{"id":66094,"date":"2026-03-16T15:12:16","date_gmt":"2026-03-16T15:12:16","guid":{"rendered":"https:\/\/nunotomazsantos-psicoterapia.pt\/?p=66094"},"modified":"2026-03-16T15:12:18","modified_gmt":"2026-03-16T15:12:18","slug":"dificuldade-em-ter-orgasmo-o-que-o-trauma-a-vergonha-a-dissociacao-e-o-medo-de-se-entregar-podem-fazer-a-sexualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nunotomazsantos-psicoterapia.pt\/?p=66094","title":{"rendered":"Dificuldade em Ter Orgasmo: o que o trauma, a vergonha, a dissocia\u00e7\u00e3o e o medo de se entregar podem fazer \u00e0 sexualidade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensar o orgasmo apenas como descarga fisiol\u00f3gica \u00e9 insuficiente. Do ponto de vista cient\u00edfico e cl\u00ednico, a resposta sexual humana \u00e9 um processo biopsicossocial no qual o corpo, a emo\u00e7\u00e3o, a hist\u00f3ria relacional, os significados atribu\u00eddos ao desejo e o contexto interpessoal convergem de forma din\u00e2mica. A sexologia cl\u00e1ssica descreveu o orgasmo como o ponto culminante da resposta sexual, mas os modelos contempor\u00e2neos sublinham que a sua emerg\u00eancia depende do equil\u00edbrio entre sistemas de excita\u00e7\u00e3o e de inibi\u00e7\u00e3o sexual, e n\u00e3o apenas da presen\u00e7a de est\u00edmulo corporal (Bancroft et al., 2009; Masters &amp; Johnson, 1966). Em termos mais rigorosos, o orgasmo pode ser entendido como um evento psicofisiol\u00f3gico de elevada intensidade que exige, ao mesmo tempo, ativa\u00e7\u00e3o er\u00f3tica suficiente (isto \u00e9, um n\u00edvel de excita\u00e7\u00e3o sexual corporal e subjetiva suficientemente intenso e cont\u00ednuo para sustentar a progress\u00e3o do encontro sexual para al\u00e9m de uma rea\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica inicial), redu\u00e7\u00e3o relativa do controlo cognitivo e sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a suficiente para que o self (isto \u00e9, o sentido de si, a experi\u00eancia subjetiva de identidade, continuidade interna e coes\u00e3o psicol\u00f3gica) tolere a entrega que o prazer implica (isto \u00e9, que a pessoa sinta que pode relaxar parcialmente a vigil\u00e2ncia, deixar-se afetar, aproximar-se do cl\u00edmax e permanecer psicologicamente \u00edntegra, sem antecipar invas\u00e3o, humilha\u00e7\u00e3o, abandono ou desorganiza\u00e7\u00e3o emocional excessiva). Por isso, uma sexualidade saud\u00e1vel n\u00e3o se reduz \u00e0 aus\u00eancia de disfun\u00e7\u00e3o, mas sup\u00f5e a possibilidade de experi\u00eancias prazerosas e seguras, livres de coer\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia e humilha\u00e7\u00e3o. Ainda assim, este ponto precisa de ser clarificado: em sexologia e sa\u00fade sexual, \u201clivres de coer\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia e humilha\u00e7\u00e3o\u201d refere-se \u00e0 aus\u00eancia de imposi\u00e7\u00e3o, amea\u00e7a, abuso, degrada\u00e7\u00e3o n\u00e3o consentida ou sofrimento imposto contra a vontade da pessoa; isto n\u00e3o exclui que, entre adultos capazes e em contexto de consentimento expl\u00edcito, informado, negociado e revers\u00edvel, algumas pessoas escolham pr\u00e1ticas er\u00f3ticas que envolvem dor, assimetria de poder ou humilha\u00e7\u00e3o er\u00f3tica consensual. Nesses casos, o crit\u00e9rio cl\u00ednico central n\u00e3o \u00e9 a apar\u00eancia externa da pr\u00e1tica, mas a presen\u00e7a real de consentimento, ag\u00eancia, seguran\u00e7a, negocia\u00e7\u00e3o e possibilidade de interrup\u00e7\u00e3o sem puni\u00e7\u00e3o (Bancroft et al., 2009; World Health Organization [WHO], n.d.).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma forma simples de sintetizar esta ideia central \u00e9 a seguinte: <strong>o orgasmo ocorre quando tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es convergem simultaneamente \u2014 excita\u00e7\u00e3o corporal suficiente, seguran\u00e7a emocional suficiente e redu\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria do controlo mental. <\/strong>Quando uma destas dimens\u00f5es falha, o processo pode interromper-se. Assim, uma pessoa pode sentir excita\u00e7\u00e3o f\u00edsica e, ainda assim, n\u00e3o conseguir atingir o orgasmo se o seu sistema emocional estiver em alerta ou se a experi\u00eancia estiver carregada de significados amea\u00e7adores (por exemplo: \u201cposso perder o controlo\u201d, \u201cvou ficar demasiado vulner\u00e1vel\u201d, \u201cvou ser julgado\u201d, \u201cisto pode significar depend\u00eancia\u201d, \u201cdepois posso ser abandonado\u201d, \u201cse eu me soltar demasiado algo mau pode acontecer\u201d). Esta clarifica\u00e7\u00e3o \u00e9 importante porque <strong>muitas pessoas interpretam a dificuldade org\u00e1stica como aus\u00eancia de desejo ou falha f\u00edsica, quando na realidade pode tratar-se de um fen\u00f3meno relacional e emocional muito mais complexo <\/strong>(Bancroft et al., 2009).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 precisamente aqui que a no\u00e7\u00e3o de entrega se torna central. Entregar-se, no contexto sexual, n\u00e3o significa submiss\u00e3o passiva (isto \u00e9, n\u00e3o significa anular a pr\u00f3pria vontade, abdicar do consentimento, obedecer sem ag\u00eancia subjetiva ou ficar numa posi\u00e7\u00e3o de mera passividade imposta) nem perda patol\u00f3gica do self (isto \u00e9, n\u00e3o significa colapso identit\u00e1rio, fragmenta\u00e7\u00e3o grave, despersonaliza\u00e7\u00e3o maci\u00e7a ou desaparecimento do sentido de si); significa permitir que a experi\u00eancia deixe de ser governada sobretudo pela vigil\u00e2ncia e passe a ser sustentada por uma confian\u00e7a suficiente no corpo, no outro e na continuidade do pr\u00f3prio self (isto \u00e9, na capacidade de continuar a sentir-se o mesmo sujeito ao longo da experi\u00eancia, sem vivenciar o prazer, a intensidade ou a vulnerabilidade como amea\u00e7a de desorganiza\u00e7\u00e3o interna). <strong>O orgasmo exige esta ced\u00eancia tempor\u00e1ria: durante alguns instantes, o sujeito j\u00e1 n\u00e3o se regula apenas pelo pensamento, pela observa\u00e7\u00e3o de si ou pelo controlo volunt\u00e1rio, mas por uma organiza\u00e7\u00e3o mais sensorial, mais afetiva e mais impl\u00edcita.<\/strong> Isto significa, em concreto, que <strong>a experi\u00eancia passa a ser guiada menos pela monitoriza\u00e7\u00e3o consciente e mais por processos corporais, emocionais e relacionais autom\u00e1ticos que permitem ao prazer ganhar continuidade, profundidade e culmina\u00e7\u00e3o<\/strong> (Bancroft et al., 2009).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para clarificar ainda mais, podemos dizer que <strong>entrega significa tr\u00eas coisas ao mesmo tempo: permitir que o corpo conduza a experi\u00eancia, aceitar a vulnerabilidade inerente ao prazer <\/strong>(isto \u00e9, o facto de o prazer intenso expor a pessoa \u00e0 possibilidade de sentir muito, precisar mais, perder algum controlo, baixar defesas e tornar-se mais afet\u00e1vel) <strong>e confiar que essa vulnerabilidade n\u00e3o conduzir\u00e1 a destrui\u00e7\u00e3o ps\u00edquica<\/strong> (isto \u00e9, a uma viv\u00eancia interna de colapso, aniquila\u00e7\u00e3o, fragmenta\u00e7\u00e3o, vergonha intoler\u00e1vel ou desorganiza\u00e7\u00e3o emocional sentida como imposs\u00edvel de suportar). <strong>A dificuldade de orgasmo pode, assim, ser menos bem compreendida como \u201cincapacidade de prazer\u201d do que como \u201cdificuldade em atravessar o limiar da entrega sem ativa\u00e7\u00e3o excessiva dos sistemas de defesa\u201d.<\/strong> O modelo dual do controlo sexual ajuda a compreender isto com precis\u00e3o: <strong>quando os sistemas inibit\u00f3rios ficam demasiado ativados \u2014 por medo de desempenho, receio das consequ\u00eancias, amea\u00e7a relacional, vergonha ou conflito interno \u2014 a excita\u00e7\u00e3o pode estar presente, mas n\u00e3o atingir a continuidade necess\u00e1ria para culminar em orgasmo <\/strong>(Bancroft et al., 2009).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A palavra amea\u00e7a, neste enquadramento, deve ser entendida em sentido amplo e n\u00e3o apenas como medo de agress\u00e3o f\u00edsica. No contexto sexual, um estado de amea\u00e7a pode corresponder a qualquer condi\u00e7\u00e3o interna em que o sistema nervoso interpreta a situa\u00e7\u00e3o como parcialmente perigosa: risco de invas\u00e3o, humilha\u00e7\u00e3o, perda de controlo, abandono posterior, colapso emocional, exposi\u00e7\u00e3o excessiva ou repeti\u00e7\u00e3o de uma experi\u00eancia dolorosa. <strong>Em termos simples, amea\u00e7a significa que o corpo n\u00e3o se sente suficientemente seguro para abandonar o controlo. Uma pessoa pode ter ere\u00e7\u00e3o, lubrifica\u00e7\u00e3o, acelera\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica ou excita\u00e7\u00e3o genital e, ainda assim, manter-se em amea\u00e7a; o corpo responde, mas responde enquanto se defende.<\/strong> Clinicamente, isto pode manifestar-se como tens\u00e3o muscular persistente, necessidade de monitorizar continuamente o outro, dificuldade em respirar livremente, sensa\u00e7\u00e3o de \u201ctenho de conseguir\u201d, trav\u00e3o s\u00fabito quando o prazer cresce, quebra abrupta da excita\u00e7\u00e3o ou incapacidade de atravessar o limiar do orgasmo apesar de estimula\u00e7\u00e3o suficiente. A literatura mostra que o trauma p\u00f3s-stress est\u00e1 associado a v\u00e1rias dificuldades sexuais, incluindo diminui\u00e7\u00e3o do desejo, pior funcionamento sexual global, maior sofrimento sexual e, em muitos casos, dificuldades ao n\u00edvel do orgasmo, especialmente quando predominam evitamento, altera\u00e7\u00f5es negativas do humor e hipervigil\u00e2ncia (Bird et al., 2021).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A vergonha \u00e9 outro processo decisivo e frequentemente subestimado. Ao contr\u00e1rio da culpa, que se refere ao que se fez, a vergonha refere-se ao que se \u00e9 ou ao modo como o self se sente exposto diante do olhar do outro.<strong> Na sexualidade, a vergonha pode organizar-se em torno do corpo, do desejo, da orienta\u00e7\u00e3o sexual, das fantasias, da intensidade da excita\u00e7\u00e3o, da necessidade de contacto ou da simples experi\u00eancia de precisar muito.<\/strong> Podemos compreender a vergonha sexual atrav\u00e9s de uma formula\u00e7\u00e3o simples: <strong>\u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de que o pr\u00f3prio desejo pode comprometer a dignidade do self <\/strong>(isto \u00e9, pode fazer a pessoa sentir-se diminu\u00edda, indigna, rid\u00edcula, excessiva, moralmente manchada ou menos merecedora de respeito e valor, aos seus pr\u00f3prios olhos ou aos olhos do outro). Por isso, <strong>n\u00e3o bloqueia apenas o comportamento; bloqueia a expans\u00e3o do self<\/strong> (isto \u00e9, restringe a capacidade de a pessoa habitar plenamente o seu desejo, o seu corpo, a sua espontaneidade e a sua presen\u00e7a subjetiva, impedindo-a de sentir-se livre para querer, sentir e existir eroticamente na rela\u00e7\u00e3o). <strong>O orgasmo torna-se ent\u00e3o amea\u00e7ador n\u00e3o por ser prazeroso, mas por ser revelador: ele exp\u00f5e quanto o corpo foi afetado, quanto o sujeito desejou, quanto precisou de se soltar e, por vezes, quanto precisaria que o outro permanecesse depois <\/strong>(Dorahy et al., 2013).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Em pessoas com trauma complexo<\/strong> (isto \u00e9, formas de traumatiza\u00e7\u00e3o prolongada, repetida e frequentemente interpessoal, associadas a contextos de depend\u00eancia, vulnerabilidade, invas\u00e3o, imprevisibilidade ou aus\u00eancia de prote\u00e7\u00e3o suficiente), <strong>vergonha e dissocia\u00e7\u00e3o aparecem associadas a maior dificuldade nas rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas e maior medo relacional, sugerindo que aquilo que se trava no sexo n\u00e3o \u00e9 apenas a fun\u00e7\u00e3o sexual, mas a pr\u00f3pria possibilidade de permanecer emocionalmente inteiro no encontro<\/strong> (Dorahy et al., 2013). Dizer que fica comprometida \u201ca possibilidade de permanecer emocionalmente inteiro no encontro\u201d significa que a dificuldade central pode n\u00e3o ser apenas ter ou n\u00e3o ter orgasmo, mas <strong>conseguir manter simultaneamente presen\u00e7a, desejo, liga\u00e7\u00e3o ao outro, continuidade interna e regula\u00e7\u00e3o emocional sem colapsar em medo, vergonha, afastamento interno ou fragmenta\u00e7\u00e3o subjetiva<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dissocia\u00e7\u00e3o, por sua vez, \u00e9 muitas vezes mal compreendida porque se tende a reserv\u00e1-la para quadros extremos. Contudo, em psicologia, dissocia\u00e7\u00e3o designa uma separa\u00e7\u00e3o ou desintegra\u00e7\u00e3o parcial entre consci\u00eancia, emo\u00e7\u00e3o, perce\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria, identidade e experi\u00eancia som\u00e1tica; pode ser subtil e ainda assim clinicamente muito relevante. Em termos pr\u00e1ticos, <strong>a dissocia\u00e7\u00e3o sexual pode ser descrita como uma perda parcial de presen\u00e7a na experi\u00eancia. A pessoa pode continuar a participar no ato sexual, mas sentir-se distante, menos conectada ao corpo ou excessivamente focada no pensamento.<\/strong> No sexo, a dissocia\u00e7\u00e3o pode surgir como afastamento de si, sensa\u00e7\u00e3o de estar a assistir em vez de viver, redu\u00e7\u00e3o da nitidez corporal, atividade mental excessiva, perda s\u00fabita de continuidade do prazer ou sensa\u00e7\u00e3o de que o corpo est\u00e1 presente mas o sujeito n\u00e3o est\u00e1 totalmente ali. <strong>Esta fragmenta\u00e7\u00e3o protetora pode permitir que a atividade sexual continue, mas impede que a experi\u00eancia seja integrada o suficiente para se transformar em orgasmo pleno. A dissocia\u00e7\u00e3o cumpre, assim, uma fun\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia: quando a intensidade er\u00f3tica se aproxima de mem\u00f3rias impl\u00edcitas de invas\u00e3o, vergonha, depend\u00eancia ou dor, o psiquismo \u201csai um pouco\u201d para n\u00e3o ter de sentir tudo de uma vez <\/strong>(American Psychological Association, 2018; Dorahy et al., 2013).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\"><strong>Um ponto especialmente importante \u00e9 que amea\u00e7a, vergonha e dissocia\u00e7\u00e3o raramente atuam isoladamente. Na pr\u00e1tica cl\u00ednica, formam frequentemente uma sequ\u00eancia. A excita\u00e7\u00e3o aumenta; a pessoa percebe que o encontro est\u00e1 a tornar-se importante; essa import\u00e2ncia ativa vulnerabilidade; a vulnerabilidade convoca vergonha ou medo de depend\u00eancia; a vergonha e o medo ativam amea\u00e7a; a amea\u00e7a, se ultrapassa a toler\u00e2ncia do sistema, desencadeia dissocia\u00e7\u00e3o ou retra\u00e7\u00e3o som\u00e1tica; e o orgasmo falha.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">excita\u00e7\u00e3o \u2192 vulnerabilidade \u2192 vergonha ou medo \u2192 amea\u00e7a \u2192 dissocia\u00e7\u00e3o ou trav\u00e3o \u2192 dificuldade de orgasmo<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O bloqueio org\u00e1stico n\u00e3o \u00e9, nesta perspetiva, uma falha de vontade nem um defeito do corpo, mas um produto final de uma cadeia defensiva altamente coerente. Dizer isto de forma mais concreta \u00e9 afirmar que o corpo n\u00e3o est\u00e1 simplesmente \u201ca falhar\u201d; est\u00e1 a aplicar uma solu\u00e7\u00e3o protetora aprendida, organizada para evitar uma viv\u00eancia que o sistema nervoso ou o psiquismo antecipam como demasiado perigosa, humilhante, invasiva ou desorganizadora, mesmo quando essa solu\u00e7\u00e3o j\u00e1 tem custos significativos para o prazer, a liberdade sexual e a intimidade (Bancroft et al., 2009; Bird et al., 2021).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A teoria da vincula\u00e7\u00e3o acrescenta outra camada indispens\u00e1vel.<strong> A sexualidade adulta n\u00e3o \u00e9 apenas um comportamento corporal; \u00e9 tamb\u00e9m um lugar onde se reencontram expectativas sobre proximidade, abandono, disponibilidade do outro e legitimidade da depend\u00eancia.<\/strong> A revis\u00e3o de Stefanou e McCabe (2012) mostrou que n\u00edveis mais elevados de vincula\u00e7\u00e3o ansiosa e evitante se associam a rela\u00e7\u00f5es sexuais menos satisfat\u00f3rias e a maior disfun\u00e7\u00e3o sexual. Esta liga\u00e7\u00e3o entre vincula\u00e7\u00e3o e sexualidade pode ser resumida numa ideia fundamental: quanto mais o sexo toca necessidades profundas de reconhecimento e perten\u00e7a, mais o sistema emocional se torna sens\u00edvel a poss\u00edveis amea\u00e7as. <strong>O orgasmo pode tornar-se dif\u00edcil n\u00e3o porque n\u00e3o exista excita\u00e7\u00e3o, mas porque o cl\u00edmax se torna simbolicamente equivalente a dizer, com o corpo inteiro<\/strong>: \u201cisto importa-me muito\u201d, \u201ceu estou realmente aqui\u201d, \u201ceu preciso que isto n\u00e3o me destrua\u201d, \u201ceu preciso que o outro n\u00e3o desapare\u00e7a depois\u201d. <strong>Quando a hist\u00f3ria relacional ensinou que a exposi\u00e7\u00e3o profunda do self<\/strong> (isto \u00e9, a revela\u00e7\u00e3o de partes muito vulner\u00e1veis, necessitadas, desejantes, envergonhadas ou intensamente afet\u00e1veis do mundo interno) <strong>termina em dor, a inibi\u00e7\u00e3o sexual deixa de ser um obst\u00e1culo arbitr\u00e1rio e passa a ser uma tentativa de evitar uma nova queda no desamparo <\/strong>(Stefanou &amp; McCabe, 2012).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Deste modo, a pergunta cl\u00ednica mais fecunda n\u00e3o \u00e9 simplesmente \u201cporque \u00e9 que a pessoa n\u00e3o consegue ter orgasmo?\u201d, mas antes \u201co que \u00e9 que o orgasmo passou a significar no psiquismo desta pessoa?\u201d. Em muitos casos, ele deixa de significar apenas prazer e passa a significar perda de controlo, risco de humilha\u00e7\u00e3o, prova de depend\u00eancia, exposi\u00e7\u00e3o do desejo, reativa\u00e7\u00e3o de trauma, confirma\u00e7\u00e3o de que se quer demasiado ou temor de ser novamente deixado depois de se abrir. Isto \u00e9 particularmente vis\u00edvel quando a sexualidade foi atravessada por experi\u00eancias traum\u00e1ticas ou por rela\u00e7\u00f5es em que a vulnerabilidade profunda foi seguida de dor, retra\u00e7\u00e3o, cr\u00edtica ou falha de reconhecimento. <strong>Nestes contextos, a dificuldade org\u00e1stica pode ser compreendida como mem\u00f3ria incorporada no corpo. O corpo n\u00e3o impede o prazer por capricho; impede-o porque aprendeu que a entrega total pode conduzir a experi\u00eancias ps\u00edquicas intoler\u00e1veis<\/strong> (Bird et al., 2021; Dorahy et al., 2013).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cura, por isso, n\u00e3o passa por \u201cfor\u00e7ar o orgasmo\u201d nem por interpretar a dificuldade como simples resist\u00eancia. Passa por um trabalho de simboliza\u00e7\u00e3o, integra\u00e7\u00e3o e reaprendizagem corporal. Simbolizar significa transformar o que hoje surge apenas como trav\u00e3o som\u00e1tico, n\u00e1usea, quebra de excita\u00e7\u00e3o, vazio ou afastamento em linguagem ps\u00edquica compreens\u00edvel: \u201co meu corpo teme que a entrega repita a invas\u00e3o\u201d; \u201co meu prazer toca numa vergonha antiga\u201d; \u201cquando sinto demais, uma parte de mim sai para me salvar\u201d; \u201cprecisar do outro continua associado a humilha\u00e7\u00e3o ou abandono\u201d. Ao mesmo tempo, \u00e9 necess\u00e1rio construir experi\u00eancias er\u00f3ticas e relacionais em que a seguran\u00e7a n\u00e3o seja apenas compreendida intelectualmente, mas vivida corporalmente: prazer sem press\u00e3o de desempenho, contacto sem obriga\u00e7\u00e3o de culminar, possibilidade de parar sem culpa, autoriza\u00e7\u00e3o interna para desejar sem vergonha e experi\u00eancias em que o sujeito possa permanecer presente ao aumento da intensidade sem precisar de fragmentar-se. Esta formula\u00e7\u00e3o \u00e9 coerente com uma compreens\u00e3o contempor\u00e2nea da sa\u00fade sexual como integra\u00e7\u00e3o entre bem-estar, consentimento, seguran\u00e7a e possibilidade de viver a sexualidade sem viol\u00eancia, coer\u00e7\u00e3o ou sofrimento desnecess\u00e1rio (WHO, n.d.).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em s\u00edntese, o orgasmo n\u00e3o deve ser pensado como um reflexo simples, mas como um acontecimento relacional do corpo: ele emerge quando a excita\u00e7\u00e3o corporal, a seguran\u00e7a emocional e a diminui\u00e7\u00e3o relativa do controlo mental conseguem convergir sem que amea\u00e7a, vergonha ou dissocia\u00e7\u00e3o tomem o comando. Quando essa converg\u00eancia falha repetidamente, n\u00e3o estamos necessariamente perante aus\u00eancia de desejo ou incapacidade de prazer, mas diante de um sistema ps\u00edquico que aprendeu a tratar a entrega como potencialmente perigosa. Nessa medida, a dificuldade org\u00e1stica pode ser vista menos como falha e mais como mem\u00f3ria incorporada. E a tarefa terap\u00eautica consiste em ajudar o sujeito a descobrir que o prazer n\u00e3o precisa de significar invas\u00e3o, que a vulnerabilidade n\u00e3o precisa de terminar em humilha\u00e7\u00e3o, que a depend\u00eancia transit\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de aniquila\u00e7\u00e3o e que o corpo pode aprender a viver a intensidade como experi\u00eancia habit\u00e1vel em vez de amea\u00e7a (Bancroft et al., 2009; WHO, n.d.).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">American Psychological Association. (2018). <em>Dissociation<\/em>. In <strong>APA Dictionary of Psychology<\/strong>. American Psychological Association. <a href=\"https:\/\/dictionary.apa.org\/dissociation?utm_source=chatgpt.com\">https:\/\/dictionary.apa.org\/dissociation<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bancroft, J., Graham, C. A., Janssen, E., &amp; Sanders, S. A. (2009). The dual control model: Current status and future directions. <em>The Journal of Sex Research, 46<\/em>(2\u20133), 121\u2013142. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/00224490902747222?utm_source=chatgpt.com\">https:\/\/doi.org\/10.1080\/00224490902747222<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bird, E. R., Piccirillo, M., Garcia, N., Blais, R., &amp; Campbell, S. (2021). Relationship between posttraumatic stress disorder and sexual difficulties: A systematic review of veterans and military personnel. <em>The Journal of Sexual Medicine, 18<\/em>(8), 1398\u20131426. <a>https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.jsxm.2021.05.011<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dorahy, M. J., Corry, M., Shannon, M., Webb, K., McDermott, B., Ryan, M., &amp; Dyer, K. F. W. (2013). Complex trauma and intimate relationships: The impact of shame, guilt and dissociation. <em>Journal of Affective Disorders, 147<\/em>(1\u20133), 72\u201379. <a>https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.jad.2012.10.010<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Masters, W. H., &amp; Johnson, V. E. (1966). <em>Human sexual response<\/em>. Little, Brown.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Stefanou, C., &amp; McCabe, M. P. (2012). Adult attachment and sexual functioning: A review of past research. <em>The Journal of Sexual Medicine, 9<\/em>(10), 2499\u20132507. <a>https:\/\/doi.org\/10.1111\/j.1743-6109.2012.02843.x<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">World Health Organization. (n.d.). <em>Sexual health<\/em>. World Health Organization. <a href=\"https:\/\/www.who.int\/health-topics\/sexual-health?utm_source=chatgpt.com\">https:\/\/www.who.int\/health-topics\/sexual-health<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pensar o orgasmo apenas como descarga fisiol\u00f3gica \u00e9 insuficiente. 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