Há uma forma de relação que não é fantasia, não é projeção, não é controlo nem idealização — é uma relação real. E é precisamente essa que mais assusta. Uma relação real não é apenas a presença do outro; é a experiência de sermos afetados por essa presença, de termos impacto e de sermos impactados, de existirmos num campo intersubjetivo onde o que sentimos não pode ser completamente controlado, antecipado ou protegido. É aqui que o medo começa. Não porque a relação seja perigosa em si mesma, mas porque ela expõe aquilo que em nós nunca foi suficientemente reconhecido, integrado ou simbolizado. A ciência psicológica tem sido consistente em mostrar que o medo da intimidade não é um medo do outro em si, mas um medo do que emerge em nós quando o outro se torna real (Mikulincer & Shaver, 2016; Johnson, 2019). E o que emerge pode ser avassalador: necessidade, dependência, vulnerabilidade, desejo de proximidade, medo de perda, vergonha de precisar.
Uma relação real implica, antes de tudo, reconhecimento. Reconhecimento não como validação superficial, mas como a experiência profunda de ser visto como sujeito — alguém com uma mente própria, sentimentos próprios e impacto no outro (Benjamin, 2004). Isto implica uma condição exigente: para reconhecer o outro, é necessário tolerar que ele é separado de nós. E é precisamente aqui que muitos medos se organizam. Porque a separação implica risco: o outro pode não responder, pode falhar, pode afastar-se. Assim, o medo da relação real é frequentemente um medo da assimetria inevitável entre o que precisamos e o que o outro pode dar.
Mas a relação real não é apenas reconhecimento; é também dependência. E a dependência continua a ser uma das dimensões mais mal compreendidas e mais defensivamente evitadas na vida adulta. Do ponto de vista do desenvolvimento, a dependência não é regressiva em si — é uma condição estrutural do humano (Bowlby, 1988; Winnicott, 1965). O problema não é depender; é depender sem garantias. É depender sabendo que o outro é livre, limitado e imperfeito. É aqui que a experiência pode tornar-se insuportável para muitos: depender de alguém que não podemos controlar ativa memórias implícitas de falhas precoces de cuidado, onde a necessidade não foi suficientemente acolhida ou foi vivida como perigosa, humilhante ou inútil (Schore, 2012; van der Kolk, 2014).
É neste ponto que entra a dissociação como organizador do medo. A dissociação, entendida como a capacidade de separar partes da experiência que não puderam ser integradas, permite que a pessoa funcione evitando o contacto com necessidades profundas ou com a dor associada a relações passadas (Liotti, 2004). Assim, pode existir um funcionamento aparentemente autónomo, até competente, mas que colapsa ou se desorganiza quando uma relação se torna real — quando há proximidade suficiente para ativar o sistema de vínculo e, com ele, as memórias não simbolizadas de relação. O medo da relação real é, muitas vezes, o medo de perder esta organização defensiva e entrar num território interno desconhecido, onde a intensidade emocional não foi ainda suficientemente metabolizada.
Uma relação real implica também conflito. Não há relação real sem rutura. A ideia de que uma relação segura é uma relação sem tensão é uma ilusão. Pelo contrário, a segurança constrói-se na capacidade de reconhecer a rutura e trabalhar na reparação (Safran & Muran, 2000). Mas para que isso aconteça, é necessário tolerar a experiência de frustração sem a transformar imediatamente em abandono, ataque ou retraimento. E isto depende profundamente da história relacional de cada pessoa. Quando a rutura foi, no passado, equivalente a perda ou desintegração, qualquer sinal de desalinhamento pode ser vivido como ameaça extrema.
Outro elemento central da relação real é a mutualidade — não no sentido de simetria absoluta, mas na possibilidade de ambos existirem como sujeitos que influenciam e são influenciados (Mitchell, 2000). Isto implica abandonar posições defensivas de controlo absoluto (onde um se protege não se envolvendo verdadeiramente) ou de submissão total (onde um abdica de si para manter o vínculo). A mutualidade exige algo mais difícil: permanecer em relação sem desaparecer nem dominar.
Então, porque é que tudo isto assusta tanto? Porque uma relação real não permite esconder-se atrás de versões idealizadas de si próprio nem do outro. Ela expõe limites, falhas, necessidades, desejos contraditórios. Ela obriga a confrontar uma verdade essencial: precisamos uns dos outros, mas não temos garantias absolutas. E esta verdade é, ao mesmo tempo, fonte de angústia e de possibilidade transformadora.
A transformação ocorre quando aquilo que antes era vivido como intolerável passa a ser experienciado dentro de uma relação suficientemente segura. Quando a necessidade deixa de ser vergonha e passa a ser linguagem. Quando o medo deixa de ser evitado e passa a ser partilhado. Quando a dependência deixa de ser vivida como perda de si e passa a ser integrada como uma dimensão do encontro. Este processo implica simbolização — a capacidade de transformar experiências emocionais em algo pensável e comunicável (Fonagy et al., 2002). E essa capacidade não se desenvolve isoladamente; emerge na relação.
Assim, curar o medo da relação real não significa eliminar o medo. Significa poder senti-lo sem que ele organize toda a experiência. Significa poder entrar numa relação sabendo que haverá momentos de dúvida, de dor, de desencontro — e ainda assim permanecer. Significa aceitar que a intimidade não é um estado estático de harmonia, mas um processo contínuo de aproximação, rutura e reencontro.
No fundo, uma relação real é um lugar onde duas pessoas aceitam existir uma para a outra sem garantias absolutas, mas com disponibilidade suficiente para continuar a tentar. E é precisamente essa ausência de garantias que a torna tão assustadora — e tão profundamente humana.
Referências (APA 7ª edição)
Benjamin, J. (2004). Beyond doer and done to: An intersubjective view of thirdness. The Psychoanalytic Quarterly, 73(1), 5–46.
Bowlby, J. (1988). A secure base: Parent-child attachment and healthy human development. Basic Books.
Fonagy, P., Gergely, G., Jurist, E. L., & Target, M. (2002). Affect regulation, mentalization, and the development of the self. Other Press.
Johnson, S. M. (2019). Attachment theory in practice: Emotionally focused therapy (EFT) with individuals, couples, and families. Guilford Press.
Liotti, G. (2004). Trauma, dissociation, and disorganized attachment. Psychiatric Annals, 34(6), 472–479.
Mikulincer, M., & Shaver, P. R. (2016). Attachment in adulthood: Structure, dynamics, and change (2nd ed.). Guilford Press.
Mitchell, S. A. (2000). Relationality: From attachment to intersubjectivity. Analytic Press.
Safran, J. D., & Muran, J. C. (2000). Negotiating the therapeutic alliance: A relational treatment guide. Guilford Press.
Schore, A. N. (2012). The science of the art of psychotherapy. Norton.
van der Kolk, B. (2014). The body keeps the score. Viking.