
“Há mães que amam com a força de quem conheceu o vazio demasiado cedo.”
Há mães cujo amor parece não ter limites. Amam com a força de quem sobreviveu à carência, com a urgência de quem conheceu o vazio demasiado cedo. À primeira vista, são mães devotadas, presentes, incansáveis — aquelas que dão tudo. Mas, por vezes, esse “tudo” é o problema. Por detrás do excesso de amor, pode esconder-se uma dor antiga: a ausência de um amor que as pensasse, um pai que as visse, uma infância sem espelho. É nesse vazio que o filho nasce, não apenas como criança, mas como promessa de reparação.
Winnicott (1960) dizia que o amor maduro implica a capacidade de o outro existir fora de nós. Para isso, é necessário um espaço interno suficientemente habitado — uma mente que tenha sido pensada, contida e diferenciada. Quando essa experiência falha na infância, o amor pode tornar-se um mecanismo de defesa contra a solidão psíquica. A mulher que não teve um pai emocionalmente presente, ou uma mãe capaz de simbolizar a ausência, pode crescer com um buraco de espelho: uma parte do eu que nunca se viu refletida. E quando se torna mãe, é o filho que passa a ocupar esse espelho em falta.
Coimbra de Matos (2002, 2011) descreve magistralmente essa condição ao falar das “mães dos filhos em depressão neurótica” — mulheres que, por não terem sido pensadas enquanto filhas, desenvolvem uma necessidade compulsiva de serem indispensáveis. O amor torna-se, assim, uma tentativa de existir. Estas mães não conseguem tolerar a diferença entre elas e o filho; confundem a proximidade com fusão, o cuidado com domínio. O filho é investido como um prolongamento narcísico do seu self ferido, um espelho onde procuram ver o amor que nunca receberam.
Trata-se de um amor ansioso, que dá demais, mas que, paradoxalmente, nunca satisfaz. O excesso aqui não é generosidade — é defesa contra a falta. Dar em excesso é uma forma de negar o vazio interno, de não sentir o medo da rejeição. A mãe oferece tudo para garantir que o filho nunca se afasta, que nunca a desilude como os outros o fizeram. Mas o que o filho aprende é que o amor é algo a que deve corresponder — e não uma experiência livre.
Fairbairn (1952) ajudou-nos a compreender esta dinâmica ao mostrar que o sujeito, quando privado de amor autêntico, não renuncia à necessidade de ligação — antes internaliza o objeto frustrante e aprende a amar o que o fere. O filho de uma mãe que ama em excesso pode, assim, sentir que a única forma de ser amado é corresponder ao amor dela, sacrificando o próprio desejo. Cresce com culpa, medo e uma forma precoce de submissão afetiva.
A mãe que procura no filho o pai que nunca teve, sem o saber, erotiza simbolicamente o vínculo. Essa erotização não é sexual, mas emocional: o filho torna-se o lugar da ternura que ela não conheceu, o porto de segurança que faltou na infância. Ele é o confidente, o aliado, o “homem da casa”. Em muitos casos, assume desde cedo uma função de suporte emocional, de pequeno terapeuta materno. A fronteira entre o amor materno e o amor de casal torna-se difusa, e o filho cresce sentindo-se simultaneamente especial e aprisionado.
Golse (1999) descreve esse tipo de fusão como uma “aliança simbiótica” que impede o desenvolvimento da alteridade. A mãe e o filho tornam-se coautores de um mesmo enredo afetivo: ela precisa de ser indispensável; ele precisa de ser amado. A consequência é que o filho não aprende a diferenciar o próprio desejo. Cada tentativa de separação é vivida como traição, e cada expressão de autonomia é recebida com dor.
Do ponto de vista do desenvolvimento emocional, esta relação instala uma dificuldade precoce na regulação dos afetos. A criança aprende que a sua raiva ou a sua distância podem magoar a mãe — e, portanto, reprime-as. O ódio, que em Winnicott (1958) é uma etapa essencial para a individuação, é transformado em culpa. O resultado é um self dividido: uma parte que deseja liberdade e outra que teme destruir o objeto amado. Esta cisão é, muitas vezes, o berço da ambivalência afetiva que mais tarde emerge nas relações adultas.
Bion (1962) lembrava que a capacidade de amar implica suportar o ódio sem retaliar. A mãe que não viveu essa experiência com os seus próprios pais não consegue tolerar o ódio do filho — nem o seu. O amor, então, transforma-se em contenção forçada, em ternura sufocante. Quando o filho manifesta agressividade ou frustração, ela interpreta-o como rejeição e responde com mágoa. A relação deixa de ser um espaço de pensamento e torna-se um circuito fechado de necessidade.
Fonagy e Target (1997) explicam que, nestes casos, a função reflexiva da mãe — a capacidade de imaginar os estados mentais do filho — fica comprometida. A sua dor não simbolizada contamina o campo relacional: ela projeta no filho os fantasmas da própria infância e reage a partir deles. O filho torna-se, assim, palco de uma história que não é sua.
Esta dinâmica tem uma característica comum a todos os amores excessivos: a recusa da perda. A mãe que dá em excesso ama com medo. Medo de que o filho sinta a mesma solidão que ela sentiu, medo de que a afaste e a confronte com o vazio do pai ausente. Por isso, procura antecipar tudo, resolver tudo, proteger de tudo — e, ao fazê-lo, impede que o filho viva. Winnicott (1960) dizia que o amadurecimento implica a capacidade de “desiludir a mãe sem a destruir”. Mas, para isso, é preciso que a mãe suporte ser desiludida. A mãe que ama demais não suporta a desilusão — confunde a autonomia do filho com abandono, e a sua ausência com ingratidão.
O amor torna-se então uma prisão suave: o filho não pode crescer sem sentir que está a trair a mãe, e a mãe não pode libertá-lo sem sentir que está a morrer. Esta forma de amor não é ausência de ternura — é ternura que não conhece fronteira.
A psicanálise relacional contemporânea (Mitchell, 1993; Benjamin, 1995) trouxe um contributo importante para compreender esta inversão dos lugares afetivos. Quando o vínculo primário é marcado por carência, o sujeito cresce com uma ferida de reconhecimento. A mãe, ao usar o filho como espelho reparador, não o vê enquanto outro, mas como espelho de si mesma. Jessica Benjamin (1995) chama a isto “a impossibilidade de mutualidade”: uma relação em que o outro existe apenas na medida em que confirma o eu.
Na clínica, este tipo de matriz vincular é frequente em pacientes com dificuldades de diferenciação afetiva, culpa difusa e medo da separação. São pessoas que aprenderam a amar cuidando, a proteger para não perder, a doar para garantir vínculo. O amor torna-se vigilância — uma forma sofisticada de controlo.
Coimbra de Matos (2011) sublinha que “a verdadeira maternidade começa quando a mãe aceita que o filho tem o direito de ser um outro”. Essa aceitação é, no fundo, o ponto de viragem entre o amor reparador e o amor transformador. A mãe suficientemente boa sabe que o amor não é a eliminação da falta, mas a possibilidade de habitá-la.
O desafio terapêutico, nestes casos, é duplo. Por um lado, é preciso oferecer à mãe — ou ao paciente que traz essa mãe internalizada — uma nova experiência de relação: um vínculo onde o amor não dependa da fusão. Por outro, é necessário ajudar o sujeito a reconhecer a própria necessidade de ser necessário, e o medo subjacente de deixar de ser amado se deixar de ser indispensável.
Ser suficientemente bom, para estas mães e para os filhos que delas nasceram, significa reaprender a viver com a incompletude. É poder dizer: “não sou tudo para ti, e mesmo assim existo para ti”. É aceitar que amar é também deixar ir — e que o amor que liberta é, paradoxalmente, o mais fiel de todos.
A mãe que procura o pai no filho carrega uma herança invisível: a história de uma filha não pensada. Mas se conseguir, em algum momento da sua vida, reconhecer essa história, pode começar a libertar o filho do destino de a repetir. E talvez aí, finalmente, o amor se torne o que sempre quis ser: um espaço de dois, e não de um só.
Referências
Benjamin, J. (1995). Like subjects, love objects: Essays on recognition and sexual difference. New Haven, CT: Yale University Press.
Bion, W. R. (1962). Learning from experience. London: Heinemann.
Coimbra de Matos, A. (2002). A clínica e o sentido da vida: Ensaios de psicanálise relacional. Lisboa: Climepsi Editores.
Coimbra de Matos, A. (2011). A teoria dos afectos: Psicanálise, ética e técnica. Lisboa: Climepsi Editores.
Fairbairn, W. R. D. (1952). Psychoanalytic studies of the personality. London: Tavistock.
Fonagy, P., & Target, M. (1997). Attachment and reflective function: Their role in self-organization. Development and Psychopathology, 9(4), 679–700.
Golse, B. (1999). Le développement affectif et intellectuel de l’enfant. Paris: Presses Universitaires de France.
Mitchell, S. A. (1993). Hope and dread in psychoanalysis. New York, NY: Basic Books.
Winnicott, D. W. (1958). The capacity to be alone. The International Journal of Psychoanalysis, 39, 416–420.
Winnicott, D. W. (1960). The theory of the parent-infant relationship. International Journal of Psycho-Analysis, 41, 585–595.