixão impossível, cada tentativa de redenção repete a ferida original. É por isso que tantas histórias intensas terminam num ponto de colapso: nelas, o amor torna-se o palco onde o trauma pede reparação. A pessoa não se apaixona pelo outro, mas pela promessa de que, desta vez, alguém aguentará olhar o seu desamparo sem virar o rosto.

Curar não é apagar o vazio. É compreendê-lo até o transformar. É olhar para ele com a mesma ternura que um adulto tem por uma criança assustada. É reconhecer que esse impulso de correr atrás é, na verdade, o desejo de reencontrar a parte perdida que aprendeu a esconder-se para sobreviver. Quando se começa a dar espaço a essa parte — quando ela é ouvida, sentida e nomeada — o vazio deixa de ser ameaça. Torna-se chão.

Talvez o vazio seja, no fundo, o que nos torna humanos. Ele lembra-nos que dependemos de outros para nos formarmos, mas também que precisamos aprender a ser presença para nós mesmos. O paradoxo é que só quem se reconcilia com o seu próprio vazio pode verdadeiramente estar inteiro diante do outro.

E é por isso que o vazio importa, sobretudo, a quem cuida. Porque quem cuida sem reconhecer o seu vazio tende a preencher-se com o sofrimento alheio — e, sem querer, transforma o vínculo em espelho distorcido. Talvez seja esta a ferida silenciosa de muitos terapeutas: o vazio que aprenderam a esconder sob a técnica, mas que os habita em silêncio e às vezes os consome.

No fim, o vazio que nos faz correr atrás é o mesmo que, quando pensado e acolhido, nos ensina a parar. A estar. A não fugir. A descobrir que o sentido da vida não está em livrar-se do vazio — mas em aprender a habitá-lo.
Porque é nesse lugar, precisamente onde antes doía, que nasce a possibilidade de amar com verdade.

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Consultório

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Psicólogo Clínico (OPP 30806) com especialização em Sexologia Clínica, Suicídio e Comportamento Autolesivos

TAV – Técnico de Apoio à Vítima 

Membro da PsiRelacional – Associação de Psicanálise Relacional

Doutorando em Psicologia Clínica no Ispa – Instituto Universitário

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