{"id":65840,"date":"2025-10-20T11:48:33","date_gmt":"2025-10-20T11:48:33","guid":{"rendered":"https:\/\/nunotomazsantos-psicoterapia.pt\/?page_id=65840"},"modified":"2025-10-20T11:48:34","modified_gmt":"2025-10-20T11:48:34","slug":"trauma-e-crescimento-pos-traumatico","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/nunotomazsantos-psicoterapia.pt\/?page_id=65840","title":{"rendered":"Trauma e Crescimento P\u00f3s-Traum\u00e1tico"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Quando o trauma fere \u2014 e quando come\u00e7a a transformar<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trauma \u00e9 uma experi\u00eancia que ultrapassa a capacidade do psiquismo de integrar e dar sentido ao vivido \u2014 isto \u00e9, uma quebra s\u00fabita na fun\u00e7\u00e3o de liga\u00e7\u00e3o entre emo\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria e representa\u00e7\u00e3o, que impede a experi\u00eancia de ser simbolizada e integrada na narrativa pessoal (Freud, 1920\/1955; van der Kolk, 2014; Schore, 2012).<br>N\u00e3o \u00e9 apenas o que aconteceu \u2014 \u00e9 o que ficou sem testemunha, o que o corpo reteve quando as palavras falharam, e o que se manteve fora do tempo ps\u00edquico, congelado em sensa\u00e7\u00f5es e imagens (Herman, 1992; van der Hart, Nijenhuis &amp; Steele, 2006).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cada trauma \u00e9 uma rutura na continuidade de ser: uma falha no espelhamento, na prote\u00e7\u00e3o e no reconhecimento emocional (Winnicott, 1971\/1978; Benjamin, 1998; Fonagy et al., 2002).<br>Quando a mente n\u00e3o encontra um outro que ajude a transformar o terror em pensamento, a dor em palavra ou o medo em rela\u00e7\u00e3o, instala-se uma fissura na coes\u00e3o do self.<br>O trauma, assim, n\u00e3o \u00e9 apenas um evento, mas uma falha na presen\u00e7a \u2014 a aus\u00eancia de um outro que pudesse conter, nomear e simbolizar (Ferenczi, 1933\/2010; Ogden, 1992).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pode surgir ap\u00f3s eventos s\u00fabitos (acidentes, perdas, viol\u00eancia) ou de forma repetida e relacional (neglig\u00eancia, abuso, rejei\u00e7\u00e3o), sendo que o trauma cumulativo e relacional \u2014 descrito por Terr (1991) e Herman (1992) \u2014 tem efeitos mais profundos e persistentes sobre a organiza\u00e7\u00e3o da identidade e da confian\u00e7a (Cloitre et al., 2019; Schore, 2012).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob o ponto de vista neurobiol\u00f3gico, o trauma altera a comunica\u00e7\u00e3o entre am\u00edgdala, hipocampo e c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal \u2014 estruturas que regulam a emo\u00e7\u00e3o, a mem\u00f3ria e o pensamento (Schore, 2012; Siegel, 2010).<br>O corpo entra em <strong>modo de sobreviv\u00eancia<\/strong> (isto \u00e9, ativa respostas autom\u00e1ticas de luta, fuga ou imobiliza\u00e7\u00e3o mediadas pelo sistema nervoso aut\u00f3nomo e pela am\u00edgdala, priorizando a defesa em detrimento da reflex\u00e3o; Porges, 2011).<br>A mente <strong>fragmenta-se<\/strong>, perdendo a integra\u00e7\u00e3o entre sistemas emocionais, cognitivos e som\u00e1ticos \u2014 uma forma de dissocia\u00e7\u00e3o que protege da sobrecarga, mas compromete a continuidade da experi\u00eancia (van der Hart et al., 2006; Bromberg, 1998).<br>E o <strong>tempo ps\u00edquico congela<\/strong>, ou seja, o evento deixa de pertencer ao passado e \u00e9 revivido como presente constante \u2014 uma caracter\u00edstica central do transtorno de stress p\u00f3s-traum\u00e1tico (DSM-5-TR, APA, 2023; van der Kolk, 2014).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A psicoterapia, ao oferecer um v\u00ednculo seguro e uma experi\u00eancia emocional corretiva, atua precisamente nesse ponto: reativa a plasticidade neuronal e reorganiza circuitos de regula\u00e7\u00e3o afetiva, permitindo que a experi\u00eancia traum\u00e1tica volte a ser narrada e integrada (Schore, 2012; Fonagy et al., 2002; Siegel, 2010).<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O trauma que se herda \u2014 e o que pode ser reparado<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As marcas do trauma podem atravessar gera\u00e7\u00f5es. Estudos de Yehuda et al. (2016) demonstram altera\u00e7\u00f5es epigen\u00e9ticas em descendentes de sobreviventes do Holocausto, associadas a mudan\u00e7as na regula\u00e7\u00e3o do eixo do stress (HPA), o que sugere que a mem\u00f3ria da dor pode inscrever-se n\u00e3o s\u00f3 na psique, mas tamb\u00e9m no corpo.<br>Mas a transmiss\u00e3o intergeracional n\u00e3o \u00e9 apenas biol\u00f3gica: tamb\u00e9m se faz pelo sil\u00eancio, pela vergonha e pelas narrativas familiares n\u00e3o ditas (Faimberg, 2005).<br>Como refere <strong>Galit Atlas (2022)<\/strong>, herdamos n\u00e3o apenas traumas, mas <strong>emo\u00e7\u00f5es n\u00e3o vividas<\/strong> \u2014 afetos que permaneceram congelados nas gera\u00e7\u00f5es anteriores e que procuram, atrav\u00e9s de n\u00f3s, ser sentidos, pensados e simbolizados. Essas <strong>\u201cheran\u00e7as emocionais\u201d<\/strong> revelam-se nos v\u00ednculos, nas escolhas amorosas e at\u00e9 nos sintomas que repetem o que n\u00e3o p\u00f4de ser reconhecido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A psicoterapia oferece um espa\u00e7o de escuta e simboliza\u00e7\u00e3o dessas heran\u00e7as, permitindo interromper ciclos de dor e transformar a repeti\u00e7\u00e3o em hist\u00f3ria.<br>Essa repara\u00e7\u00e3o ocorre quando o que estava mudo ganha voz \u2014 quando experi\u00eancias sem forma encontram palavras e rela\u00e7\u00e3o. O terapeuta, ao funcionar como testemunha emp\u00e1tica e continente simb\u00f3lico (Bion, 1962; Fonagy et al., 2002), ajuda o paciente a converter mem\u00f3rias impl\u00edcitas e corporais em narrativas conscientes, restaurando continuidade entre passado, presente e futuro (Stern, 1985; Schore, 2012).<br>Atrav\u00e9s da co-constru\u00e7\u00e3o relacional, a dor herdada deixa de ser destino e torna-se significado \u2014 uma passagem da compuls\u00e3o \u00e0 cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando o trauma n\u00e3o \u00e9 elaborado, tende a reaparecer em forma de <strong>dissocia\u00e7\u00e3o, somatiza\u00e7\u00e3o ou padr\u00f5es relacionais repetitivos<\/strong> (Bromberg, 1998; McDougall, 1995).<br>(Isto \u00e9, o sujeito pode viver como se partes de si estivessem \u201cdesligadas\u201d \u2014 fragmentos emocionais que n\u00e3o se comunicam entre si; o corpo pode expressar, atrav\u00e9s de sintomas f\u00edsicos, o que a mente n\u00e3o consegue simbolizar; e as rela\u00e7\u00f5es podem repetir inconscientemente o trauma original, numa tentativa de o dominar ou reparar.)<br>A dissocia\u00e7\u00e3o \u2014 frequentemente vista como falha \u2014 \u00e9, na verdade, uma <strong>forma de sobreviv\u00eancia ps\u00edquica<\/strong>, uma estrat\u00e9gia do self para preservar a continuidade perante o insuport\u00e1vel.<br>O trabalho cl\u00ednico procura criar pontes entre partes dissociadas, restaurando a integra\u00e7\u00e3o emocional e a capacidade de presen\u00e7a (Putnam, 1997; Fonagy et al., 2002; Benjamin, 1998).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-large-font-size\"><strong>Da sobreviv\u00eancia \u00e0 presen\u00e7a: o papel da rela\u00e7\u00e3o terap\u00eautica<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cura do trauma n\u00e3o acontece pela recorda\u00e7\u00e3o isolada, mas pela <strong>experi\u00eancia de ser visto, sentido e validado na rela\u00e7\u00e3o terap\u00eautica<\/strong> (Benjamin, 1998; Winnicott, 1971\/1978).<br>Isto significa ser reconhecido como sujeito de dor e de valor \u2014 algu\u00e9m cuja experi\u00eancia interna \u00e9 acolhida e confirmada na presen\u00e7a de um outro suficientemente emp\u00e1tico e dispon\u00edvel para sustentar o que antes foi vivido em solid\u00e3o (Bromberg, 1998; Stolorow, 2007).<br>Essa valida\u00e7\u00e3o emocional e relacional permite que o paciente volte a confiar na pr\u00f3pria perce\u00e7\u00e3o e recupere o direito de sentir sem medo de se desfazer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A <strong>psicoterapia relacional<\/strong> compreende que a transforma\u00e7\u00e3o ocorre na <strong>co-regula\u00e7\u00e3o<\/strong> entre paciente e terapeuta (isto \u00e9, um processo intersubjetivo em que ambos participam na regula\u00e7\u00e3o m\u00fatua das emo\u00e7\u00f5es, mantendo a assimetria \u00e9tica e o enquadramento profissional que garantem seguran\u00e7a e responsabilidade no v\u00ednculo) \u2014 um espa\u00e7o onde o medo se transforma em confian\u00e7a e o sil\u00eancio em palavra (Schore, 2012; Lyons-Ruth, 1999; Mitchell, 2000).<br>\u00c9 nessa presen\u00e7a rec\u00edproca e protegida que a experi\u00eancia emocional adquire novos significados e se reorganiza simbolicamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O corpo, antes amea\u00e7ado, come\u00e7a a ser vivido novamente como casa<\/strong>: um lugar onde \u00e9 poss\u00edvel habitar o sentir sem colapsar.<br>Isto acontece porque, no contexto de uma rela\u00e7\u00e3o terap\u00eautica segura, o corpo deixa de ser apenas o territ\u00f3rio da defesa ou da dor e torna-se meio de encontro \u2014 de perten\u00e7a a si e ao outro.<br>O gesto, o tom, a respira\u00e7\u00e3o e o olhar do terapeuta funcionam como novas formas de espelhamento que ajudam o paciente a reconectar-se com a sua pr\u00f3pria interioridade e a restaurar o sentimento de continuidade de ser (Winnicott, 1971\/1978; Stern, 1985; Ogden, Minton &amp; Pain, 2006).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A <strong>presen\u00e7a terap\u00eautica<\/strong>, neste enquadramento, \u00e9 uma interven\u00e7\u00e3o em si mesma: n\u00e3o neuropsicol\u00f3gica, mas <strong>afetivo-relacional<\/strong>.<br>Atrav\u00e9s da empatia, da compaix\u00e3o e da capacidade de sustentar o que \u00e9 insuport\u00e1vel, o terapeuta oferece um contexto de co-exist\u00eancia emocional onde o trauma pode ser simbolizado.<br>Estudos contempor\u00e2neos mostram que a empatia e a compaix\u00e3o reduzem os n\u00edveis de ativa\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica associados ao stress e promovem sentimentos de seguran\u00e7a e integra\u00e7\u00e3o (Gilbert, 2010; Germer &amp; Neff, 2019; Siegel, 2010).<br>Mas, mais do que um efeito biol\u00f3gico, trata-se de uma <strong>experi\u00eancia \u00e9tica e humana<\/strong>: o reencontro entre cuidado, presen\u00e7a e dignidade \u2014 onde sobreviver se transforma em viver.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Crescimento P\u00f3s-Traum\u00e1tico: o depois que transforma<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <strong>Crescimento P\u00f3s-Traum\u00e1tico (CPT)<\/strong> descreve o conjunto de <strong>mudan\u00e7as positivas<\/strong> que podem emergir ap\u00f3s o confronto com uma experi\u00eancia potencialmente traum\u00e1tica (Tedeschi &amp; Calhoun, 1995, 2004).<br>Mais do que uma nega\u00e7\u00e3o do sofrimento, o CPT \u00e9 um <strong>processo de reconstru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e emocional<\/strong>, em que o sujeito reconfigura a sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo interno e externo, integrando o vivido na continuidade da pr\u00f3pria hist\u00f3ria (Joseph &amp; Linley, 2006; Park, 2010).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As investiga\u00e7\u00f5es de Tedeschi, Calhoun e colaboradores (1995, 2018) identificam <strong>cinco dom\u00ednios fundamentais<\/strong> de mudan\u00e7a:<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Aprecia\u00e7\u00e3o da vida<\/strong> \u2014 uma nova valoriza\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia e do tempo presente, acompanhada de maior aceita\u00e7\u00e3o da vulnerabilidade humana;<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Novas possibilidades<\/strong> \u2014 o surgimento de interesses, prioridades e projetos que refletem novas formas de sentido;<\/li>\n\n\n\n<li><strong>For\u00e7a pessoal<\/strong> \u2014 a perce\u00e7\u00e3o de resili\u00eancia e autoconfian\u00e7a, em contraste com a viv\u00eancia de impot\u00eancia;<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Mudan\u00e7a espiritual ou existencial<\/strong> \u2014 uma revis\u00e3o de cren\u00e7as e valores, que amplia a compreens\u00e3o do significado da experi\u00eancia;<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Rela\u00e7\u00f5es interpessoais mais aut\u00eanticas<\/strong> \u2014 maior empatia, proximidade e capacidade de intimidade com os outros.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este processo nasce da <strong>necessidade de reorganizar cren\u00e7as centrais<\/strong> sobre si, os outros e o mundo (Janoff-Bulman, 1992, 2006).<br>Ap\u00f3s o impacto s\u00edsmico do trauma, o sujeito \u00e9 confrontado com a imprevisibilidade da vida e o colapso das estruturas de sentido. A <strong>rumina\u00e7\u00e3o deliberada<\/strong> \u2014 um pensar reflexivo e emocionalmente integrativo (Cann et al., 2010) \u2014, aliada ao <strong>apoio social e terap\u00eautico<\/strong>, favorece a constru\u00e7\u00e3o de novas narrativas, promovendo coer\u00eancia e esperan\u00e7a (Larsen &amp; Berenbaum, 2015; Zoellner &amp; Maercker, 2006).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A <strong>psicoterapia<\/strong> \u00e9 o espa\u00e7o onde esse movimento se torna poss\u00edvel.<br>Do ponto de vista <strong>psicanal\u00edtico-relacional<\/strong>, o crescimento n\u00e3o \u00e9 entendido como supera\u00e7\u00e3o racional, mas como <strong>transforma\u00e7\u00e3o da dor em presen\u00e7a<\/strong> \u2014 o reencontro com a capacidade de sentir e simbolizar (Benjamin, 1998; Winnicott, 1971\/1978).<br>O trauma, que antes fragmentava, encontra na rela\u00e7\u00e3o terap\u00eautica uma nova linguagem: o paciente \u00e9 acolhido na sua totalidade e o afeto, antes intoler\u00e1vel, torna-se represent\u00e1vel.<br>Ao oferecer uma experi\u00eancia de espelhamento e co-regula\u00e7\u00e3o, o terapeuta facilita a <strong>integra\u00e7\u00e3o das partes dissociadas do self<\/strong> (Fonagy et al., 2002; Bromberg, 2011), ajudando o sujeito a reencontrar continuidade e confian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do ponto de vista emp\u00edrico, o CPT tem sido associado a:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Maior regula\u00e7\u00e3o emocional e resili\u00eancia<\/strong> (Linley &amp; Joseph, 2004; Helgeson et al., 2006);<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Melhor sa\u00fade psicol\u00f3gica e f\u00edsica<\/strong>, incluindo menor sintomatologia depressiva e maior bem-estar subjetivo (Hefferon et al., 2009; Sawyer et al., 2010);<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Maior express\u00e3o emocional e capacidade de dar significado ao sofrimento<\/strong>, fatores mediadores do crescimento (Pennebaker, 1999; Tedeschi et al., 2018).<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O crescimento p\u00f3s-traum\u00e1tico n\u00e3o significa esquecer o trauma, mas <strong>transform\u00e1-lo em fonte de sentido e reconex\u00e3o<\/strong>.<br>\u00c9 um movimento que liga passado, presente e futuro \u2014 em que o sujeito deixa de ser apenas sobrevivente e se torna <strong>autor da pr\u00f3pria narrativa<\/strong>.<br>Como sintetiza Tedeschi (2023), <em>\u201ccrescer n\u00e3o \u00e9 apagar a ferida, mas aprender a escut\u00e1-la at\u00e9 que se torne hist\u00f3ria.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quando procurar ajuda<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Procura acompanhamento psicol\u00f3gico especializado quando:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Revives repetidamente o evento traum\u00e1tico \u2014 atrav\u00e9s de mem\u00f3rias intrusivas, sonhos ou evitamento de situa\u00e7\u00f5es associadas;<\/li>\n\n\n\n<li>Sentes o corpo em <strong>alerta constante<\/strong> (hipervigil\u00e2ncia, sobressalto) ou, pelo contr\u00e1rio, <strong>desligado da realidade<\/strong> (entorpecimento, despersonaliza\u00e7\u00e3o, dissocia\u00e7\u00e3o);<\/li>\n\n\n\n<li>Vives com <strong>culpa, vergonha ou medo<\/strong> que parecem n\u00e3o ter explica\u00e7\u00e3o;<\/li>\n\n\n\n<li>As <strong>rela\u00e7\u00f5es se tornam dif\u00edceis<\/strong>, marcadas por desconfian\u00e7a, medo ou retraimento;<\/li>\n\n\n\n<li>Sentes que <strong>a vida perdeu sentido, energia ou continuidade<\/strong> \u2014 como se estivesses suspenso entre o passado e o presente.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trauma <strong>n\u00e3o \u00e9 o fim da hist\u00f3ria<\/strong>, mas um ponto de interrup\u00e7\u00e3o onde a mente tenta proteger-se do insuport\u00e1vel (van der Kolk, 2014; Herman, 1992).<br>Com tempo, v\u00ednculo e escuta, \u00e9 poss\u00edvel restaurar a confian\u00e7a no corpo e na rela\u00e7\u00e3o \u2014 transformando o sofrimento em compreens\u00e3o, e a ferida em caminho de reencontro com a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">American Psychiatric Association. (2023). <em>Diagnostic and statistical manual of mental disorders<\/em> (5th ed., text rev.).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atlas, G. (2022). <em>Emotional inheritance: A therapist, her patients, and the legacy of trauma.<\/em> Little, Brown Spark.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Benjamin, J. (1998). <em>Shadow of the other: Intersubjectivity and gender in psychoanalysis.<\/em> Routledge.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bromberg, P. M. (1998). <em>Standing in the spaces: Essays on clinical process, trauma, and dissociation.<\/em> Analytic Press.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cann, A., Calhoun, L. G., Tedeschi, R. G., &amp; Solomon, D. T. (2010). Posttraumatic growth and rumination: Deliberate rumination mediates the relationship between intrusive rumination and growth. <em>Anxiety, Stress, &amp; Coping, 23<\/em>(2), 203\u2013215.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cloitre, M., Garvert, D. W., Brewin, C. R., Bryant, R. A., &amp; Maercker, A. (2019). Evidence for proposed ICD-11 PTSD and complex PTSD: A latent profile analysis. <em>European Journal of Psychotraumatology, 10<\/em>(1), 1558708.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ferenczi, S. (2010). <em>L\u2019enfant dans l\u2019adulte.<\/em> Payot. (Textos originais publicados entre 1927 e 1933).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fonagy, P., Gergely, G., Jurist, E., &amp; Target, M. (2002). <em>Affect regulation, mentalization, and the development of the self.<\/em> Other Press.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Freud, S. (1955). <em>Beyond the pleasure principle.<\/em> In J. Strachey (Ed.), <em>The Standard Edition<\/em> (Vol. 18, pp. 7\u201364). Hogarth Press. (Obra original publicada em 1920).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Germer, C. K., &amp; Neff, K. D. (2019). <em>Teaching the mindful self-compassion program: A guide for professionals.<\/em> Guilford Press.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gilbert, P. (2010). <em>Compassion focused therapy: The CBT distinctive features series.<\/em> Routledge.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hefferon, K., Grealy, M., &amp; Mutrie, N. (2009). Post-traumatic growth and life threatening physical illness: A systematic review. <em>British Journal of Health Psychology, 14<\/em>(2), 343\u2013378.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Helgeson, V. S., Reynolds, K. A., &amp; Tomich, P. L. (2006). A meta-analytic review of benefit finding and growth. <em>Journal of Consulting and Clinical Psychology, 74<\/em>(5), 797\u2013816.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Herman, J. (1992). <em>Trauma and recovery.<\/em> Basic Books.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Janoff-Bulman, R. 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